quarta-feira, 9 de abril de 2014

as casas vazias

“Deslizamos por uma casa adormecida…” (Tomas Tranströrmer)

1.
L M P
Lisboa Madrid Paris
L conduz. M retoca as pinturas. P fala muito. O velho VW sobe e desce as ruas do bairro da Graça. Fica em Lisboa, numa cidade antiga e a cair. De que falam. De ruas em curva a descer, que também sobem envergonhadas. M destaca mulheres idosas de sacos de compras, e as ruas que descem em vertigem, queda abrupta, a queda das velhas é juvenil e despojada. Ruas que vivem contorcendo-se na memória das infâncias, isso foi L que mencionou. E acrescentou que estava convicto que o lume tem várias. Ligeiro silêncio, ninguém percebeu. L explica tudo, portanto é esperar. P fala mesmo sem perceber. Isso define-o. Fala da cidade tão perto da esperança – longe, do deus do improviso e da loucura. Com gendarmes de madrugada aos gritos, uma camioneta cheia de gente, de cruzeiro pelos sentidos, com 36 horas de viagem, trip suja, para onde  é proibido parar, daí os policias. Espera-se um táxi dum amigo que os leve a um bairro social nos arredores de Versailles mas isso era em 1980. Experiência pessoal. P mistura conversa do momento com recordações. Nunca diz tudo mas diz muito. Ele é assim.

2.
Dois homens e uma bela mulher num velho VW pelas ruas da cidade. Chove. As pessoas morrem. Ficam só os seus passos. São bonitos aqueles pés nus desenhados no chão. O mar apaga-os em 3 tempos: quente, morno e frio. Foi gente que passou ali. Fui eu e Tu - vento de outra era. As pessoas morrem em tempos de areia e lua deitada no mar. Ficam os passos. Agora adivinhem quem disse isto. Bonito e estranho. Quem poderia ter sido. L, M ou P? Aposto em L, mas que sei eu, sou só o estupor do narrador. Que sei eu.

3.
As casas vazias têm paredes com memórias surdas. As casas vazias têm falta de gente desarrumada. E gatos. E mulheres. Velhas a bordar à janela. Os soalhos sujos das casas. Os passos e os corpos a cair em sorrisos. Falta o mar a dançar dentro das casas como se as lavasse. A casa que foram visitar ficava numa encosta. Tinha um vazio sujo e escuro. Um perfume a solidão. Saíram depressa. Desceram a rua, a água da chuva acompanhou-os. Um dilúvio que assobiava nas curvas. O velho VW chiava por vezes. Agora era M que falava, não tinha gostado da casa, nem os outros. Como é que em tão pouco tempo, uma mulher pode encontrar tantos pontos de defeito e rejeição numa casa vazia.  

4.
A vida não é simétrica. Os dias não rimam. Os passos que correm não cantam sonetos. A vida é livre todos os dias sem se repetir. Os dias não são iguais. Presta melhor atenção. Há rumbas e coladeras no vento também jazz, samba e fado. A poesia quer se madura e ingénua como qualquer criança. Com a beleza duma mulher. Qualquer uma. Das que sorriem e choram. Nem as lágrimas são simétricas - brilham todas elas. Uma mulher como M é um raio de sol. É de fazer parar o movimento de rotação da terra. E observar a dança da sombra da oliveira. Uma mulher que é capaz de habitar todas as casas vazias com a sua presença. Linda e mordaz como a eternidade.

5.
Vem ter comigo. Traz o vinho das vindimas do teu suor. No velho rádio do automóvel, a emissão retorna e canta um velho fado. Faz todos sorrirem. Mas a canção não termina, transformou-se em estática, imitando a chuva. Chuva, dentro e fora do carro.

6.
L decide contar uma história, enquanto conduzia e passavam pela entrada do cemitério do Alto São João. Acelerou. O homem guardava na gaveta as suas riquezas. Um cd de leonard cohen. Outro de Haydn, com 3 sinfonias. Mais um cd dos Beatles, neste caso o revolver. Outro de um trio de jazz português, que bem tocam – comentou. Outro cd de covers de músicas de filmes, que saem nas revistas e deitam-se fora. Mais uma caixa de plástico que menciona 4 faixas com tempo específico mas sem cd dentro - cada faixa, uma proposta de audição de ambientes - numa espécie de ideia à john cage. Lenços de papel. Cinco euros em moedas. Um carregador de computador. Um carocha metálico, tipo porta-chaves. 3 fotocópias de poemas, com partes sublinhadas. Um catálogo duma editora marginal. Duas canetas, uma delas num estojo de plástico, oferta de aniversário da empresa. Um pequeno dicionário português-inglês, inglês-português. Um estojo de óculos, vazio. Uma montanha de estranhos papelinhos. Um bloco de apontamentos, vazio de palavras. Uma grande melancolia & vento que sai da gaveta, comentário de P. Todos os dias a arrumava e limpava, como se o dia dependesse daquele puzzle. Um particular cosmos dentro duma gaveta. E limpou-a, de vez no dia em que foi despedido. Ficou vazia a gaveta a partir daquele dia.   

