sexta-feira, 15 de maio de 2015

“Novos caminhos da escrita poética” by Carlos Teixeira Luís


Certa vez, Lawrence Ferlinghetti (autor e editor da City Lights), disse em entrevista a John Freeman (então editor da Granta), lá para o ano de 2005, que “publicar um livro de escritos poéticos continua a ser como deixá-lo cair de uma ponte e esperar que se ouça o estrondo e que habitualmente, não se ouve nada.” Interessante esta entrevista publicada posteriormente no livro: “Como Ler Um Escritor”, editado pela Tinta da China, em 2013. Com respeito à opinião do autor de “A Coney Island of the Mind”, concordo. Edita-se um livro de escrita poética e o mundo não dá por nada.

Mesmo que seja algo novo, provindo de gente nova, não se ouve o estrondo. Ninguém ouviu o estrondo quando se editou: “Fera Oculta”, no ano passado por Vasco Gato (1978), quando surgiram como objetos não identificados os livros: “Contra a Manhã Burra” e “Quando Escreve Descalça-se”, aqui há poucos anos atrás por um puto de barba chamado Miguel-Manso (1979), apenas um pequeno submundo se agitou. Posso dar mais uns parcos exemplos, Nuno Moura (1970) e a sua “Nova Asmática Portuguesa” ou o seu “Prémio Nacional ...”, veja-se no You Tube a sua carismática intensidade de declamação, única e viva. Ou Golgona Anghel (1979) com: “Vim Porque me Pagavam”, pois com certeza porque outra razão seria, dona ironia. Manuel de Freitas (1972), com as suas: “Jukebox”, a um, a dois, a trés e as seguintes, com a sua editora de combate contra a ideia feita de que a escrita poética é isto e aquilo, com os seus: “(Autores) sem Qualidades”, toda uma geração retratada ou não retratada em leituras a levar em conta. Com Diogo Vaz Pinto (1985) e companhia, concebendo uma “Creatura” e muito mais “Nervo” para dar e vender. Fez algum estrondo? Fez, mas o mundo insiste em olhar para o lado. Sempre o outro lado, sabe-se lá para onde.

Pois, tudo malta nova. Coisas novas nascem todas de malta nova. Será? Até desaparecer, o luminoso António Ramos Rosa (1924 – 2013), sempre foi novo, no ano em que nasci, escrevia: “Estou vivo e escrevo sol” (1966), seria um “boi da paciência”, com devidos ressalvos, que não se quedou como “Funcionário Cansado” e as suas palavras juntas como vento leve ficaram eternas e sempre novas. E agora Herberto Helder (1930 – 2015). Eu luto com o seu “Ofício Cantante”,  escrever que a música jazz inquietante da escrita do “mestre” é sempre nova, é assumir a impossibilidade de a classificar e espartilhar, a sua escrita é livre, é viva e não morrerá. Manoel de Barros (1916 – 2014), tudo era brilhante e atento à vida numa pequena escala de cosmos em que só os autores de exceção penetram. Meus amigos, a escrita de Manoel de Barros sempre será nova. Continuando na minha lista particular dos bons velhotes, chego a Ferreira Gullar (1930 - ), o seu: “P. Sujo” (1976), nas suas condições de criação, sempre será um objeto maior de estudo e inquietação para almas novas e jovens que se projetam para a vida madura. No ano de 2010, é editado pela Bebel, a propósito dum prémio, o seu: “Em Alguma Parte Alguma”, escrita encantada com o dia e a noite, desempoeirada, hey malta nova, façam melhor, nada mais novo e fresco. Perdoem a lista muito pessoal, mas novos caminhos não quer dizer por si só, gente nova. E sangue novo não quer dizer criação original.

Abriu-se em Lisboa uma livraria só de escrita poética a “P. Incompleta”, do mestre “Changuito”, não o mestre do jazz cubano, outro, este novo, louco e audaz. E fechou-se a livraria. Houve estrondo? A livraria Trama. Houve estrondo? Um pouco aqui e ali. Nada mais. E outras, centenárias. Sai imensos outros livros, de autores desconhecidos, voltou a ser editado um: “Anuário de (escritos poéticos) de autores não publicados” por uma editora que nos educa por anos e o estrondo? Bom velho Ferlinghetti, tens e continuas a ter razão.

