quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

TÉDIO


O homem novo barbudo magro que nem um cão saiu da cama e sentou-se. A mulher gorda velha de setenta anos saiu da cama nua e procurou um robe. O homem entra na casa de banho, a mulher espera que ele saia, em pé. A mulher entra e senta-se na sanita. O homem toma um duche, a mulher faz café na cozinha banhada pelo sol. Há um gato na cozinha, que recebe água e comida de gato numa tijela verde. A mulher faz torradas com pão grande e coloca tudo numa bandeja de plástico. O homem entra na cozinha, a mulher beija-o e regressa à casa de banho, sem robe. O homem come uma torrada e bebe café numa tijela de barro com desenhos. Na sala, o homem liga um rádio e senta-se numa mesa a um canto ao pé da janela. Ao seu lado, uma estante de parede inteira, um sofá e uma mesa de jantar. Do rádio sai música clássica, talvez Bach ou Lizst, o homem escreve num portátil. Hora depois, surge a mulher vestida de calças de ganga e camisa colorida. Ela sussurra, ele escreve, aparece o gato que recebe afagos e deita-se num maple. Está frio, ligam um aquecedor a óleo, ela dita e o homem novo escreve rápido. A mulher levanta-se e passa a mão pelo pescoço do homem que sorri, sai da sala. Ao almoço comem ovos mexidos com camarões e coentros, bebem vinho tinto. Ele recita alguns textos e ela sorri, acerta sempre nos autores, ela bebe bem. Mostra-lhe um dos seios, uma cicatriz como que riscada por uma caneta vermelha. O resto do almoço em silêncio, ele faz café, a mulher descasca uma enorme laranja. Saem para a rua, caminham por uma rua empedrada rodada de jacarandás. Um homem de gabardine cumprimenta a mulher e chama-a de doutora, ela sorri. São abordados por duas jovens testemunhas de jeová e aceitam uma revista azul. Atravessam uma avenida e entram num parque com plátanos e oliveiras e velhos. Caminham na relva, sentam-se na relva na sombra de uma enorme árvore oval. Regressam com o entardecer e voltam á sala, ela adormece no sofá e ele escreve. Anoitece, saem para jantar num restaurante italiano perto do prédio onde moram. No regresso, dois encapuçados batem no homem com um pau, cai no chão. A mulher grita, puxam pela mala, arrancam-na à força e empurram-na. Fogem. Alguém chamou a policia, agarram a mulher abraçada ao homem desmaiado. Vem uma ambulância, levam o homem e a mulher dá descrições aos policias. A ambulância arranca, a mulher segue atrás num carro da policia. Sirenes. No hospital examinam o homem, na sala de espera a mulher desmaia para o chão. A mulher fica internada, com um avc e é ligada a um ventilador, não desperta. O homem tem alta, apenas uns hematomas, vê a mulher passar para ser operada. Duas horas depois a mulher morre, o médico informa o homem, este chora. Regressa a casa, dá de comer ao gato, volta à sala e deita-se no sofá, no escuro. Acorda, faz telefonemas, recebe o advogado da mulher que o abraça em silêncio. Começa a aparecer gente e mais gente, o homem refugia-se no quarto com o gato. Passa-se um dia e mais uma noite, a agitação é tremenda, são multidões pela casa. No dia do funeral, não chove, o homem sai do quarto vestido de negro e sai de casa. Entra no carro do advogado que o leva à casa mortuária cheia de jornalistas. Rostos, gente, o homem observa o rosto da mulher morta e pede silêncio. O serviço fúnebre sem padre, dura três horas, o caixão é fechado e saem todos. Juntam-se todos na sala onde o corpo sai para ser incinerado, o homem chora. Algumas despedidas de familiares, alguns amigos, são disparados flashes. O homem pede ao advogado que mande embora os jornalistas e senta-se. A sala vai ficando vazia, o homem espera pela urna com o advogado em silêncio. É de noite, retorna ao apartamento, despede-se do advogado e dá comer ao gato. Na sala bebe whisky enquanto escreve, fala em voz alta e escreve com rapidez. Duas semanas depois, acaba o livro e enfia-o sem revisão num envelope castanho. Sai de casa, anda uns quarteirões e entra nos correios, despacha o envelope. Retorna ao apartamento, faz as malas e põe o gato na gaiola de transporte. Chama um táxi pelo telefone, espera em silêncio e sai de casa com mala e gato. Dá uma última vista ao apartamento, repleto de caixas e móveis cobertos. Sai. O táxi leva-o a um bairro de torres cinzentas, entra numa delas e usa o elevador. Entra num apartamento, uma mulher jovem loura beija-o, entrega-lhe o gato. Sai e na avenida movimentada apanha outro táxi que o leva para fora da cidade. O homem fica á beira de um pequeno hotel de estrada, pede um quarto e sobe. No quarto, despe-se e toma um duche. Liga a televisão que fala do funeral. Batem à porta, a mulher entra, traz um portátil debaixo do braço e abraça-o. Telefonam ao advogado entre sorrisos, a televisão estremece e a música é quente. A mulher estava diferente, cabelo cortado, de cor diferente, muito mais magra. De manhã, não saindo da cama, começou a ditar um novo livro, e ele escreve.

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