7.
Esta semana acabou fingida e sorrateira, sem a alma das gentes que a sabem beber. Esta semana findou como todas as outras, sem que as pedras sentissem o tempo. Amanhã virá e tu sairás para a rua e sempre haverá um dia sem regresso. Parece que é Abril mas as baratas não sabem o ano. O velho VW rolava junto ao rio, perto de Poço do Bispo. Todos observavam os velhos armazéns. Acelerou numa nova linha reta.

8.
Não mudes o mundo. Não mudes os outros. Não resulta. Muda-te. Não se muda um país. Muda-se as pessoas. Muda-se o coração e os rins. Por dentro somos todos diferentes - não aceites que te digam o contrário, pá. A tua impressão digital é só tua. A poesia que lês ninguém mais lê. Os teus olhos são teus e de mais ninguém. És aquilo que és. Nada mais. É tanto que Deus enlouquece com isso - direi eu. Só conseguimos mudar duas ou três pedras no nosso caminho. Podem ser suficientes para fazer tropeçar uma multidão - para apedrejar um inocente - para partir todos os vidros do palácio - o rei que também sinta frio. Sabes que não se muda nada. Somos os mesmos. Os que não sobreviveram à fábrica de sabão de Auschwitz. Os que morreram no exílio das pradarias sem búfalos. Os que carregaram o Enola Gay com a sua carga secreta. Os que ficaram sem pele. Os que acordam de noite com o medo das histórias passadas. Somos todos tutsis e hútus. Somos todos descendentes do mesmo patriarca, primos e irmãos. Afinal o que pretendes mudar. Deixa lá isso e vai-te deitar. Ninguém segue este conselho. O automóvel entrou no bairro dos Olivais. Estacionou perto duma estranha torre. Subiram ao nono andar, a vista ampla. O vazio do apartamento, familiar.

9.
Hoje tem ventos de ontem. Sempre teve o presente a brisa dos passos não achados. Não sei se por isso hoje sou ontem. Ninguém compreende L e do que fala. É como poesia que se reconhece elementos mas não o seu todo.

10.
Faz um poema – tu - e depois calo-me. O ruído da minha - tua - voz não deixa os pardais cantarem após a longa chuvada noturna que espalha o perfume a terra molhada. Belas vozes desses poetas de bico e penas. Fazem um poema e parece só para mim – para ti. Fecho os olhos e ouço-os à desgarrada mas tudo tem um fim. A este fim. A agonia de um só dia. A tarde consumia-se e o grupo sorria nos seus silêncios.

11.
Desde junho de dois mil e oito que mijo neste limoeiro e ele não para de crescer, contava P. Vi isto num filme e já chega desta história estranha e por isso desistiu de relatar os seus infortúnios de agricultor. Cansa ouvir a nossa voz rouca e repetitiva, como graffiti de basquiat neste muro coletivo. Cansa esta lamurienta cantarolice tão ensimesmada por isso sabe bem o ezra pound dos outros. Os mestres quotidianos e tristes. Já chega, tudo tem um fim mas aos amigos diz-se até já e servimos o whisky barato das nossas consciências. E à poesia pós-moderna delego o caixote do lixo e vai-te catar, virulenta. Estou asco de ti. Bela tirada, adverte M. Vai daqui um abraço de cuspo. Um adeus. Um the end, prostituta dos dias e deixa-me em paz. Umbigo feroz de bairro esquecido. Este mesmo, utopia de regime, com relva velha. Os Olivais das ruas em curva.

12.
Não conheço madrid mas madrid pode ser esperança. Madrid não me mates, madrid não a mates. Uma pausa. Um intervalo para a grande fiança futura. Volto em abril poema. Madrid não a mates. Esvazia-a viva de um sol de viagem e dor. 16 de março. Aconteceu mesmo. L recordou o momento aflitivo associado à cidade espanhola. Seguiram mais a norte, para o bairro da Encarnação.

