terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Carvão"


Carvão

Que sabem da poesia? A não ser o que os mestres da perdição lhes contam.
Que sabem do Viajante Solitário? A não ser o que estava escrito.
Que percebem de palavras a não ser o que os poetas ditam.
Quem conhece, na verdade, o que Herberto diz.
Quem acha que compreende Ferlingheti?
Quem, quem consulta os luares e os desconhecidos insólitos?
Quem acha que viveu no Século Prodigioso?
Quem acha que entende Lichtenstein?
Quem mora na rua dos tijolos secos, laranjas e sujos?
Quem substitui os sacrifícios de virgens a Baal e ao Deus-Sol e os atos sacrificiais de filhos
ao Deus Fumegante da Guerra, pela veneração cega aos deuses do Rock em anfiteatros de transe alienado?
Que percebem de tranquilidade? O rio sabe.
Que sabem da ecologia? De lixo percebem. E como o limpar? Como limpar as nossas cidades?
Como resolver o problema, sem o passar a outro, que passa a outro, que passa a outro, que passa a outro, que passa...
Como antes comunicar ao outro? Que não só ao nosso feio umbigo?
QUE FAZER COM O OUTRO?
Que fazer com o homem que nos bate à porta?
Murmura suplicante qualquer coisa com os lábios, que não ouvimos. Cheira mal, veste pessimamente, tem ar de nómada.
Somos frios o suficiente para aguentar o inferno devorador da nossa consciência?
Ainda conseguimos ignorar que morre gente como pardais nas ruas das cidades do holocausto actual
que criamos?
Será que não fazem falta, por serem árabes ou por serem africanos?
O que nos bate à porta. Seja quem for. Não queremos que nos entre em casa.
Mas a tempestade acabou de rebentar.
Não depende da nossa vontade para travá-la.
Esquecemos que hoje Um bate à porta. É corrido a pontapé como um cão sarnento.
Amanhã batem dois à porta. Noutro dia, são quatro e com seis famílias acampadas no nosso quintal a beberem água da nossa piscina como pardais sedentos.
Um dia, uma revolução passa na nossa rua, que observamos do alpendre do andar superior do nosso paraíso, a beber um mojito.
E certo dia, uma multidão incontável de homens e mulheres com roupas velhas, com fome e doentes invade a nossa casa e expulsam-nos.
E saberemos então. Como será a vida num acampamento de refugiados na cidade onde nascemos?
Como será viver sem duche, televisão e sapatos?
Como será viver sem dinheiro no bolso, sem net e sem fogão? Sem táxi ou cinema? Sem praia, penso higiénico e ar condicionado? Sem a música de Lyle Lovett, Willie Nelson ou Leonard Cohen? E a literatura suja do velho Bukowski? Sem as torradas de manhã e o tinto ao almoço? Sem a poesia de Whitman, ou do grande Ramos Rosa? Sem ouvir o sax de David S.Ware gritar melodias da rua sem fim?
Que pérfido dia! Que posso fazer por vós? Que podem fazer por nós?
Sou apenas o mais comum dos cães sem raça das alamedas despidas da cidade velha.
Não sabemos. Pura e simples. Não sabemos.
Queremos mais e não sabemos do quê! Que morramos já!
A falta que fazemos aos vermes também eles famintos!

Ago.07

...


Poema de 2007. Publicado no meu 1º livro: "Tijolos de Verde Rude", de 2008. Um poema dito por um qualquer homem comum ao balcão da sua tasca preferida. Era para ser um poema escrito por quem não é poeta e apenas expressa pensamentos e inquietações.

Este poema pensa no Outro que nos chega de longe e que olhamos com estranheza. Decidi publicá-lo novamente, aqui. Nestes dias de falta de Razão e Paz. Penso muito nos "refugiados". Não os chamo assim na minha mente. São Homens, Mulheres, Velhos e Crianças. Somos nós que estamos ali também. O Outro somos nós. Somos todos Nós. Esta deveria ser a Fórmula Resolvente a aplicar aqui, ali e acolá.
Bem hajam.

Sem comentários:

Enviar um comentário