Mas que sei eu, um tema destes é o ideal para teorizar, divagar e espalhar-me ao comprido em incongruências.

Escrita. A palavra. Escrita poética. O produto? Era digital. A era. Era virtual? Virtual de alternativo, paralelo, utópico, idílico, sonho ou pesadelo? Era facebook? Ou era twitter? E a escrita poética? Que se passa com a escrita poética? Porque é sempre chamada? Culpada. Como um produto ultrapassado, absoleto que não se vende. Pergunta pessoal: Porque se vende escritos poéticos? Porque tudo é um produto? Porque não trocamos um escrito destes por um prato de sopa, um copo de vinho ou um beijo feminino ou uma conversa ocasional? Escrita na era facebook, é como tentar usar o sol para uma impressão em postal para vender a turista. Rebuscada esta tentativa analítica. Também há turistas sem interesse literário. E o sol é de todos.

Novos caminhos da escrita poética. O título por si só, sugere equivoco, utopia e engano. Escrita no século XXI. Palavra a palavra. Sem o medo de triunfar. Passo a seguir a outro passo. Não há passos sem quedas. Experimentar. Que escrita poética após Auschwitz, como questionaria Theodor Adorno (1903 -1969, filósofo alemão)? Que escrita após Camões, após Pessoa, após HH? Que novos rumos?

A escrita poética é árvore que não morre. Casca a casca, vai-se renovando, milénio após milénio, enquanto dure a humanidade. Escrita poética visual. Existe escrita poética digital? Virtual? Neste último caso, o mundo poético dentro da estranha conjugação de novas expressões, adjetivos e outros estilos; é uma espécie de lego lexical para todas as idades. Com edição livresca ou sem edição. Os novos caminhos. Como se alguém soubesse quais. Inventar e fazê-lo de novo. Outra vez. Mais uma vez. E outra. E mais outra. Abstração e estranheza. Pois com certeza. Pergunto se nalgum dia soube o que é. Escrita poética. Nunca foi assunto que me preocupasse. O que conta é atirarmo-nos atrás da Alice pelo buraco que cai incessantemente e que nos leva ao outro lado do estranho país das maravilhas. Nesse deslumbrado mundo, sou o Chapeleiro Louco, completamente perdido. Fazendo esforço para me perder novamente, uma e outra vez, vadiar. Uma expressão que aprecio neste sentido. Vadiar e perder-me da Alice, ela terá a sua história e aventuras. O sentido da escrita, que ideia estranha, o sentido de todas as direções. Norte, sul, este e oeste, para baixo, para cima e para os lados. Para dentro e para o outro lado. Escrita poética? Porque não chamo... Que autores para os novos tempos? Que divórcio para velhas ideias? São todas más agora, só porque são velhas, as ideias? Existe escrita nova com ideias velhas? No fundo, existem verdadeiramente ideias novas? Pode-se falar numa nova escrita? Não é a escrita poética, léxico que se gasta e abusa, uma ideia velhíssima? Não nasceu o escrito poético do canto e a prosa da fala? Ou nunca foi assim? E o que é hoje? Diferente ou a mesma coisa de sempre? Que seria de Baudelaire nestes dias de agora? Um Baudelaire com internet. Mas o mesmo Baudelaire, com um novo programa de vocábulos, cheio. As mesmas flores do mal, com mais perversidade, o mesmo perfume? Que seria hoje o jovem Rimbaud? Teria uma banda techno-gótica? Acredito que se vestiria de todas as cores e que seria negro, como sempre o foi. Seria engolido pelo abismo subtil desta era? Ou sorveria o mundo todo duma só vez? Provavelmente enlouqueceria como todos nós. Que há de novo? Que há de novo debaixo do sol, rei Salomão, diz-me? Espíritos velhos como a árvore. Empedraram a mais velha das veredas para dizerem que é um caminho novo. Novo o caminho, a antiga estrada real, a estrada nacional, ou a autoestrada? Não nos leva ao mesmo sítio? Não? Não. Apenas com velocidades diferentes. Aonde fomos parar? Aqui. Com ares e sinais de estarmos além. Onde não há nada. Nem caminhos. Só terra e ervas-selvagens. Terra de ninguém. Os novos caminhos. Vieram aqui dar. Faremos novas construções, uma estátua de memória gloriosa ou outra e diremos que é novo. Outra vez. E outra vez. O que pode ser mentira, mas o que é que isso tem que ver com a escrita? Mais uma vez, o que é a escrita poética? Sonho? Ou um interminável nightmare, sim um pesadelo, vocábulo sem poética nenhuma. Não é assunto que me preocupe, o que é novo tem as costas largas. O que é novo pode muito bem ser, muito velho. E não sei se aqui a vice-versa se aplica. De tudo o que se alimenta da escrita e que pouco alimenta os autores de poéticas maldades.

