quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

paz

Em breve
um novo mundo vai nascer.
Em breve um novo mundo
vai nascer. Em breve um
novo mundo vai nascer.
Em breve
paz e amor como moeda. Mulher e criança
como paisagem.
Velho e cão
como sorriso. Dias
madrugada como brisa. Um
chapéu para o sol e uma mão para o abraço.
Sopa e pão
e uma estrada. Lua como candeeiro
em breve
o
eterno.
Filho do sol e da árvore seca,
planície
bolota e vinho tinto
um chapéu velho em testa suada
rugas que o tempo rio rasga
um bairro, abrigo
para a chuva.
Risos à volta duma televisão que não
Funciona.
A graça não estava no filme,
é um bairro, uma
outra criança,
bom de bola,
uma outra menina,
crescida faladora adulta
eu não, nunca o fui, recuso-me
oh céus,
uma outra paz, a da
memória,
só minha
desaparecerá quando eu
desaparecer,
há lá escrita melhor
o sorriso mais velho já
foi.
Caminha por onde quiser
mas eu faço-a lembrar, sempre,
sorri-o as vezes que for necessário.
Sou eu, o que está aqui
amanhã e sempre,
que interessa que não tenha dinheiro para
a viagem, desempregado
que nem um rafeiro,
apareço na mesma e ligo o gás e aqueço a sopa
- conseguiste ligar, eu não consigo.
- não te preocupes
não te preocupes – eu guardo a memória.
a memória – a melhor escrita
uma outra paz.
mulher e homem
mulher uma
homem um
tiras de bacon e uma cerveja
ela nua
ele sempre de fato e gravata
ela tem sempre calor
e ele sempre frio
um homem e uma mulher
num jardim de cimento oxidado
chelas?
ou margem sul
um ford verde fogo à porta
um tchica bum tchinca bum a tocar
ela de cigarro e tatoo ao fundo das costas
ele penteado rapado
e brinco colorido dentro da orelha
donde sairam
dum filme mexicano?
gozam com a mulher nua
e com o homem de fato
donde se viu
uma gravata daquela cor e padrão
só visto.
Tudo isto é
memória?
despenteado
como acordei
sai à rua
deus disse-me: alinha-te, pá
e eu
alinhei-me com a linha do mar
às ondas
acordei nu
e nu andei o dia todo
fazia frio
e algo encolheu
fazia calor
e o suor saiu de mim
o mar lavou-me a pele
e agradeci ao vento
acordei
e decidi sair à rua
como acordei
vivo
apenas isso
dá-me de beber
um café um chá
o que houver
mulher, dá-me de comer
da tua alma
pode ser
crua e com nervo
dá-me ar, deus
e eu saberei o que fazer
com o que puder
respirar
não te assustes
é sempre por pouco tempo
e lamento
e agora
os dias são de chuva
e de ti
a
minha solidão.
Nov 14
as memórias
são fogueiras
dos autores não metafóricos
nos olhos da realidade

dizem o que lá encontram
cem filtros
escrita abrupta vil
escritores rudes vis
escrito tosco em bruto
pessoas da família que já
morreram que contavam
histórias das fatalidades
entre um copo de vinho um
pedaço de queijo sorriam
nunca percebi porquê
autores rudes
histórias fatais a contar
por terem sobrevivido
dias sem nenhuma doce escrita

autores assim rudes vis
como o bairro onde
vivi vinte e cinco anos 
onde as velhas que passam 
confundem-se com oliveiras
centenárias
não tarda serei velho
desses - vis

histórias um copo de vinho
um pedaço de queijo de cabra
estórias do falecido
tio arredores de versailles
falecido pai seu irmão
um filme de ford e a cama
estes escritores de vida
conheci-os e estão dentro
de mim histórias vis
vão sair para fora rirão
dos dias passados boca em
boca de quem vilmente contou.

Para mim
céu é para se beber
para mim
chão é cama com que danço
pra mim
escrita é para assobiar
os pardais
fazer sorrir os corpos
vaidade encoberta
eu desmedido
sabem lá eles
sabem lá o que é
autor acaba por ser coisa
que não existe
lembras-te como isto
começou lembras
parecia que ia ser
coisa de jeito
vulgar
peça banal de vento
utopia e ideal
como outro qualquer
pensa tu bem
se é por aqui que queres
vir, isto é para poucos
e todos loucos.

