terça-feira, 4 de novembro de 2014

biplano


Sopa, pão, vinho e fruta. A alimentação preferida do homem. Meteu as salsichas na chapa quente e derramou-lhe aguardente para cima. Bebeu um pouco pelo gargalo.
– O rapaz ficou maluco e está no hospital – disse para o seu amigo. Este mexia na geladeira e tirou uma cerveja.
– Que é que lhe aconteceu?
– Ataque de ansiedade, tipo ataque cardíaco. Tenho de ir vê-lo - virou as salsichas.
– Gostas de pôr picante, não é – perguntou ao amigo, que procurava um abre-latas.
– Sim, mas pouco.
Uma brisa fresca fez mudar o fumo do churrasco na varanda. O homem que cozinhava pegou num pedaço de pão e besuntou-o com queijo que tirou duma caixa de cartão. Comeu lentamente. Ia vigiando as salsichas. O seu amigo sentou-se e bebeu a sua cerveja. Depois de almoço foram visitar o conhecido de ambos, que ia ficando maluco. Agora dormia horas a fio e babava-se para a almofada. A mulher estava sempre presente, não deixava entrar os filhos.
– O que lhe fez ficar assim?
– Trabalhou de mais. Cumpriu todos os objetivos, ganhou todos os prémios e teve um esgotamento. A marca que vendia vai fechar, perderam um concurso a nível europeu. Agora, querem despedi-lo.
– Selvagens.
– Talvez, seja o nome, sim.
O homem saiu com o seu amigo vagabundo.
– Tens onde ficar hoje à noite?
– Não.
– Tens família?
– Toda a gente tem família.
– Eu não, deixei de ter.
Entraram num café para comer qualquer coisa. Começou a chover.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

conduzindo ao anoitecer


conduzindo    
lento ruidoso como não se fazem - nunca mais    
conduzindo
com a minha idade  - quase    
nome que se dá – feio    
arredondado pouco espaçoso    
temperamental - mau com o tempo húmido - teimoso
conduzindo marca alemã    
fiável não tem avarias    
faltar os travões - os tubos da bomba apodrecem    
que se lembre de não pegar    
ganha orvalho motor atrás crescem plantas    
pega de empurrão - é o que vale    
conduzindo ao anoitecer    
pequenas janelinhas triangulares laterais abertas    
o motor em stereo    
acelerando    
bom nas subidas    
alma e força    
não te deixa mal    
conduzindo ao anoitecer    
nave espacial dentro do tempo    
velho VW até já

quarta-feira, 9 de abril de 2014

as casas vazias

“Deslizamos por uma casa adormecida…” (Tomas Tranströrmer)

1.
L M P
Lisboa Madrid Paris
L conduz. M retoca as pinturas. P fala muito. O velho VW sobe e desce as ruas do bairro da Graça. Fica em Lisboa, numa cidade antiga e a cair. De que falam. De ruas em curva a descer, que também sobem envergonhadas. M destaca mulheres idosas de sacos de compras, e as ruas que descem em vertigem, queda abrupta, a queda das velhas é juvenil e despojada. Ruas que vivem contorcendo-se na memória das infâncias, isso foi L que mencionou. E acrescentou que estava convicto que o lume tem várias. Ligeiro silêncio, ninguém percebeu. L explica tudo, portanto é esperar. P fala mesmo sem perceber. Isso define-o. Fala da cidade tão perto da esperança – longe, do deus do improviso e da loucura. Com gendarmes de madrugada aos gritos, uma camioneta cheia de gente, de cruzeiro pelos sentidos, com 36 horas de viagem, trip suja, para onde  é proibido parar, daí os policias. Espera-se um táxi dum amigo que os leve a um bairro social nos arredores de Versailles mas isso era em 1980. Experiência pessoal. P mistura conversa do momento com recordações. Nunca diz tudo mas diz muito. Ele é assim.

2.
Dois homens e uma bela mulher num velho VW pelas ruas da cidade. Chove. As pessoas morrem. Ficam só os seus passos. São bonitos aqueles pés nus desenhados no chão. O mar apaga-os em 3 tempos: quente, morno e frio. Foi gente que passou ali. Fui eu e Tu - vento de outra era. As pessoas morrem em tempos de areia e lua deitada no mar. Ficam os passos. Agora adivinhem quem disse isto. Bonito e estranho. Quem poderia ter sido. L, M ou P? Aposto em L, mas que sei eu, sou só o estupor do narrador. Que sei eu.

3.
As casas vazias têm paredes com memórias surdas. As casas vazias têm falta de gente desarrumada. E gatos. E mulheres. Velhas a bordar à janela. Os soalhos sujos das casas. Os passos e os corpos a cair em sorrisos. Falta o mar a dançar dentro das casas como se as lavasse. A casa que foram visitar ficava numa encosta. Tinha um vazio sujo e escuro. Um perfume a solidão. Saíram depressa. Desceram a rua, a água da chuva acompanhou-os. Um dilúvio que assobiava nas curvas. O velho VW chiava por vezes. Agora era M que falava, não tinha gostado da casa, nem os outros. Como é que em tão pouco tempo, uma mulher pode encontrar tantos pontos de defeito e rejeição numa casa vazia.  