Creio que um dos caminhos da escrita, seja a rua. Vender escrito a escrito a quem passa. Onde já o vi fazer, sem ser num filme com a Julie Delphy. O autor andrajoso que vende escritos a quem passa por umas moedas, numa rua junto ao rio, em Viena. Agrada-me a ideia. Vai um escrito... poético? Por 0,60 cêntimos o preço dum café. Ou mais um pouco, se for na livraria Fnac ou na Bertrand. Livraria? Faz tu mesmo. Bem vindo à era da bricolage literária. Escreve tu mesmo o teu clássico. Edita. Faz o livro. Vende-o na rua. No trabalho, se o tiveres. No prédio onde moras. Lembra-te: houve um tempo em que os livros se compravam em livrarias. Imagina só. Faz. Do verbo: fazer coisas. Cria novos produtos. Vende o teu produto barato, produze-o o mais barato que possas e terás lucro. Desde que o preço de venda abranja tudo isto. A regra áurea da economia global. Torna o teu produto atrativo e desejável. Promove o produto, de modo que seja visível e apetecível, sempre ao nível do olhar em qualquer lado em que esteja exposto. Percebeste a lição?, acabaste de matar a escrita poética, não te preocupes, a escrita ressuscitará, assim que se livrar de ti. Nascerá com outro corpo. Já não terá que ver contigo, coveiro de ideias, imprestável e desatento. E o que sei eu? Sou apenas um homem-árvore, um escrito esquecido. Uma folha que se desfaz antes da nova estação. Que venha a próxima e boa noite.