Sinto-me mal
como um  escrito adormecido
que não vale a pena
despertar
sinto-me fel
até às escarpas
do lado solar
sem resgate
sinto-me fera
que não luta
amordaçada
porque não convêm
chega assim, Deus
acalma-me por favor
o dia passará
e amanhã sentir-me-ei pior.

Autor
tomara
a primeira vez
achei engano
a partir da segunda
deu-me vontade de rir
depois fiquei assustado
há algum tempo
que encaro bem
o facto
não é crime ser-se
mau escritor
ninguém morre por isso.
Pai homem amigo
corajoso profissional bondoso
parvalhão distraído palerma
camarada brincalhão bonacheirão
preguiçoso melancólico lento
é o que conta
escrita não dá de comer
todo o autor fica feliz
quando recebe o padeiro
quando é atendido pelo médico
e mais tarde quando é enterrado
por um bom coveiro
que mande a terra para cima
com jeito
agora autor,
em pequeno
pensava que era pautor
certos excêntricos
de pequena barbicha
óculos redondos de tartaruga
e bengala
que observavam o mar
com deslumbramento
e mais tarde descobri
autor é toda a gente
por isso não morrem
e estão sempre a aparecer
sou tão autor
como tu
saiba fazer poema
mesmo dos maus
e serei feliz
e diz-me lá
se isto é escrita poética
tomara.
Como se faz um homem
com pedras escarpas
e peles de vento
Como se faz uma mulher
com erva mar
e mel silvestre
como se faz uma escrita
com gente dentro
e meia dúzia de gatos
ao

anoitecer
anoitecer
anoitecer
anoitecer
anoitecer
anoitecer
anoitecer
anoitecer
Primavera? - a
porta dos dias como duas
árvores inclinadas
---
sementes de calor
dissolvem-se no ar com
rápidos lampejos
---
de um breve sorriso
do futuro tão indistinto
- rio de prata no
---
horizonte ao fundo
da rua dos pescadores
- Primavera?
STOP
Falta autores
no escrito poético do horizonte
de todos os dias
falta corpo
às ancas dançantes
da mulher que ri
Ó vitor hugo
que seria do teu homem
que ri? se não
o fosse
porque não uma mulher
bem mais bela
que o pobre corcunda
vagabundo a quem faltava
inteligência
falta as escrituras poéticas
no fórum dos gregos
esquecidos
Virgílio por
exemplo ou não era
grego
falta-me escrita
para um dia feliz com
pouco sol

deixar o dia
com ele próprio
como um gato vadio
entre as casas vazias
e as sombras que
se mexem
a quem o sol
manda mexer
ninguém mais

sussurros perfumados
e o aroma das flores
silvestres
há em mim
um espírito agradecido
como uma canção leve
sussurrada como
o vento que é uma
metáfora
que define um país
e um povo
sim, este povo
quem duvida que
fomos feitos com
muito vento e mar
ou não tivéssemos
este sorriso e este porte
e capazes desta escrita
sussurros perfumados
e o aroma das flores
silvestres

Esta semana acabou
fingida e sorrateira
sem a alma das gentes
que a sabem beber
Esta semana findou
como todas as outras
sem que as pedras
sentissem o tempo
Amanhã virá e tu
sairás para a rua e
sempre haverá um
dia sem regresso

Paz um poema
a beleza do poema
é ouvi-lo
com as batidas do teu
coração
será em ritmo bebop?
samba tardio
ou fado de improviso?
paz
gaivota vento mar
e tu mulher
fecho os olhos e ouço-o
lento como
um sorriso esquecido

Paz
pode ser uma estátua
musgo contemplativo
na sombra
ou corpo sangue de luz
sorriso de vento
no meio da rua
pode ser tudo isso
ou absolutamente nada

troca os verbos
e confunde-os
eles que aprendam a ler
eles, os átomos
e os deuses
da colina um pouco mais além
troca os verbos
e sopra-os

tudo isto é memória?
estas linhas
raramente me leio
leio-te a ti
grato pela visita
como um raio de sol
que abraça
para mim escrever
é o impossível
por isso faço
embora seja sofrimento
para uma escrita
de duas linhas
muitas páginas de prosa
gastarei
inúteis cascalho
calcado do caminho

ouro e cascalho
no caminho
escritos de bandeira e nervo
de poeira e sangue
uma paisagem de mato
oliveira e restolho
tu e eu
a sorrir ao sol
ouro e cascalho
e os nossos olhos
as nossas bocas
e tanta palavra que voa
ouro e cascalho
no caminho

