terça-feira, 30 de junho de 2015

MERCADORIA

o ofício
de colorir
a transparência

o oculista manda o óculo
de sol
o cliente quer lentes graduadas

para ver melhor
querem ver tudo, as pessoas
fazemos a vontade

mandamos fazer as lentes
vêm transparentes, afiadas
por cortar

cortam as mãos
são limpas em álcool
e acetona

são marcadas
se a cor for em degradê
para que se acerte

o eixo da lente
são mergulhadas
em colorante

e misturadas vezes sem conta
até ficarem da cor da amostra
são limpas novamente

em álcool
que faz
arder as mãos

ah, as mãos
ardem também
quando encardidas

as limpo e as lavo
com lixivia
para tirar o tom esverdeado

na pele
entre o polegar e o indicador
onde seguro as lentes

para as limpar
e lavar
e limpar novamente

até ficarem
perfeitas
se não as riscar

e então
repetir tudo
pensando bem

andamos a repetir
tudo
uma e outra vez

e nada
aprendemos
mercadoria

somos mercadoria
nos corredores
do tempo

alguém pegará em nós
e iremos
ser despachados

e devolvidos
uma nota de crédito
e voltamos ao armazém

muitas devoluções
faz com que
fiquemos estragados

iremos para a caixa de cartão
das devoluções
já não podemos ser vendidos

nem devolvidos
objetivo: destruição
há abatimentos nas finanças

no fim
e tudo
começou com

o ofício
de colorir
a transparência

quinta-feira, 25 de junho de 2015

MELANCOLIA

é a herança genética trágica e cómica dum povo. Como é fácil escrever isto, como se nos desculpássemos pela nossa cara de pau perante os dias. Imaginemos uma stand up comedy em que somos nós os comediantes e tentamos a todo o custo fazer rir Deus, mas ele não está a achar piada nenhuma, apenas o Diabo se ri às gargalhadas. A melancolia não tem nada a ver com isto. Melancolia é ser português. E viver agora. Assim. Esconder as cores vivas na sub-cave da vergonha, exibir as cores pastéis mais modestas e esperar que ninguém nos reconheça na multidão. Não é assim? Então não percebes nada disto. Onde estiveste este tempo todo? Não esperes ver essas séries intermináveis de televisão, prenderes o tempo nessas redes de cyber-sociabilização duvidosa com personagens de desenho animado e meteres o buço nessa literatura fantástica de dragões, cavaleiros e ninfas com anemia e depois, perceber a vida? Quando é que conduziste o teu horrível utilitário brilhante por fora e sujo por dentro, sem o rádio ligado, sem o silêncio ligado? Quando é que andaste de metropolitano e autocarro pela cidade e periferia e cidade novamente, sem uma porcaria sonora da apple nos ouvidos e sem um pedaço de folhas e cartão colorido chamado livro, ou outra treta que te distrai a atenção de ouvires o ambiente e quiçá falares com pessoas? Quando é que aceitaste o teu estado de espírito como ele te chega e não o abafaste com uma alternativa química cheia de efeitos secundários, o que explica muita coisa, não achas? Melancolia é ser. Sempre existiu, um dia alguém inventou uma palavra que não tem a culpa de ter sido inventada. No reino das palavras, a melancolia é como um homem doente que não contamina os outros, e todos preferem ignorar que exista, mesmo que ele esteja parado á nossa frente, a olhar para nós. E todos olham para outro lado. Talvez se eu o ignorar, ele se vá embora. Tal e qual a sociedade faz com os velhos. Mas o realismo tem a sua justiça. Hoje eu ignoro o velho, amanhã serei eu o velho e morrerei de solidão. Fatura paga. Melancolia é a inevitabilidade da consciência. De se saber que se é caçado pelos genes e nada poder fazer. Melancolia é isso tudo, e ignorá-lo sempre.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MONOTONIA

é a felicidade. A monotonia é um bairro de casas velhas e parecidas. Uma casa velha pode-se pintar de cores abertas. A monotonia é a vida que não termina. A monotonia é os dias das crianças. As crianças abrem portais de tempo que nunca se esgota. Os adultos lutam por nada, as crianças brincam com tudo. A monotonia é Deus que não tem um tempo que começa e acaba. A monotonia é a felicidade de estender a roupa quando faz calor e comer um gelado de gelo e sabor à porta do café vazio. A monotonia é as canções de Tom Waits nos finais de tarde pesados e gordurosos de suor. A monotonia é a lentidão do crescimento das grandes árvores. É uma pena perder os mundos que crescem no seu regaço. A monotonia é o bairro onde cresci, que se pode desenhar de um lado ao outro, com traços finos em papel rugoso. A monotonia é um texto poético que se espreguiça como só um gato sabe.

sábado, 6 de junho de 2015

sons improvisados em música sussurrada

como chove
o vento é saxofone

chove mais
baterias e tijolos

casas velhas
e risos nas poças

um velho táxi
pára

uma irlandesa de sardas e idade
quer ver o céu

- to the river, please
música num dia vazio

de gente na cidade
jazz grátis

sentado e o livro a ler-se sozinho

sentado
o homem velho adormece

o livro no colo
de páginas amarelas

e capa de cartão
com orelhas

o cão
dorme ao lado da garrafa

de aguardente
barata

o rádio canta
e engasga-se

na sala
uma porta

para a cozinha
uma janela para a rua

uma aldeia
varrida pelo vento

eucaliptos
e um largo com uma igreja

uma estrada
e uma placa, mais eucaliptos

enormes silenciosos
perfumadores

na sala do homem velho
alguém ressona

o cão
o homem

o livro cai
baque surdo no tapete gasto

sentado e a dormir
o homem apoia a cabeça no vazio

o livro caído
aberto numa página do meio

a ler-se
sozinho


sexta-feira, 5 de junho de 2015

um prédio azul

as varandas secas
de gente

roupa estendida
um cão ladra

a quê
homem velho fuma

nuvens cinzentas
chove

alguma roupa sai dos estendais
o cão cala-se

janela aberta
uma televisão lá dentro canta

chove
um prédio azulado