quinta-feira, 27 de março de 2014

PAULO EDUARDO CAMPOS – A CASA DOS ARCHOTES (Lua de Marfim, 2011)



Vi o poeta na rua. Li o teu livro num galope, disse-lhe. Trocamos livros. Foi-me dado a ler um dos melhores livros de poesia editados pela Lua de Marfim, da Póvoa de Santa Iria. Terra de pescadores, sentados nas lezírias a consertar linhas e a observar o movimento das marés de civilização mutantes que se contorcem em terra.
Poesia viva e adulta. Um livro com narrativa em 4 Cantos. Da infância ao futuro. De dentro para cima e em velocidade horizonte afora. Sem medo das sombras e da ausência. Histórias de rejeição, abandono, separação e coragem. “(…) o coração é uma cama desfeita (pág. 41).”
4 partes: “a entrada da casa”, “a sala de estar”, “o quarto” e “da varanda” onde se procura o “silêncio” numa “paisagem de chuva”. Casa dentro, as sombras e o registo dos corpos presentes ou em ausência. Casa por fora, debaixo dum “céu de luas novas”.

“ VII
“quando preciso de silêncio
visto-me de palavras
e escondo-me num poema
(pág. 48”

Poesia que não perde a luz, enfrentando a sombra, mesmo quando o texto fala de ausência, separação e de “casa desabitada”.
“Falemos de casas (…), cantava Herberto Helder, com a colher na boca, com os elementos em tempestade. Entrei na casa do poeta, passei por ela e sai, ouvindo todos os planos de fina cinematografia desfilarem à minha frente, como se filmado por Orson Welles. O meu coração de leitor latejando no corpo do texto.
Vi o poeta na rua. Ia para casa.


27 Mar. 2014

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