segunda-feira, 31 de março de 2014

4NCH – Luís de Carvalho (edição de autor)



“(…) na 222 west 23fd street, entre a sétima e oitava avenida do bairro de Chelsea em NYC, está o Chelsea hotel (…)”

Luís de Carvalho, também Luís Carvalho, o autor de “Buraco Branco”, no ano de 2011 edita este pequeno grande livro: “4NCH”. Edição de autor, 500 exemplares assinados e com oferta de CD com 8 faixas, declamações e música, do anterior projeto: “Lotaria”. O autor atualmente tem novo projeto de leitura de poemas com banda, os “Dead Flowers”. No canal “You Tube” correm alguns vídeos das suas declamações em vários locais de Lisboa.

Neste novo livro: “4NCH”, o autor vive o sonho de ficar algumas noites no famoso Chelsea Hotel antes que desapareça. Corria notícias de uma provável demolição que no presente parece ter sido abandonada, mas começou obras de restauração e muitos dos seus inquilinos, artistas, boémios e outros excêntricos, têm abandonado o local com o acordo voluntário ou não, com a nova gerência. O hotel de Bob Dylan, Patti Smith, Andy Warhol e outros, celebrizado por Leonard Cohen em canções, corria o risco de perder a sua aura mítica. Antes que acontecesse, Luís Carvalho passou 4 noites no hotel e escreveu: “4NCH” (4 noites no Chelsea Hotel).

Numa fraseologia solta e um discurso poético muito próprio, que se notou bem no livro: “Buraco Branco” (2008), os poemas são influenciados pelo próprio hotel. Poderia dizer que o local se assume como um personagem. Poemas concebidos ao 1º take, um pouco na linha dos Beat, em que o 1º pensamento é o melhor. Todo o livro, de poucas páginas, é um excelente objeto de design. As ilustrações com elementos e padrões usados na decoração do hotel cruzam-se com poemas de fascínio pelo sítio tão fervente de histórias. E as histórias e a memória de outras histórias misturam-se nos poemas com a experiência do próprio autor e esposa naquelas 4 noites no Chelsea Hotel.

Um livro diferente, com poemas duma voz que se afirma na nossa poesia. Luís de Carvalho tece uma poesia singular, muito anglo-saxónica, algo Carverniana, de poucos virtuosismos líricos, de uma metáfora direta e atual. As palavras como são entendidas nestes dias. Poesia de agora, com a carga da memória recente vinda do universo do cinema, da história do rock n´roll, da web, das gentes e das leituras do presente. Uma arte viva e uma voz original. Poesia com um jogo de linguagem irónico, mordaz, pessimista mas não derrotado. Vale a pena conhecer: “4NCH”. Uma pequena viagem de sentidos alerta pelo famoso hotel. Não esqueçam o CD.


A propósito de “4NCH”, um poema do livro: “Buraco Branco”:


“a tua susana leonardo

a tua susana leonardo, cantavas
que te levava, junto ao rio
nos barcos passear, a minha
leonardo, descalça sobre risos
entre vidros, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
meio louca, com chá e laranjas
da china te alimentava, a minha
leonardo, despojada sobre copos
entre whiskies, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
que te arrastava, nas ondas
do amor sem mar, a minha
leonardo, desafinada sobre pianos
entre brasas, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
sol como mel, vestida de trapos
e plumas te tocava, a minha
leonardo, eclipsada sobre chuvas
entre sóis, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
que te ensinava, entre lixo
e flores debruçada, a minha
leonardo, desarmada sobre sintonias
entre dores, dançava

com ela no sem mar, viajavas
às cegas, corpo perfeito, tocavas
pensamento, e com ela cantavas
o mundo que se encanta, numa tumba
de profeta oculto, ao sem mundo
da dança isolada, parto espelhos
seguros, danças mudo.”


Aqui fica as minhas impressões sobre este projeto e livro.
Um abraço, poeta.

31 Mar. 2014

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