sábado, 5 de abril de 2014

Bio - gráficos

“o meu cão parece um coelho
eu pareço uma pessoa …” (
Bénédicte Houart)  

...
  Escrevo poemas
porque sou sujeito a medir o horizonte com a
a melancolia Desde que nasço no dia até ao
poente A doce melan-co-lia como o voo medido
das andorinhas sem fim sem perdão sem dó
Malfeito e por acabar esboço a lápis dissolvo-me
na chuva das horas mortas Vulgar pardal que cairá
sem que o trânsito se quede nem mulher nem
velho homem que passa nem criança de rua
nem vagabundo ébrio nem deus nem sombra
nem esquina nem candeeiro de nevoeiro nada
nem ninguém se mexe sempre que um pardal
cai nem o vento nem a eira adornada a pôr do sol
nem nada se importa com o estúpido pardal que
caiu que importa que importa menos um
ridículo pardal que importa, senhores
  Escrevo poemas
portanto em delírio espécie de loucura particular
esquizofrenia de labor sempre que estou só com
o meu ego esse bárbaro mal comportado e inútil
Não faço poemas quando o sorriso me aquece
quando corro na relva com a menina do meu ser
quando ela me chama e clama: pai, não me apanhas
– pois não preciso de poemas para nada e quando
exausto regresso a casa e a noite chega então logo
ficarei igual a mim próprio ao meu pai ao meu avô
num duro alentejo E preciso dum poema que me
pendure na corda de secar do cosmos ou lá o que
é isso dos poemas Noite bela doce princesa
é quando a história de sempre te adormece
sobretudo se me enganar de propósito e baralhar
os mundos do Peter Pan com os do Rei Leão
dá outro gozo à história quando é imperfeita
e com erros doces erros motrizes de tudo o
que é vivo E porque é que tudo tem de se
assemelhar ao correto e não ficcional ora
porra
  Escrevo poemas
como qualquer um que trabalhe nas docas Viver
dói como o raio que o parta parece que para
todos Deus porquê isto assim Sou um pardal
de chuva na árvore do momento e apenas isso
(Maio 12)

2 comentários:

  1. Olá Carlos! Gostei muito deste poema. Um tanto melancólico, é certo, mas muito belo. É tão próprio de escrever poesia, fazê-lo nas horas mais sombrias, aquelas em que entramos dentro de nós e questionamos a vida...
    Um beijo.

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  2. Obrigado pela visita. Este pequeno poema, que não dei muita importância, já é de 2012. Saiu assim. Grato por a ver por cá. Espero que tenha gostado da minha "análise" ao seu livro: Poemas Escolhidos. Não o largo. Faltava-me esta leitura cronológica e transversal da sua poesia. Beijinho, Graça.

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