segunda-feira, 21 de setembro de 2015

a beleza é assimétrica e repete-se (haicais 2010 a 2012)



verde de troncos
assimétricos e o vento
que não dança

.

chá noturno sem
açúcar e Coltrane - passos
de gatos lestos

.

cão aos pés do
vagabundo – hortas urbanas e
mulheres que passam

.

a mirar o céu,
mulher estende roupa
- uma lágrima

.

outono em lisboa –
homens sérios apanham
chuva fria

.

nudez de corpo,
mulher de oliveira – as
aves saltitam

.

baratas na casa
velha – mulher e cão,
varanda de metal

.

velho com saco,
o elétrico chia sempre
nas curvas

.

muralha do castelo,
daqui vê-se o rio e as fontes
da tua alma

.

bankok - crianças
banham-se em alguidares
grandes – novembro

.

velhos chutam
vida com lata na rua –
rio de janeiro

.

mulher e homem
dançam – chuva leve
de setembro

.

águas de Mississipi –
blues de suor e esguelha
no verão quente

.

não sei haicai
só sei parar o tempo -
câmara ação

.

faz vento e sombra
traz flor amarelo-laranja
que Deus sorria

.

mulher e criança
estrada de terra batida
vão comprar azeite

.

sol entre os ramos
da oliveira – bebe água,
sacia-te e vamos

.

galinhas e o lagar
vazio – outra mulher e sorriso
dinheiro e adeus

.

sol desenha sombras
a menina saltita – tem
flores no cabelo

.

um ombro espreita-me
na vida – por entre os pássaros
que chilreiam lume

.

vento forte no
sopé do vulcão - flor do
Japão resiste

.

fica no mapa o
retângulo - ficam no
mar os rostos


.

oliveira e terra
fado e tão só as almas
em imersão


.

éden sem censo
estrada sem saudade
e tudo mais

.

passos errados -
homem bêbado sorri,
talvez à lua


.

hera lenta no
muro de tijolo – uma
janela brilha

.

mulher caminha
leve, sem peso – doce
canção de vento

.

mulher e menina
pedem pão – as figueiras
dobram-se em dor

.



tão branco quanto
luz - nas dunas, o sussuro
exalado do mar

(foto de Maria Margarida Oliveira Ramos)


.


pardal vai e vem,
o sol esmorece em
nuvens cinza

(foto de Maria Margarida Oliveira Ramos)


.


pescoço para
cima - velho e menino
veem liberdade

(foto de Maria Margarida Oliveira Ramos)

.

sol entre ramos
da oliveira - sacia o
ar do caminho

.


burro – lento,
força simbólica de país
que não desiste

.

velhos sentados
na raiz da árvore
sem sombra

.

mulheres falam
mulheres conversam sem
serem multidão

.

dois rastafaris
saltam no areal e nenhum
marca golo

.

a bola chutada
e a onda não devolveu
vento frio

.  

Mali - no deserto
árvore tombada marca
fronteira

.

já viste um
rosto de fome e frio
sem vazio

.

corno de áfrica
todas as estações são negras
e secas

.

homens esperam
uma chave – sol baila
entre andaimes

.

melro saltita
na relva – criança pesquisa
uma formiga

.


mulher e homem
aguardam autocarro -
choverá hoje?

.  

vagabundo cofia
a barba – cão dorme
a seus pés

.

mulher africana
ri alto – uma festa nos
seus lábios

.

banda de jazz
sem baterista, improvisa
antes que chova

.

onda nos pés
da senhora com frio –
caniche ladra

.

menina pinta
lamenta o mar e céu por
mudar de cor

.

barco atravessa
horizonte, nuvens negras
vento e solidão

.

mar, fim de dia
os passos marcados na
areia – silêncio

.

hospital vazio
ao fundo risos, homem
mostra desenho

.

mulher idosa
observa através da janela
a vida a sumir

.

automóvel trava
esquilo morto – crianças
lamentam

.

viola elétrica
beco escuro de rua velha
homem cego

.

como saberíamos
se não víssemos a fome
na televisão

.

observo fatia
de pão – em quantos pedaços
se pode dividir

.

morrer de fome
realidade atroz mostra
que tudo falhou

.

desligo televisor
oro pelos famintos e mais
um dia de vida

.

dylan canta e as
árvores de new orleans
bailam ritmadas

.

fado improvisado
em taberna antiga – a rua
desce até ao cais

.

lua cheia, homem
de casaco escuro espera
mulher e futuro

.

deserto – viajantes
escutam griot cantarolar
fogueira acesa

.

terra queimada
flor branca vacilante - troncos
negros fumegam

.