flor azul
é manipulação
beleza de laboratório
brincar a deus
plantar a escrita
como pinheiros entre
os dedos
é uma tarde de soleira
à beira
de um qualquer dia futuro

herói é o que perde
o que se levanta
luta de novo
o homem que não desiste
não desistir
para que serve

medalha de eternidade
saboreio
as tuas rugas de esforço
dor e passos surdos
suor de estrada seca

querem te tirar
o que não é teu
chateia que tu não tendo
usufruas
por isso vão te tirar
o que nunca foi teu
que achas disso, amigo
vais lutar até cometer um crime
ficarás preso pelo crime
e fica legitimado
a perda daquilo que tanto anseiam
aquilo que estás a usufruir
não não é a liberdade
essa já a vendeste
é a tua palavra
o que dizes e pensas
não interessa o que não tens
o que marca é o que fazes
o que dizes
mesmo com o que não tens
não se cala o autor
calando-o
cala-se o autor murando-o
estigmatizando-o
expondo-o no ridículo
dos seus temas
banalizando-o desnudando-o
até a sua palavra
perder vitalidade
força e razão
mesmo que não o seja
amigo, sempre foi assim
vai lá para a zona dos escritos de amor
a masmorra dos dias é dura

respeito o autor
mas sou tão colina
de lisboa
bicicleta e criança
mulher e bêbado
tasca e igreja
torre feia e jardim de além-mar
que às vezes esqueço o autor
quero lá saber do autor
quero a coxa de mulher e a relva
o rio espelho tranquilo
o barco e a ginjinha
a tela do francês exilado
e os risos da holandesa
bela de manchas
entre o nariz e os olhos
os olhos
são verdes para o castelo
e o anoitecer
podiam ser para mim
mas estou no vento
e na colina
como disse
skate e petiz
tasca e sorriso
tudo para um dia só
amanhã
os pardais espreguiçarão
outro pôr-do-sol
entre um fado e uma morna
porque Lisboa
é mais do que uma canção

bukowski em português
não resulta
é como uma tradução
de tom waits
imaginamos a voz a dizer
aquilo e
não acreditamos
mas em espanhol
já dá
talvez porque gosto
de escrita em espanhol
ou castelhano gosto de raymond carver
em português
a melancolia
salta toda para cá
como uma torre de habitação
de subúrbio
entre relva triste
e um ou outro velho

não sei o rebelde
o rebelde não sabe
a rebeldia nunca o soube

o vento jaz
o jazz não aquece a criança
corpo nú
não queima a solidão
não sei a rebeldia
para que serve a vida
porque mente a morte
porque aplaude o pássaro
de todas as horas passadas
perdi o rebelde
no comboio de todas
as alvoradas
montanhas secas do futuro
o que enrola
o rock and roll
onde está sepultado
o medo
não sei o rebelde
em mim
no outro
que caminha
noite de viagem
dura e em canto

sol
não o suporto
nasci do sol
fujo dele
sol
sou do meio dia
pertenço ao sol
vivo no limite
da sombra
não gosto da sombra
não pertenço à sombra
ao sol todos valemos
na sombra ocultamos
abstração
ritmo livre
não gosto da confusão
nem do caos
não o rogo a ninguém
sou apenas muito branco
para tanto sol
africano e indiano no coração
sou toda a gente
sem fronteiras
sol
sem exceção de ninguém
criança ou velho todos
sol

Eu não tenho nada
Despi uma vida inteira
não voltei a vestir
coisa nenhuma

certa pautora escreveu
que ao longe somos todos
pedras
somos circunstâncias
pó cósmico, se
calhar Deus arrependeu-se
lamentou o dia
em que fez o barro, a
poeira a maneira
de existir a eira
desmedida com gente-ruído
não sei, não vou
perguntar enquanto piso
estas pedras frias
entardece faz-se frio
regresso com vento
saudade esqueço-me
viver no texto
por dentro
lá dentro
e deixar-se estar
até já
(dia de nunca)
fico
não estou

uma viagem
tem volta
uma viagem tem
retorno
nunca ao mesmo
lugar vão -
nem nós somos os
mesmos -
nem sul nem sol
só passos
a perder no amplo
horizonte
tudo é a viagem
amanhã estou
mesmo que
não exista apenas
nesse vírus:
a palavra que se
profere
talvez esteja aqui
e nunca fui
ou se calhar não