Vou-vos contar uma história. Certo dia, decidi ir ao Paralelo W. A propósito da edição do meu livro de escrita poética: “Homem-Árvore”, editado pela editora Lua de Marfim. Experiência que o editor e amigo Paulo Afonso Ramos, me ajudou a conceber. Modestamente e a medo. O Paralelo W é uma livraria. Pertence a Manuel de Freitas, Inês Dias e amigos, e situa-se na Rua dos Correeiros, 1º andar. Abre quase todos os dias e tem porta fechada. Para entrar basta bater à porta ou tocar á campainha. Manuel de Freitas, além de editor da Averno, uma editora que publica escrita e literatura diferente, duma forma muito pessoal e cheia de arte, procurando dar passos em frente na qualidade dos seus textos; é também um conceituado crítico literário, principalmente de escrita poética, no Expresso. Sabia isso quando fui lá. Já tinha tido alguns contatos com MF por causa de textos enviados para a editora Averno. Além disso, leio MF. Admiro-o como artista das letras. Mas não o conhecia pessoalmente. Na altura, em Setembro, Outubro de 2013, depois de saber a morada do Paralelo W, meti-me a caminho e lá fui de carro à baixa de Lisboa. Quase à aventura, para estacionar e para circular naquelas ruas caóticas para quem conduz. Mas teimoso, a ouvir o meu jazz dormente, lá fui. Na primeira vez que cheguei á porta do Paralelo W, estava fechado. Perguntei não me recordo agora muito bem, num cabeleireiro no andar de cima, a rapariga simpática disse-me que por vezes estava fechado e que tinha um horário pouco habitual. Como era de manhã, fui-me embora e voltei nessa tarde. Toquei à campainha e o próprio Manuel de Freitas abriu-me a porta. Convite para entrar. Apresentei-me como autor autodidata e mostrei o livro: Homem-Árvore. Falei um pouco da editora Lua de Marfim. Simpático e afável, MF mostrou-me a livraria, falou um pouco da constituição do grupo de pessoas que estavam por detrás da sua criação e manutenção. 2 salas cheias de livros, misto de biblioteca e livraria. Muitos livros de escrita poética e da Averno. Na sala seguinte, espaço para 1ªs edições, edições raras e edições especiais. A um canto, a sua secretária, onde se sentou enquanto eu mexia em tudo e nada comprei. Notei em algumas garrafas de whisky na sua secretária, imaginei-me a beber um trago com MF, dissertando sobre o meu livro. Opinei e elogiei a escolha, espaço, arrumação e aura do local. Agradeceu. Perguntei se podia expor o meu livro. Negociamos um valor de venda e comprou-me um livro. Se vendesse aquele, compraria outro. Pedi-lhe uma opinião sobre a minha escrita poética, disse que o faria. Agradecimentos. Prometi voltar, não o fiz, mais por gestão do meu desemprego e MF até ao momento não deu notícias. Nem por sombras haverá em mim algum ressentimento, expetativa ou o que for por isso. Só relato este episódio, educado e civilizado, porque foi o mais perto que estive dum verdadeiro crítico literário. Apenas isso. O mais longe que permitiu a minha timidez. E espero regressar ao Paralelo W, gostei daquilo.

Promovo os meus livros assim, de boca em boca. Tímido sim. Sou e serei, sempre. Gosto de pessoas e de conversar. De ouvir. De observar as pessoas a falar. De ler a conversa em todas as variantes.

- Dizem que travo amizades depressa. Já em miúdo era assim.

- Dizem.

- Também dizem que falo pelos cotovelos.

- Uma habilidade? Dizem.

- Dizem que tenho ar de ser boa pessoa e de ser rico. Peço trabalho a arrumar caixotes e não me dão trabalho porque dizem que mereço fazer outra coisa. Nunca percebi isso.

- Dizem? Mas dizem tanta coisa.

- Como, por exemplo?

- Dizem que és parvo.

- Mas isso és tu que dizes.

- Só eu?

- Sim. O quê? Pareço ser parvo?

- Sim. Dizem.

- Quem? Dizes tu.

- Dizem.

- Agora quem está a ser parvo és tu.

- Então é porque sou.

- Na volta, é o que dizem.

- Deve ser.

Voltando à escrita poética, quando um livro vende, estou convencido de que algo correu mal. O que é que corre mal para um livro de escrita poética vender? Onde se falhou? Foi o autor? Escreveu uma coisa agradável, reconhecível e apreciável? O editor? Editou uma peça de forma que seja consumida como pãezinhos ou bolinhos de coco? A editora? A máquina de marketing empenhou-se a chamar atenção para o objeto literário promovendo-o nas bombas de gasolina e nos supermercados ao lado das promoções das bolachas ou dos pneus em promoção? A distribuição? Colou o livro ao lado de todos os Tolstói, Kafka, nóbeis e outros premiados? O design? A foto da capa com gatinhos e mulheres desnudas e landscapes paradísicas? O fabrico? Um livro em papel macio, ás cores e com muitos bonecos? O produto? Pode um livro de escrita poética ser um produto? Pode, claro. Com o marketing “certo”, a coisa vende. Eis a resposta. A coisa pode vender. Mas é preciso que muita coisa corra mal. A começar na escrita poética, em si.

