sexta-feira, 28 de março de 2014

GRAÇA PIRES – POEMAS ESCOLHIDOS (1990-2011, Edição de Autor) e outros livros




“Um começo cor de mel como um cenário aberto
                                                     à violência das mãos,
depois, a insinuante dialéctica entre o corpo e a véspera

                                                    de um azul impenetrável.”


Uma retrospetiva em livro da obra da autora. Um livro de poemas escrito ao longo de pouco mais de vinte anos. Assim o li. Inicialmente por sugestão da organização do próprio livro mas costumo depois fazer os meus trajetos e inventar novas formas de respirar a poesia de outrem. Um leitor de poesia que se preze faz o seu próprio livro. Se não o fizer pode ser um problema do leitor ou do livro, ou da poesia. Neste caso, a riqueza está do lado da Poesia e a dificuldade no lado do leitor. A Poesia que se presta a múltiplas e infinitas leituras e que se recria sempre, que se adianta e impõe até ao autor – é um prémio para a humanidade. Como o caso da poesia de Graça Pires. Chamemos-lhe de Arte, ou o que quisermos, acaba por não ser importante designá-la, não tenho essa obsessão, prefiro apreciá-la, mesmo que me faça sentir incomodado ou afetado. Mas esta Poesia abrangendo a paleta de cores da vida na sua extensão alargada não é uma arte de sombra e escuridão. Por vezes sim mas em equilíbrio com o resto do contexto. Trata-se de, no meu ver, de poemas de memória, luz, beleza, deslumbramento e grande intensidade. O mar, o nosso mar, as nossas tradições, os nossos rostos, a mulher, as mulheres e uma digna portugalidade. Este é um grato pormenor que me vem sempre cada vez que me aventuro pelas leituras dos poemas, uma Poesia portuguesa virada para o mar, centrada numa serra verde, em viagem pelas planícies, um abraço desperto a esta terra que pisamos e respiramos. Encontro elementos nos textos que justificam pensar assim. Mas é apenas uma curta e imediata abordagem a tanto que nos é apresentado. 

Analisando a linha criadora de poemas ao longo do tempo, foi bom ler o poema: “Ortografia do Olhar”, sorrir e aceitar este termo como título do blogue da autora. Um belo tema, porque é mesmo disso que se trata, daria um belo título a esta escolha de poemas: “Ortografia do Olhar”, o título do livro de 1996. O poema, que deu título ao livro, um dos meus poemas.


Ortografia do olhar

Os barcos aproximam-se do quotidiano,
pelos atalhos da Luz, no corpo da tarde.
Ao mesmo tempo, de cidade em cidade,
uma inquietante treva incendeia, noite adentro,
o ruído mitológico das maresias de outono.
Um navegante, sem bússola,
enforca-se no cais dos percursos para sul,
como se rastejasse a paisagem dos sonhos
pelo lado mais escarpado da alma.
Ritual de sangue inadiável.
Rotas afogadas nas pálpebras.
Quilha de silêncio
onde ficamos exilados e cúmplices,
reassumindo não sei que espanto,
enconchando o coração para nele caber
o estremecimento intacto de um rio.
A brisa, de feição, justificará o lentíssimo
tumulto dos remos junto à foz.”


 Alguns livros se destacam mas amanhã serão outros, é preciso tempo para deslindar a vida nestes poemas e fazermos do discurso ponte para os nossos pensamentos. Refiro-me a: “Outono – lugar frágil” (1993), “O silêncio – lugar habitado” (2009) ou “A incidência da luz” (2009). Mas virão outras peças a impor-se, no seu devido tempo. Na imensa lista de prémios e livros editados surge um caso, diferente e singular, nesta obra. Um pequeno livro, em edição de autor, que me conquistou lentamente, não á primeira. Fez-me ler mais uma vez o relato bíblico de Marta, irmã de Maria e Lázaro. Textos em delírio poético de uma fina beleza: “Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos (Cartas de Marta para Maria)” (2007).





A poesia de Graça Pires merecia outra atenção da parte do mundo editorial das editoras de visibilidade sempre presente. Não se pode ignorar esta escrita que “enche as mãos de tílias para enfeitar a limpidez do olhar.” Talvez não gostem do brilho desta luz. Desta liberdade, dos “cavalos verdes na s margens do vento (…).” Restam-nos as pequenas editoras, como a Lua de Marfim, que em 2013, editou o novo pequeno livro de Graça Pires: “Caderno de Significados”, onde roubei algumas expressões. Uma pequena apresentação para quem quer começar do presente para trás. As leituras pertencem aos leitores.






Resumindo, se tal é possível. Um cosmos rico com uma linguagem própria e única. Graça Pires inventa o mundo e dá-lhe uma nova linguagem. Como leitor sou um estrangeiro que se deixa encantar numa terra que faço minha porque estou ali em pleno. Dentro deste mundo, vivendo cada sinapse, por assim dizer, momento a momento. É pecado perder alguma coisa.


“A VIAGEM:

Sigo os teus passos, caminheiro perdido em cidades sombrias. Não sei manejar as estacas com que te inclinas no abrigo dos alpendres. Mas todos os caminhos me desafiam para o desvario de um lugar, de uma palavra, de um rosto. Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.
(pág. 30) Caderno de Significados (Lua de Marfim – 2013)”



28 Mar. 2014




1 comentário:

  1. Carlos.meu amigo, não sei como me passou despercebido este seu post sobre a minha poesia. Bem haja pelo carinho e pela forma como se refere ao que escrevo.
    Obrigada por ser meu Amigo e meu Leitor.
    Um beijo.

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