simples é a morte
e eu prefiro algo
bem mais complexo
apenas a ideia um
sol para uns todos
apenas a morte 
uma ideia complexa
preferida por uns
desagradada por todos
simples é o sol
complexo
agrada a todos
prefiro a ideia de
uns antes que à morte
simples é a morte
sem sol nem para uns
nem para todos uma
porra nada complexa

viva
que viva a força
de ser céu
para todos a luzir um
sol quente
no meio do espaço azulado
de todo o futuro
viva
o momento
que não mói nem morre
degraus de gente
e súbita longanimidade
para anjo e ninguém
viva que viva para sempre

cão
com olhos de chuva
embrulhado
nos sós nevoeiros
de toda a
noite - silêncio
medo
mas não do escuro
breu amigo
da luz de mármore
falsa e
encadeia - mulher
rio
que se estica no
brilho da
cidade gordura de
tempo sou
os passos - canção

fundidos
num sol só
somos um só
basta a
existência
um pouco
de mel
no dorso da
tempestade

e depois fiquei à espera
os ramos dançavam
a avenida estava morta
os carros não passavam
são àrvores mecánicas
só uma mulher flutuou
até perto de mim
sentou-se
no mesmo banco de jardim
disse-me que eu a esperava
desde quando, perguntei
muito antes de o tempo parar
nem assim a rua se mexeu
os sons roucos não voltaram
deus sabe porquê

vento tempo
semelhantes
sangue da mesma
irmandade
oh lamento 
rebento como todos
os que vivem iguais
sóbrios nus
estou aqui
estás aqui somos lestos
na passagem do trem rumo
ao tempo
tempo tempos
sobre lamentos de pó
seja o que deus quiser
estou estás aqui

no mundo real
matar dói
no mundo virtual
mata-se mais
no mundo virtual
protegidos
pela sombra de bytes
é-se intolerante
mais racista
machista e sexista
mais corroídos
na alma
em profundo delírio
de ódio
no mundo virtual
mente-se mais
tudo é ficção
escatológica e pobre
no mundo real
é melhor
porque é menos
no mundo real
estou vivo
e o amor sente-se
como um fogo
que aquece ou
dissolve em cinza
no mundo virtual
é tudo mentira
os sorrisos são desenhos
de luzes
todas com a mesma dimensão
nada é orgânico
só imagem e lampejo
no mundo real
existe o momento
escrito a lápis
que cheira a madeira
e suor
no mundo virtual
copia-se e deleta-se
não há autores
só copy irrelevância
no mundo real
há o vento e a chuva
no rosto
e pesam os pés
no duro caminho
e

faço-me à viagem
quando chove
dona vera caminha
no soalho encerado
e dança
nua e como um gato
naquele velho apartamento
onde no silêncio
flutua mozart e haydn
a solidão é cantada
com as horas embriagadas
que passam e não voltam
mais, as cabras

nada
e no entanto
tanto

Paz um poema
com os lobos soltos
do teu cabelo
errantes em suor de
esperança
paz
duro de vida com a
suavidade de
todos os ventos futuros
se existes
paz
carregado de sombras
em mutação vã
com o coração dos dedos
na pele vasta
vive em sintaxe
como se vivesses quebra
de mar e lamento
também a gaivota tem
melancolia e pura
se contorce na
brisa e sem parar
canta ao sol
da onda ao banho de sol
paz

desaparecendo a
sombra que produz
a nossa existência
a invisibilidade
como pura vivência
subtil sem carência
assim como assim nada
mais
nada mais

sonho
feito esperança
depois fraude
não há desilusão
onde não houve
ilusão
apenas um sonho
constância
depois o fim

quero
quem
me manda a mim
desejar tanto

obrigado
aos amigos

um deles o vento
outro o sussurro
o lamento
a solidão
alguém lhes sirva
um café

os dias
passam

chuvosos sombrios
em veloz cruzar cósmico
tu
vós
onde estão
num lento esquecer
luzes
sons e gráficos
não são pessoas
nem sangue nem músculo
todos vocês
perdidos em símbolos
circunferências
outras formas - um mundo
como a escrita
resiste à falta
de ombros coxas e olhos
em chama de silêncio
não sei
sábio
sei isso
nada mais