Na minha parca experiência, em sites de escritos amadores, vi muitos casos de quem se achava genial a escrever o que achava ser único e original. Como por exemplo na chamada escrita espontânea à Kerouac ou à Ginsberg. Faz lembrar parte de uma entrevista feita a Lawrence Ferlinghetti, em que se aborda esse assunto. Transcrevo-a em parte:

“O Sr. costuma ser chamado de “o último beat”, mas já li declarações suas dizendo que não gosta do epíteto.
Eu me associei aos beats mais por ter sido editor deles. Mas minha poética é diferente. A minha escrita poética foi influenciada por franceses como Apollinaire, Jacques Prévert e outros voltados para a cultura europeia. Os beats não iam por esta linha. Havia outra diferença. Sou heterossexual. Metade dos beats era gay.

Quais as principais diferenças em termos poéticos?
A poesia de Allen Ginsberg era baseada na ideia do “primeiro pensamento, melhor pensamento”, um conceito que ele pegou do budismo. Jack Kerouac acreditava nisso. Você escreve a primeira coisa que aparece na sua cabeça, sem censura. É um modo profundo e verdadeiro de conceber escrita poética. O que você escreve primeiro é muito frequentemente melhor do que o que consegue depois de burilar o texto. Mas isso é mais verdadeiro se você é Ginsberg, um gênio com a mente original. Mas se você ensina isso para centenas de estudantes de escrita poética, como Kerouac fez numa escola em Colorado, não vai funcionar. As pessoas têm mentes comuns e produzirão alqueires de escrita chata. Ele pregava que as pessoas deveriam escrever sobre a primeira coisa que vissem logo que acordassem. Isso pode ser lindo no olhar de Ginsberg, mas não funciona para todos. Imagine: “Acordei. Vi minha escova de dentes. Ela caiu no chão. Abaixei para pegá-la”, fim do texto (risos).”

(Segunda-feira, 19 novembro 2012 – Lawrence Ferlinghetti (n.1919, com 93 anos), autor e editor da City Lights Bookstore de San Francisco, em entrevista à Folha de São Paulo).”

Portanto, precisa-se de mentes originais para se criar boa escrita. Escrita nova e bela. E pá, se não conseguires, faz o teu melhor. O melhor da escrita é o prazer que nos dá, quando a escrevemos e quando a lemos.

Veja-se nestes casos:

“noites acabadas de chegar” de Paulo Afonso Ramos (Lua de Marfim, 2013)

“Boa noite…”

Um livro especial. Dedicado ao falecido pai de Paulo Afonso Ramos. Mas o livro não se encerra – não se encerra numa só leitura. Aparentemente um pequeno livro simples, de prosa poética. Um livro importante na carreira literária do autor, o seu oitavo. Carregado de ternura e sensibilidade. Um editor que acreditou em mim. Que viu além dum pobre homem que escreve, que sabe que não é autor de poéticas antológicas e que lamenta desiludir quem confia o contrário. Nós sabemos coisas de nós próprios. Mas por confiança deste audaz editor saiu o meu único – único livro de escrita poética – escrita essa como queria inicialmente. A este amigo devo-lhe este ato de amizade e confiança. Nunca lhe poderei agradecer convenientemente. Só cito este pormenor, grande pormenor porque este mesmo facto condicionou a minha leitura. Não a prejudicou, fez-me ver para lá dum simples livro, com uma capa interessante de Inês Ramos, que inicia uma nova coleção da Lua de Marfim, chamada Lua Nova. Li o livro, seguindo os conselhos no último CD de Gil Scott-Heron (I´m New Here), o autor poético da declamação hip hop (1949 – 2011). Este CD, é também um livro de  escritos poéticos dito pela voz e capacidade única de declamar de Gil Scott-Heron. No interior do CD vinha o conselho do próprio autor de que aquele objeto deveria ser ouvido, não no carro, não aos auscultadores de qualquer ipod mas em casa com silêncio de fundo, com toda atenção. Segui este conselho com o livro de Paulo Afonso Ramos. Li e ouvi-o dentro de mim com todo o silêncio do mundo.

“Não Desistas”, aconselha o autor. Terno sem ser lamechas. Encorajador sem ser autoajuda esotérica. Este livro mostra o seu progresso e maturidade numa escrita que começou em sites de escrita. É nova, é única? É. Não o deixa de ser.

