quinta-feira, 25 de junho de 2015

MELANCOLIA

é a herança genética trágica e cómica dum povo. Como é fácil escrever isto, como se nos desculpássemos pela nossa cara de pau perante os dias. Imaginemos uma stand up comedy em que somos nós os comediantes e tentamos a todo o custo fazer rir Deus, mas ele não está a achar piada nenhuma, apenas o Diabo se ri às gargalhadas. A melancolia não tem nada a ver com isto. Melancolia é ser português. E viver agora. Assim. Esconder as cores vivas na sub-cave da vergonha, exibir as cores pastéis mais modestas e esperar que ninguém nos reconheça na multidão. Não é assim? Então não percebes nada disto. Onde estiveste este tempo todo? Não esperes ver essas séries intermináveis de televisão, prenderes o tempo nessas redes de cyber-sociabilização duvidosa com personagens de desenho animado e meteres o buço nessa literatura fantástica de dragões, cavaleiros e ninfas com anemia e depois, perceber a vida? Quando é que conduziste o teu horrível utilitário brilhante por fora e sujo por dentro, sem o rádio ligado, sem o silêncio ligado? Quando é que andaste de metropolitano e autocarro pela cidade e periferia e cidade novamente, sem uma porcaria sonora da apple nos ouvidos e sem um pedaço de folhas e cartão colorido chamado livro, ou outra treta que te distrai a atenção de ouvires o ambiente e quiçá falares com pessoas? Quando é que aceitaste o teu estado de espírito como ele te chega e não o abafaste com uma alternativa química cheia de efeitos secundários, o que explica muita coisa, não achas? Melancolia é ser. Sempre existiu, um dia alguém inventou uma palavra que não tem a culpa de ter sido inventada. No reino das palavras, a melancolia é como um homem doente que não contamina os outros, e todos preferem ignorar que exista, mesmo que ele esteja parado á nossa frente, a olhar para nós. E todos olham para outro lado. Talvez se eu o ignorar, ele se vá embora. Tal e qual a sociedade faz com os velhos. Mas o realismo tem a sua justiça. Hoje eu ignoro o velho, amanhã serei eu o velho e morrerei de solidão. Fatura paga. Melancolia é a inevitabilidade da consciência. De se saber que se é caçado pelos genes e nada poder fazer. Melancolia é isso tudo, e ignorá-lo sempre.

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