tudo isto é memória?
dias
passam
chuvosos sombrios
em veloz cruzar cósmico
tu
vós
onde estão
num lento esquecer
luzes
sons gráficos
não são pessoas
nem sangue nem músculo
todos vocês
perdidos em símbolos
circunferências
outras formas – outros mundos
como a poesia
resiste à falta
de ombros coxas e olhos
em chama de silêncio
não sei
sábio
sei isso
nada mais

a memória
hoje?
a vida
e todo o sangue
amanhã
nem a morte
todo o amor

luzes e sombras
o cinema da escrita
com todos os teus passos
e a matemática dos silêncios
luzes
e pombas
telhados e ombros
toda a nudez dum dia
fora da luta de egos cegos
entre escritos de amigos
pura partilha
valo como os outros
equilíbrio - há muito

não estaria por cá
é assim
---
sol
foguetes ao longe
pijamas de aves e música de caixa de ritmo
sol
os pés descalços
areia que fere e arde
habito o meu musseque de sonhos
de sons ventosos com pausas
sou uma oliveira
que se torce em tempo
esguia e inútil
a escrita, senhores?
que lhe fazemos

os personagens
parecem gremlins e continuam a reproduzir-se
tenho uma teoria
mas precisaria dum apóstolo
para a expor
---
e os textos
a dor líquida
de os conceber
onde fica arrumada
uma vida
ali na esquina
sempre que fujo
me rapta
quero lá saber
dos escritos e dos
seus loucos
chega-me a sombra
a sombra, a
minha - que me
segue, submissa
e cabra
e os escritos poéticos
uma caixa de cartão
pintado a lápis
chega, para
os apodrecer
nada mais
the outsiders
rumble fish

lembras-te
tem o tom waits
as sombras
o céu
matt dillon
uma suave transgressão
pouco tempo depois
fundei uma banda
de rockalhada
the outsiders revolution band
mas foi há muito
era novo
um pombo perdido
ou mesmo um pardal ferido
caem uma vez na vida
nem enterrados são
o bairro está no mesmo sítio
mas nada igual
nada igual
nem as palavras

james joyce blues
ela eu ele ela eva erva eu relva cimento plátanos manhã
autocarro chá-preto hotel ela relva jardim cimento mur
o relva lisboa cinema café leite rosto café chá cimento
sonho crianças criança cão vincent-gallo cristina-ricci
chicago yes automóvel pistola régua água pistola rel
va autocarro neve prisão polícia piscina bowling eu
ela motel roupa banho frio chuva neve café choco
late-quente criança blues rolling-stones carro-mo
vido-a-gás jazz elevador ela toalha criança leite
jazz escrito haiku chá trabalho-duro ela velho
bengala solidão candeeiro chuva neve relva
chávena telefone bingo gravidez meias ro
upa motel adeus amor criança cão gata
semente oliveira silêncio passado fr
uta jazz sapatos mendigo ouro gui
tarra óculos velha manto lágrima
guitarra autocarro bicicleta mú
sico bacon ovo café chocola
te chinês palhaço polícia e
le chuveiro almoço carro
bebé hospital poema h
aikai copo sapo chu
va whisky homem
mulher ele eu el
a fonte luz lua
gato-parado
óculo eu
ele ela
eva e
la e
u
ponto novembro ponto
Indio
ndio indio indio in
dio indio indio indi
o indio indio indio in
dio indio indio indio ind
io indio indio indio indio i
ndio indio indio indio indio
indio indio indio indio indio i
ndio indio indio indio indio ind
io indio indio indio indio indio
indio indio indio indio indio in
dio indio indio indio indio indio i
ndio indio indio indio indio indio in
dio indio indio indio indio indio indio i
ndio indio indio indio indio indio indio in
dio indio indio indio indio indio indio indio i
ndio indio indio indio indio indio indio indio 
indio indio indio indio indio indio indio indio
indio indio indio indio indio indio indio
indio indio indio indio indio
indio indio indio indio indio in
dio indio indio indio indio
indio indio indio indio indio ind
io indio indio indio indio in
dio indio indio indio
indio indio indio ind
io indio indio indio indio
27 novembro
cubo cubo cubo cubo cubo cubo cubo
.
palavra janela nudez poster rock toalha
toalha palavra janela poster rock nudez
janela poster nudez rock palavra toalha
nudez palavra rock toalha janela poster
rock janela toalha poster nudez palavra
poster rock janela nudez palavra toalha
toalha rock nudez palavra janela poster
.
olá mundo
mas desculpa
está tanto barulho
não te escuto
como vão as tuas filhas
não, não são essas
as tuas filhas, os teus filhos
toda a gente
mundo, que tens gente
como vais
desde os musseques africanos
às favelas sul e mais americanas
de pequim
a chelas
como vais
que textos lês, mundo
mundo, tanta gente
tanto submundo
cascas da mesma cebola
camadas de infernos e paraísos
jardins e lixeiras
bordéis e templos
escrita e mercado
rostos e trânsito
como vais, mundo
daqui vê-se o teu fim
a trabalhar
a todo o gás
olá mundo
para lá do que alcanço
ser
nunca
apenas
e só
como sopro
nada mais
que esgota
e termina
e nunca
nunca mais existe
ser
nunca
folha de plátano
que não volta
a ser ela mesma
é pisada e desfaz-se
ser nunca
ser e não ser
nada
mais
nada
mais