13.
Como posso se não sei o que é. L sabe, afirma. P também. Mas M afirma que não. Há o senhor Herberto, há o senhor Camões. Há o senhor Ramos Rosa, o senhor Gullar e o senhor Manoel de Barros. Há a senhora Sophia, a senhora Florbela Espanca e a senhora Adília. E há o senhor Pessoa que era outros senhores dentro dele, uma coisa estranha. Como posso sequer sonhar que me chamem isso. No entanto venho para aqui e faço isto sem saber muito bem como me enquadro no propósito de deus. Afirma o poeta, os poetas. Sou assim sem saber outra coisa de mim. Mas dos outros percebo eu. Vejo-os a polir as letras em perfeitas estátuas-metáfora. Poesia, coisa estranha. A chuva ignora-a. Faz chiar os pneus.

14.
Viu pollock, assim é fácil. Observou rothko, assim é fácil. Mirou miró e klee, assim é fácil. Leu bukowski e ginsberg, assim é fácil. P disse gostar de bukowski. Franco e rude. Releu Hemingway, assim é fácil. Visionou jarmusch, assim é fácil. Ouviu ramones. Ouviu tom waits. Ouviu ornette, assim é fácil. M protestou, como é que ornette pode ser acessível. Fácil, teimou L.Viu outra vez basquiat, assim é fácil. Voltou a ver picasso, assim é fácil. Lembra-se de ter gritado com sid vicious e os restantes sex pistols, assim é fácil. Leu Herberto, isto não consigo e morreu infeliz dentro duma falésia em queda contínua. O grupo que já se abstraia da declamação, elogiou o final. L não ficou convencido. Estacionaram ao pé duma vivenda germinada assaltada por heras e plantas selvagens no exterior.

15.
Faz um poema. Escreve um poema. Escreve 1000 poemas ridículos e naif, amorosos e ingénuos, com frases gastas, repetitivas de puro enfado, acriançados, niilistas, religiosos e com nuances espirituais, desolados, criminosos. Poemas sexistas, machistas, racistas, com voyeurismo, destituídos de humanismo, adolescentes, virados para umbigos, cheios de nada, de sangue e vísceras – o poema. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que todos leiam o poema - isso nunca aconteceu - nada significa. O mundo fica tal e qual. Melhor seria fazeres pão. Fazeres amor com uma persona de ventos trigueiros. Passear o cão. Pintar uma tela. Beber uma cerveja. Pregar boas novas. Cantar uma canção. Adotar um mendigo. Conversar com um velho amigo. Pintar uma casa. Ir trabalhar. Fazer as camas de lavado. Engraxar os sapatos. Comprar flores. Fazer uma omolete. Limpar a rua de folhas mortas. Observar os outros. Beber duas cervejas. Ir assistir a um enterro. Olhar as estrelas. Orar a Deus. Fabricar estantes. Fazer bolos. Comer um gelado. Dormir uma sesta – depois - faz o raio de um poema com esta secura de brisa noturna e suor de santa preguiça. Subiram ao segundo piso, em silêncio. Acharam tudo música de câmara oitocentista. Expressão de M que nada disse mais.

16.
Gosto dos poetas que não são metáfora. Que olham nos olhos da realidade e dizem o que lá encontram sem filtros. Há uma poesia abrupta, VIL nisso mesmo. Gosto dos poetas rudes, VIS. Detrás dos poetas, as sombras sem corpo. Confundir as coisas. Um poema tosco em bruto, associamos a um grunho em pessoa. Enganamo-nos ou acertamos. A poesia VIL faz lembrar pessoas da família que já morreram. Contavam histórias de fatalidades entre um copo de vinho e um pedaço de queijo. Sorriam felizes, nunca percebi porquê. Percebo lendo os poetas rudes também eles felizes por terem histórias irreais a contar em poemas de soco. Felizes por terem sobrevivido a dias sem nenhuma poesia, apenas fome. Gosto de poetas assim, rudes, VIS como o bairro onde vivi por vinte e cinco anos. Onde as velhas que passam se confundem com as oliveiras centenárias, VIS, belas. Não tarda, serei um desses velhos. Rirei contando as mesmas VIS histórias com um copo de vinho e um pedaço de queijo de cabra. Como as estórias do meu falecido tio nos arredores de Versailles. Do meu falecido pai, seu irmão entre um filme de Ford, uma aguardente e a cama. Gosto de pensar nestes poetas. A estes conheci-os e estão dentro de mim. Um dia as histórias VIS vão sair cá para fora e dançar na rua. Rirão dos dias passados de boca em boca, rirão de quem as VILMENTE contaram. Atravessaram a avenida de Berlim e L acelerou o velho VW rumo a Chelas.