”E as sereias dançam no meu olhar, o Sol aquece as minhas mãos e a boca cala.”

“Escrevo mundo. E as sereias dançam no meu olhar, o Sol aquece as minhas mãos e a boca cala.

Escrevo silêncio. E um abraço apertado acontece, a solidão aparece e a boca cala.

Escrevo Vida. E a dança é olhar, o sol e um abraço e o silêncio já não é boaca.

Escrevo Obrigado. E a vida é abraço quente, olhar atento é feito de silêncio e a boca é beijo.

Escrevo fim. E o caminho fica sem vida, o sol deixa chegar a noite e tudo é só silêncio.

Não escrevo. E adormeço.”

Escolhi este texto como exemplo porque o livro é um abraço ao leitor. Mima-o e tenta dar-lhe algo mais do que uma mera leitura. O tal abraço.

“Boa noite.” – lê-se ao finalizar o texto, no livro.

Mas há mais casos. Por exemplo:

“Identidades” de Conceição Bernardino (Lavra… Boletim de Poesia – 2013)

Visceral, soco a soco, a 3 vozes, ou a mais 2 vozes: “ainda ontem saltei o muro de Berlim” – em correria, escrita que nos cospe na cara e pede licença depois, obriga-nos a abrir os olhos ao Sol. Fere e seduz. “ – Cala-te de vez maldita!” Esta escrita não se cala, fica a rodopiar nas entranhas. “O Füher acendeu a tocha”. Irrompe como um louco Vinnie Jones em grito de fúria do ecrã “desta lacónica pátria” até nós, apanhados de surpresa, ou como um Erik Cantona de pé em riste – direto às nossas fuças. A 1ª pancada é a que dói mais. A escrita prossegue num “no choro de um silêncio tão ruidoso”, consome-nos com tiras de frases antológicas e brilhantes, sem piedade: “não rasgues o céu que não te pertence”, sei lá, que farei?, refugio-me antes nos “nós do arame farpado dos teus gritos.” Livro a 3 vozes, Conceição Bernardino, a poeta e 2 personagens: Carlos Val, o sedutor e Mathilde Gonzalez, inconfortável, “E eu? Que nem amor nasci, tantas respostas me quis dar, atraí uma morte prematura.”

Carlos Val: “Os homens também choram”. Pergunta-lhe: “despi o rosto onde as falas são monólogos / abracei a dor dentro das sombras submersas / olhei-te de novo, nos meus sonhos”. Não se faz isso a um homem. Ele sofre. Nós lemos a sua “profundidade”, a sua ânsia, mental e de corpo, “dói-me esta nudez onde o cio se agasalha”, esta febre, “dentro do desassossego”. “Ama-me / Para que eu possa repousar no teu peito / A vida que desconheço”. Conceição, criaste-o, agora ama-o “antes do fim”, antes que morra com “o frio dentro deste inverno de cal” rumo ao “lado mais oculto da noite”. Criaste-o, agora ama-o. Cuida-o. “ – Morre-se lentamente.” Ah, mas isso somos nós. Nós todos.

Mathilde Gonzalez: Porque sofre? Quem te educou com “serpentes de aço”? “Fui crescendo na morte que corroía as linhas paralelas das minhas mãos semiabertas.” Alma bipolar, “onde a luz e as sombras se encontram”. Tens negros caminhos debaixo da sola dos teus pés: “A vida é tão estúpida que estupidez alguma a reconhece quando no lamaçal a morte se finge acordada.” E a luz, Mathilde? “Toquei-me”, “caí num êxtase selvagem”, “parto sem me vir”, “e a solidão avança sem me condenar às exigências da linha reta onde pendurei as minhas veias.” E esse teu segredo, que te corrói? Diz, vamos, fala: “não quero um corpo”… “Não me mintam à mesma hora de sempre!” E o tempo? “Quando acordei já te pertencia.”