desculpa
é pouco
mas não há mais
nunca haverá mais
a eternidade
não é para nós
ser nunca
e apenas só
escrita
(no fundo, sei lá se são)
sobre os pés
sobre os meus pés
olho para baixo
vejo dois pés
os pés agarrados
a umas pernas
cada pé a sua respetiva
as pernas ligadas a um tronco
no meio um penduricalho reprodutor
um umbigo na barriga
uns braços
um pescoço
uma cabeça
não fosse um espelho
eu era um pensamento
e uma visão dos outros
escrevo e gosto da linguagem
mas toda a gente
tem pés
tem cabeça
toda a gente que é adulta
se o for
já foi criança
depois adolescente
teve crises: ai da vida
escreveu textos poéticos
olhou o umbigo
o espelho
toda a gente tem pés
ou já teve
ou devia ter tido
que interessa os meus
tens os teus
que interessa
os textos
sobre
os meus pés
pá, tudo isto é relativo
eu leio os teus escritos
tu lês os meus
sinergias - o que move o mundo
nada mais
onde está o busílis
eu nem por isso
escrever sobre isso
de que valerá
tu que pensas
no fundo, sei lá
mas sei
somos iguais
viemos do mesmo tronco
para quê tanta luta
somos todos autores
ou malucos - eu sou
bli blu da da pela vida fora
para quê tanto maneirismo
treta
somos iguais
isto é tudo memória?

força amigo
lamento
dizer
isso não dá pão
quanto muito - confusão
se somos iguais
porque inventamos diferenças
falamos a mesma língua
tu és melhor que eu
fica assente
fico em paz
isto não é um escrito poético
tens razão
no fundo, sei lá
ando por aqui
ainda sem saber
nada
nada
nada, pá
nunca gostei de condes
de casas cheias de retratos importantes
coisas simples
bons escritores
simples como o homem do talho
como o bukwoski
um bêbedo como um qualquer
numa taberna qualquer
como um amigo ou familiar
tive-os e tenho-os
toda a gente os têm
como o leminski
como o sebastião alba
que vivia na rua e morreu
atropelado por uma mota
em braga no ano 2000
na morgue demoraram para o identificar
são poetas
os de fatinho e óculo à eça são

parvos
paz
como o pollock pintava
tu que lês consegues fazer melhor
não dá prémios
para quê prémios
o trabalho que dá limpar-lhes o pó
tenho rinite alérgica
para mim vale um texto
como um copo de tinto
um pratinho de torresmos
um balcão de mármore velho
servido por um barrigudo que tira
o vinho
dumas pipas velhas
por detrás de si
lentamente
casado com uma mulher velha
gorda com filhos pequenos
que andam a correr entre as pernas
dos bêbedos que sorriem
cantam por vezes
isto é