17.
O livro é uma casa, um monte. O que se faz a uma casa e a um monte senão levar um cão e um garrafão de vinho. Deixar por lá o tempo cantar a sua cançoneta. Mas este livro tinha 90 anos e problemas de articulações. Doía-lhe os joelhos e a coluna quando se dobrava. Um lugar já antigo e com problemas de amarelecimento. O livro é uma casa arrendada a novos habitantes que não param de a subverter sem parar. O livro é uma casa, um monte sempre perto, sempre longe, quanto uma mulher de eira e uma sombra que afasta na sombra do dia. Sombra que se afasta da sombra, destacou M. Posso fumar, perguntou.

18.
Um velho, velho automóvel descoberto sem portas, nada que o distinga duma ruína memorial, ford capri de muitos anos, abandonado, testemunha consentida duma era de utopia que já passou. Dentro os ratos coabitam, procriam entre ervas verdes e húmidas de mau cheiro, ratos multiplicam-se, viscosos e de olhares furtivos, ratos crescem como texugos. Um velho automóvel parado por séculos, se o século for medido em tempo de rato, ecossistema de improviso, na cidade velha, deserta de gente e ruídos, apenas a comunidade multiplicada de ratos de urbe. Deixemos os ratos, estes vivem no seu mundo de sobrevivência, no meio do lixo, no meio da leptospirose que aos ratos não afeta. Ratos não têm a culpa, não nasceram católicos, nem têm a inquisição dos ratos. Bichos que vivem e alimentam seus filhotes. O lixo é humano. O lixo é invenção humana. Talvez invenção do Diabo em conjunto. Os homens aceitam tudo do Diabo e algumas coisas de Deus. Os ratos bem que podiam correr pelos campos, se não fosse a salada suja e gorda que é uma cidade. E os gatos engordariam selvagens de território dividido. Várias criaturas concorrem a dividir o mundo. Ratos e Baratas e várias Bactérias. Estão a ganhar. O pobre humano a perder. Voltemos aos ratos então. A comunidade que vive no velho ford capri floresce e invade a cidade pela porta fácil, um condomínio fechado de luxo. Nem vos digo, nem vos conto o que sucedeu a seguir. Subiram à torre cinzenta e arredondada. Sem elevador. No nono andar, uma mulher com demência cantava. Uma varanda e um apartamento vazio. Voltaram para trás. Desceram sem elevador. O velho VW acelerou mesmo sem saber para onde se dirigia. Tinha parado de chover.

19.
Viva paulo leminski, nunca o nada foi tanto. Viva zapata, talvez por brando. Viva dylan, o que canta, ensinou-me a suplicar o poema. Viva jim morrison, com ele aprendi a alongar o zelo louco e mais tarde deixei de beber. Viva camões, sempre habitará a nossa ilha. Viva os poetas que nos brilham os sapatos, são os verdadeiros. Viva hilda Hilst, conheci uma vizinha assim, bebia, tinha gatos, fotos antigas e belas. A preto e branco, perguntou P.

20.
E agora e agora, continuam vós, a ode eterna, o meu grato sentimento, o meu sincero obrigado por absolutamente nada, bastardos, tontos, despassarados como um qualquer querubim perdido. Éden circular que tonteia a noite.

21.
Faz tu mesmo, revoluciona o rock and rol, mas que é isso, uma invenção comercial, um negócio, uma fraude, um sonho. Faz tu mesmo, revoluciona a democracia, de repente o homem do talho podia ser presidente mas que é isso, uma utopia, uma fraude, a great swindle, um engano, um sonho. Vai e faz tu mesmo, é o cristianismo mas que é isso, um modo de vida, nunca uma aparência, nunca uma vestimenta, nunca um discurso, será um sonho, cada homem respeitar cada homem, o pior dos sonhos, o mais difícil, o mais acessível, o mais barato. Olha, vai e faz tu mesmo, diz-me depois qualquer coisa. Ouvia-se Lou Reed. Voltaram ao bairro dos Olivais. Recomeçara a chover e com violência.

22.
Ó poema, porque me maltratas. Lembro cossery, dado morto, em paris, no mesmo quarto de hotel onde viveu desde 45, escrevia uma linha por dia, uma folha por semana, oito livros em oitenta anos de escrita, sim morreu sem ser velho, com apenas 94 anos. O objetivo da sua escrita era que após a leitura de um dos seus romances ou contos se ganhasse a motivação para no outro dia não ir trabalhar. Assim se avalia um poema de livro, se nos faz no outro dia abandonar ou abraçar tudo. Não, não podemos, já somos escravos demais, temos contratos até à 3ª geração e dívidas eternas, não corremos e fomos apanhados. Resta-nos a consolação, houve um homem que nada teve, chamado albert cossery que ainda nos ensina, um egípcio a viver em paris. Ó poema, porque, porque me maltratas. Seca de vez. Fazes-me chorar, diz M a P. Miraram um prédio que visto de cima tinha a forma de y. Grandes plátanos na rua. Encharcados regressaram ao automóvel.