Escritora mulher forte, dona do domínio duma linguagem rica e brilhante, inventa - se inventa um mundo - mundos assim. Abençoado cérebro que concebeu tal Arte. Lavra trilhos floridos e veredas arbóreas no campo minado do presente. Dias difíceis estes! Conceição Bernardino, “a içar cravos e a caligrafia dos pássaros.” Não pares. Nunca pares. (“Identidades”, Conceição Bernardino e seus pseudónimos Carlos Val e Mathilde Gonzalez.) Original? Voz própria? Sim, claro que sim.

Gostava de citar mais dois exemplos. Dos rios da internet para o mundo.

 Henrique Pedro, 2 Livros. Também o conheci em sites de escrita. Desde então, manda-me escritos e trocamos de livros. Associo-o a Whitman, uma associação muito pessoal e particular.

“Sou o p. do Corpo e sou o p. da Alma”

“Creio que uma folha de erva não vale menos que a jornada das estrelas”

“O que é a razão? O que é o amor? O que é a vida?”

“A minha fé é a maior das fés e a menor das fés”

“Se não estiver num lugar, procura-me noutro,/ Algures estarei à tua espera.”

(Walt Whitman – tirado de Leaves Of Grass, ou Folhas de Erva – 1855, donde haveria de ser, dude?)

Os 2 livros de Henrique Pedro são: “Introdução à Eternidade” e “Mulheres de Amor Inventadas”, ambos de escrita poética, editados em 2013 pela editora “prosa Y p.”.

Que me perdoe o autor Henrique Pedro por estas citações de Whitman em epígrafe mas foi por causa deste clássico autor americano e do primeiro escrito que escrevi em certo site de escrita de gente amadora que o autor HP retribuiu com umas simpáticas boas vindas. Eu tinha um texto de diálogo com frases de Whitman e foi um dos meus primeiros textos postados ou publicados no mundo da net. Fica bem assim, associar Whitman a esta relação de leitor com o poeta HP. Desde 2008 que o leio. Uma vez, escrevi que Henrique Pedro escrevia sempre o mesmo escrito. Também Whitman, um longo escrito, com a América e o Cosmos lá dentro. Voltando a HP, os seus 2 livros têm uma edição cuidada, bela e muito digna. Livros de capa e texto em horizontal fornecem uma forma menos usual de ler os escritos, mas confortável. Sabe bem ler livros assim. Respeitam o leitor, dignificam o autor.

“Mulheres de Amor Inventadas”: “Há sempre uma mulher que me inspira”. A mulher, um dos gloriosos temas de toda a escrita. “As mulheres de todas as cores, condições, belezas e confissões.” Angélica: “Foi o meu primeiro grande/ mas não definitivo/ amor”. Euníce: “Enquanto que a paixão/ é a sombra do amor-próprio/ a ilusão/ irradia/ refratada/ nos prismas do coração”. Charlotte: “Eu descobria o Werther de Goethe/ em mim …”. Maria Papoila: “Tu és o passado/ eu sou o presente”. Benilde: “pálida, silenciosa e fria”, saibam porquê. Aléxia: “amor com suor/ prazer com sabor/ a sal”. Cinderela, Indira, Nina Nim, Argentina como mulher : “Não chores por mim”, Anónima, Paris, que sempre foi uma mulher, Beatriz, Valquíria Sigrdrifa: “Sinto-lhe o corpo/ finjo-me morto”, Sarah, Soledade, Gioconda: “A sua boca cala-se/ e se fala/ é para nada me dizer”, espaço para fadas de “santa sensualidade” . Enciclopédia poética da Mulher. “Obrigado, amor/ (…) por não te importares que o vento/ espalhe o teu perfume/ em campo aberto/ para tudo perfumar”. O amor do autor Henrique Pedro perfuma a sua escrita.