árvores, vento
asfalto ondula na tarde
pardais e melros

.

cai a noite, os
passos de quem passa
gratos sorrisos

.

banda de jazz
sem baterista, improvisa
antes que chova

.


sobra o mar
depois do sonho rebentado
do naufrágio

.


poeta tem idade
a oliveira e a poesia
nem por isso

.


trabalho árduo
a solução para a formiga
e para o ocioso

.


cala-te e trabalha,
vento mas isso já tu sabes
faz séculos

.

canção blues suave
em velha telefonia com pó –
tarde quente


velho improvisa
com velho saxofone –
brisa da marina

.


segunda – feira
e o vento com saudades
de ti, oliveira

.


criança brinca
com dente-de-leão
tarde e sol

.


sobra o mar
depois do sonho rebentado
do naufrágio

.


homem observa
o mar – nos seus olhos
a desistência

.


eu e tu – toda
a primavera – e a sombra
das figueiras


rua de alfama
bashô sorriria  aos
gritos do mulherio

.


Deus não é um
plátano-gigante mas sim
todas as primaveras

.

Luis, o vagabundo
vende brinquedos de lixo
por pão e sopa


era tão tarde
ela tão bela eu tão
cansado - noite


cipreste dança -
o autocarro não espera
e não importa

.


oitenta pardais
dois aguaceiros, um céu
ao entardecer

.

o gelo estalado
baila em kamsko votkinsk
terra de thaikovski


beleza da flor
vestida como mulher
de mel

.

os seios nus
o lago estendido no
calor – tarde

.

tronco morto
pequeno pisco saltita
e logo voará

.

verdes de troncos
assimétricos e o vento
que não dança


duas formigas –
- não lutam pela mesma
folha de erva

.


nascem as sombras
a noite e os teus passos
hera lenta

.

(pollock)
novembro de frio –
tela espalhada na cor
de várias dores


(dali)
com uma colher
na mão – na sombra da
figueira, o sonho

.

(pablo)
dorso de mulher
ilha e vento, casa caiada
pintor e sorriso


(klee)
nas costas do
Verão a criança pinta –
klee observa


(van gogh)
absinto e ventanias
os monstros trazem fogos
alados – primavera


(rothko)
mestre, cante-me
a melancolia dos edifícios
enquanto chove


(miró)
fecho os olhos
para te ver na cor do
tombo – barcelona

.

(frida)
vulcão rasgado
ventre de agonia – sol
e terra vermelha



(chagall)
anjo preso ao
violino – céu azul onde
metáfora voa


(klimt)
volúpia de seda –
a nudez ronrona como
vida quente


.

o haicai longo
revoltou-se e gritou
para onde fostes, vento...

.

... o haicai curto
respondeu: abre os olhos
estou onde sempre estive.

.

(brasil)
vento leve - vem
do brasil - como samba ou
bonito sabiá

.

assimétrica e repete-se

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Abrir o caminho

com buldózer, para plantar betão, deitar abaixo a árvore feia e domar os selvagens nus que viviam debaixo dela. Os selvagens revoltaram-se com danças e fogueiras. Chacinar os que mais gritavam. Educar os outros. Regar tudo com betão. Decorreram várias gerações. Começou a faltar a água e o ar. Destruir o betão. Plantar árvores envergonhadas e cultivar ervas de comer. O selvagem voltou, com i-phones e net. Depois da exaustão da roupa, novamente a nudez como moda. As fogueiras e os cantos neo-hippies. Os antigos selvagens, os seus descendentes foram para longe, onde houvesse água de beber e sombra. Agora, foi a árvore velha que se revoltou. Expulsou os neo-selvagens e já não admitiu ninguém. No seu tronco, habitam ervas não-comestíveis. Na sua sombra, pequenos animais que não se comem uns aos outros. Subitamente, uma velha paz.