23.
Poeta tomara ser. A primeira vez achei engano. A partir da segunda, deu-me vontade de rir. Depois fiquei assustado, encaro bem o facto, não é crime ser-se mau poeta, ninguém morre por isso, estou feliz assim, pai, homem, amigo, corajoso, profissional, bondoso, parvalhão, distraído, palerma, camarada, brincalhão, bonacheirão, preguiçoso, melancólico, lento, é o que conta. Poemas não dão de comer. Todo o poeta fica feliz quando recebe o padeiro, quando é atendido pelo médico e mais tarde quando é enterrado por um bom coveiro, que mande a terra para cima com jeito. Agora poeta, em pequeno pensava que eram poetas certos excêntricos de pequena barbicha, óculos redondos de tartaruga e bengala, que observavam o mar com deslumbramento, mais tarde descobri, poeta é toda a gente. Por isso não morrem, estão sempre a aparecer. Sou tão poeta como tu, saiba fazer poema, mesmo dos maus. Serei feliz e diz-me lá se isto é um poema, tomara eu.

24.
Poeta, tens lido neruda, chateia os seus poemas de amor, neruda chateia, neruda poeta, lê o canto general, não não precisas de ser socialista, apenas de estar vivo e teres peito ao sabor do lamento das horas. Poeta, gosto de neruda, chateia-me neruda, com suas odes, todas elas elementares, como o céu que as viu nascer, chateia sempre a ode seguinte e o medo de a perder e a felicidade de nunca mais a lembrar. Atravessaram a rotunda do aeroporto e rumaram ao areeiro pela grande avenida ladeada de mansões.

25.
Gosto de Adília Lopes - nome de senhora da limpeza. Dona Adília, nome de senhora da mercearia, das que já não existem. Dona Adília, nome das estranhas vizinhas sempre presentes, as Donas Adílias. Gosto da poeta, dos seus poemas com gatos e com baratas, na casa da D.Adília. Gosto da poeta quando declama, não parece uma poeta, é apenas a Dona Adília, não parece ser tão brilhante quanto é, tem uma poesia tão clara quanto incomodativa, borbulha em nós, empurra-nos pelas escadas abaixo com cheiro a lixívia e a amoníaco, uma poesia tão desbragada e pura que nos embala num tango atroz de dia-noite, gosto de Adília Lopes. Não é poeta quem quer, apenas quem se entende com o vento. Dona A abriu a porta do prédio de fronte verde na avenida de Roma. Subiram ao segundo andar. Beberam chá acabado de fazer na casa vazia de pés direitos altos. Ouvia-se o velho elevador no hall de entrada. Dona A sorriu. Apenas sorriu.

26.
A expressão povo desajustada nos dias que vives. A expressão povo politizada nas veredas que não caminhas. Jamais a expressão nua, perdida e datada. A expressão povo já não conta os dias, madrugadas frias e noites sós. A expressão povo tornou-se pobre para descrever o que és, o que somos, fomos povo agora nada - números surdos, percentagem de gente, previsões de economia, como diz o vagabundo que pede dinheiro e não pão, todos os dias. O pior é as noites frias, é o pior de se ser pobre e com fome, as noites frias, escuras, nas camaratas excluídas, tomara ele ser povo, viva o povo que já não somos - somos apenas a língua que falamos, a de Camões e de Florbela Espanca e já não é pouco. Para um povo há sempre um mestre timoneiro, para cada povo um mestre timoneiro a quem o povo tira o leme das mãos.

27.
A vida perde-se em sinónimos, simbolismos e metáforas como um saco estranho de serapilheira cheio de vírgulas e pontos por colocar. Inventemos um novo dialeto mais uma vez.

28.
L M P
e um narrador.
Lisboa Madrid Paris - terão casas vazias?

(7 de Abril de 2014)
 
(Espero que possam gostar. Ficará um tempo por aqui. Depois irá sabe-se lá para onde. Bem hajam!)

1 comentário:

  1. Gosto deste registo narrativo e poético, cheio de referências "cultas" e de uma grande sensibilidade. Mas isto é quase um livro inteiro... Tenho que vir ler outra vez com toda a calma...
    Um beijo.

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