“Introdução à Eternidade”: Tema recorrente ao autor, o “infinito”, o distante, o desconhecido. “Só em silêncio/ e na solidão/ navego no éter/ rumo a eternidade”. A fé e a luta interior com sentimentos contrastantes, Deus surge no texto, recetor das reflexões “com dor, angústia e sonho”. “Desdobro-me/ saio de mim/ e assim/ me vejo por fora”, e o que vê o poeta?, por vezes angústia, a luta da Razão, a crise da fé, que somos?: “Ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada”. “Porque não dá a cara, Deus?”, porquê escritor, afinal o que somos: “Um grão de areia perdido no areal”, o autor entregue a si próprio: “A minha vida/ é um monólogo constante/ entre mim e mim/ um diálogo surdo permanente/ entre mim e Deus”, “Moro dentro de mim”, mas não estático e em mera “contemplação”: “levanto-me e caminho…” Destaco por exemplo: “Nada em lado nenhum”, “Será que a minha alma também dormiu?” o p. medita sobre o zero matemático, a utopia do não-existir. A morte, o grande tema, ou a vida “Como fogo que arde e se desfaz em cinza”. Ver a sombra a mexer-se na eternidade dos dias, que afinal se diz serem finitos. “E o que mais queria era ser transparente/ ver-me por dentro/ sem as sombras de angústia/ que me turvam / a vista.” É de agradecer ao autor a oportunidade de espreitar a sua alma.

Original? Brilhante? Do coração dum homem que escreve para o leitor. Só por si só vale a leitura.       

Mais um exemplo: “Palavras do meu sentir”, de Isabel Lucas Simões (Temas Originais, 2013). Livro lançado em 14 de Setembro de 2013, na Biblioteca municipal da Póvoa Santa Iria, espaço do município, situada no Palácio Municipal da Quinta da Piedade. Tinha lançado o “Homem-Árvore” uma semana antes e conhecido a autora, no mesmo local. Fiquei feliz de haver quem fique feliz de escrever assim. Uma escrita simples de elementos simples. Um livro negociado a ferros. Neguei mas acabei por ler. Havia muito que as minhas leituras se afastaram deste género de escrita poética, por insistência da autora fui obrigado simpaticamente a desembolsar 12 pacotes de euro pelo livro. Escrita de vaidade, em cerca de 120 páginas, de escritos decentes e óbvios. Onde se repete palavras como obsessões tais como: céu, lua ou luar, segredos escondidos, momento ou momentos, caminho, fantasia, sonho, madrugada, sentir vezes infinito, mar, vento, sol, estrelas, tempo, sonhar, beleza, mãos, olhar, cabelos, flor, flores, amor, silêncio, palavra, palavras, alma, voz, ondas, escrita do eu desmedido, obsessiva e em vertente de autores torturados como reféns, neste caso Sophia de Mello Breyner em epigrafe, notas de leitura, e audição, Chopin convocado em auxílio, e um suave aceitar de que tudo o escrito pertence ao coração da poeta que partilha a sua felicidade e o sentir, roubando a expressão. Uma escrita poética que nos últimos anos assaltou a net e se frutificou em livro e blogue acompanhada de fotos de esoterismo erótico. A escrita como democracia acessível a todos. É feliz a autora em escrever assim. Que continue. Das senhoras da reflexão e idade como autoras. Escrita das mulheres, com naperons em cima de camilhas aos cantos das salas com fotos de membros da família. Uma marca geracional que fica registada em livro e me foi dado o privilégio de ler.

Houve estrondo no mundo? Dificilmente mas na vida de quem o escreveu e concebeu, sim. Há muitos mundos e submundos. Saibamos lê-los. Saibamos ler.

De tudo isto é feito, os novos caminhos da escrita.

De gente e de diferentes formas de vida. De diferentes pontos de vista. De múltiplos ângulos sobre o mesmo assunto. Uns terão uma melhor vista e outros são mais esclarecidos na descrição. O facto de serem diferentes não os faz melhores ou piores. É tudo escrita, má ou barata ou boa e original. Mas afinal para que serve tudo isto? Para nada. A escrita não serve para nada. E não é por isso que necessitamos dela. Precisamos de escrita como precisamos da arte porque sim. Ou então, responde tu.

Obrigado e boa noite. Foi pena não ter aparecido ninguém.

Abr. 2015

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