escrita
sai-se para a rua
leva-se com o sol nas trombas
enganamo-nos na rua
vamos dar ao largo do castelo
dormimos na relva aparada
porque vai haver eleições
no outro dia entramos ao serviço
com gravata respeitável
damos um conselho bíblico e cível
a um jovem destrambelhado e preguiçoso
que chumba os anos todos pelo menos uma vez
que é o nosso filho - o futuro da nação
é escrita
nada mais
tu podes fazer melhor
porque é que escrevo
só com minúsculas
eu explico
não te preocupes
porque é a mesma frase
a maiúscula inicial
está lá atrás
não me lembro onde
o ponto final
está no futuro
lá à frente
ainda não o vejo
sem grandes ciências
tudo fácil, pá
se morrer antes
fica assim
o escrito
como incentivo
para que tu o faças
melhor do que eu
podia ser um princípio
de vida criadora
o tu no texto
em vez de o eu
tu aí
no meu texto
mais do que eu
no teu texto
lá estou eu
a explicar o texto
não se faz
não se faz
farto
de que me leiam
como se o meu texto
fosse acerca de mim
ainda não o descobriste?
é acerca de ti
prova de amor por ti
isso é o motor
do meu escrito
desde que aqui cheguei
entrei
porque estava a porta aberta
ainda estou aqui
à espera
de que me sirvam
um whisky
o whisky que eu pedi
a minha reclamação
o serviço é muito lento
andam numa agitação erótica
posso-o dizer
esquecem-se do essencial
e importante
servir os clientes
o meu whisky afinal é um bourbon
de preferência
um wild turkey
nada de excessivo
apenas um bom bourbon americano
da terra dos blues
donde não pertenço
porque os whiskys que servem por aí
lixo que vem da escócia
o bom
ficam com eles
para mim apenas um pouco
para o saborear
não sou um grande bebedor
pelo menos um grande emborcador
gosto de pouco de cada vez
coisas minhas
se calhar por nascer
numa família que nasceu
numa terra de alcoólicos
se calhar por isso
bebo como uma velhinha
mas não deixo de beber
como tal
ainda estou à espera
que me sirvam
hey, e eu pá?
o barman acaba de saltar do bar
e de servir um cliente
e de passar por mim
como se fosse invisível
deixem estar
enquanto estive aqui
aprendi
vendo
saio pela mesma porta
por onde entrei
comprarei uma garrafa
no supermercado continente
beberei em casa aos poucos
ouvindo canções de willie nelson
nada de standards de sinatra
isso é estúpido
verei um filme com harry dean stanton
depois de velho
fugazmente num bar qualquer
a beber wild turkey
e a jogar às cartas
ou a cantar
canta bem
um filme a sério
com o morgan freeman
o gajo das rugas e cara feia
o tommy lee jones
isso sim são atores
nos filmes certos
será que também bebem wild turkey?
os sacanas
bom cinema raro
ver
é como a escrita
não acham?
este texto afinal é sobre escrita
não tinham reparado?
andam distraídos
pergunto: com o quê?
bem, vou agora esticar um pouco
as pernas
já venho
se não me virem mais, paciência
é porque encontrei um sítio
onde me atendem bem
e me sirvam
um bom wild turkey
se os há, há
mas aonde?
é preciso procurar
e a propósito
vai um whisky?
eu ofereço
ou ainda não repararam
que ofereço coisas
aos amigos
e aos seus conhecidos
sempre me confundem
com alguém conhecido
o que me dá
verdadeira
vontade de rir
não acham?
já me chamaram autor
e pateta
sim, e à bruta
deixem estar, estou habituado
estranho é que
não percebam nada disto
e que não entendam
as motivações alheias
para se ser autor
é preciso ser perspicaz q.b.
se não sabes o que é e como o ser
então não o és
bem ando a dizer e aos gritos
não sou autor
mas nada - ouvidos moucos
uma sinfonia em terra de surdos
se o fosse
isto seria um texto poético
e não o é
pois não?
afinal que percebes tu
porque mentes tanto
porque te deixas enganar
confiando em mim
eu só aqui estou
e vou já sair
para beber um wild turkey
nada mais
chego à conclusão
não há
paz, pá
sempre quis escrever isto
num texto
de que estamos a falar
ou temos estado enganados?
não é acerca de escrita poética
este texto?
afinal este é o planeta errado
como uma novela de douglas adams?
ali no letreiro à entrada?
espera aí, nem sequer é um bar
desculpe, enganei-me
entrei no sítio errado
por isso
tive a atenção que tive
o louco
sou eu
mas se reconheço ser louco
afinal posso não o ser
mas afinal tenho estado á espera
que me sirvam um whisky aqui sentado
não é uma ação dum louco?
agora reparo que sim
esta viagem foi esclarecedora
já sei o que sou
não um poeta
não um escrevinhador
sou apenas um LOUCO
agora finalmente em paz
como foi bom
estar aqui sentado
perceber o sentido da vida
sei agora o que sou
e obrigado
embora não perdoe
não me terem servido
um wild turkey decente
raso
num copo, nunca num cálice
sem gelo, nem água
simples
---
paz
Jan. 2015

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