4.
A vida não é simétrica. Os dias não rimam. Os passos que correm não cantam sonetos. A vida é livre todos os dias sem se repetir. Os dias não são iguais. Presta melhor atenção. Há rumbas e coladeras no vento também jazz, samba e fado. A poesia quer se madura e ingénua como qualquer criança. Com a beleza duma mulher. Qualquer uma. Das que sorriem e choram. Nem as lágrimas são simétricas - brilham todas elas. Uma mulher como M é um raio de sol. É de fazer parar o movimento de rotação da terra. E observar a dança da sombra da oliveira. Uma mulher que é capaz de habitar todas as casas vazias com a sua presença. Linda e mordaz como a eternidade.

5.
Vem ter comigo. Traz o vinho das vindimas do teu suor. No velho rádio do automóvel, a emissão retorna e canta um velho fado. Faz todos sorrirem. Mas a canção não termina, transformou-se em estática, imitando a chuva. Chuva, dentro e fora do carro.

6.
L decide contar uma história, enquanto conduzia e passavam pela entrada do cemitério do Alto São João. Acelerou. O homem guardava na gaveta as suas riquezas. Um cd de leonard cohen. Outro de Haydn, com 3 sinfonias. Mais um cd dos Beatles, neste caso o revolver. Outro de um trio de jazz português, que bem tocam – comentou. Outro cd de covers de músicas de filmes, que saem nas revistas e deitam-se fora. Mais uma caixa de plástico que menciona 4 faixas com tempo específico mas sem cd dentro - cada faixa, uma proposta de audição de ambientes - numa espécie de ideia à john cage. Lenços de papel. Cinco euros em moedas. Um carregador de computador. Um carocha metálico, tipo porta-chaves. 3 fotocópias de poemas, com partes sublinhadas. Um catálogo duma editora marginal. Duas canetas, uma delas num estojo de plástico, oferta de aniversário da empresa. Um pequeno dicionário português-inglês, inglês-português. Um estojo de óculos, vazio. Uma montanha de estranhos papelinhos. Um bloco de apontamentos, vazio de palavras. Uma grande melancolia & vento que sai da gaveta, comentário de P. Todos os dias a arrumava e limpava, como se o dia dependesse daquele puzzle. Um particular cosmos dentro duma gaveta. E limpou-a, de vez no dia em que foi despedido. Ficou vazia a gaveta a partir daquele dia.   

7.
Esta semana acabou fingida e sorrateira, sem a alma das gentes que a sabem beber. Esta semana findou como todas as outras, sem que as pedras sentissem o tempo. Amanhã virá e tu sairás para a rua e sempre haverá um dia sem regresso. Parece que é Abril mas as baratas não sabem o ano. O velho VW rolava junto ao rio, perto de Poço do Bispo. Todos observavam os velhos armazéns. Acelerou numa nova linha reta.

8.
Não mudes o mundo. Não mudes os outros. Não resulta. Muda-te. Não se muda um país. Muda-se as pessoas. Muda-se o coração e os rins. Por dentro somos todos diferentes - não aceites que te digam o contrário, pá. A tua impressão digital é só tua. A poesia que lês ninguém mais lê. Os teus olhos são teus e de mais ninguém. És aquilo que és. Nada mais. É tanto que Deus enlouquece com isso - direi eu. Só conseguimos mudar duas ou três pedras no nosso caminho. Podem ser suficientes para fazer tropeçar uma multidão - para apedrejar um inocente - para partir todos os vidros do palácio - o rei que também sinta frio. Sabes que não se muda nada. Somos os mesmos. Os que não sobreviveram à fábrica de sabão de Auschwitz. Os que morreram no exílio das pradarias sem búfalos. Os que carregaram o Enola Gay com a sua carga secreta. Os que ficaram sem pele. Os que acordam de noite com o medo das histórias passadas. Somos todos tutsis e hútus. Somos todos descendentes do mesmo patriarca, primos e irmãos. Afinal o que pretendes mudar. Deixa lá isso e vai-te deitar. Ninguém segue este conselho. O automóvel entrou no bairro dos Olivais. Estacionou perto duma estranha torre. Subiram ao nono andar, a vista ampla. O vazio do apartamento, familiar.

9.
Hoje tem ventos de ontem. Sempre teve o presente a brisa dos passos não achados. Não sei se por isso hoje sou ontem. Ninguém compreende L e do que fala. É como poesia que se reconhece elementos mas não o seu todo.

10.
Faz um poema – tu - e depois calo-me. O ruído da minha - tua - voz não deixa os pardais cantarem após a longa chuvada noturna que espalha o perfume a terra molhada. Belas vozes desses poetas de bico e penas. Fazem um poema e parece só para mim – para ti. Fecho os olhos e ouço-os à desgarrada mas tudo tem um fim. A este fim. A agonia de um só dia. A tarde consumia-se e o grupo sorria nos seus silêncios.

11.
Desde junho de dois mil e oito que mijo neste limoeiro e ele não para de crescer, contava P. Vi isto num filme e já chega desta história estranha e por isso desistiu de relatar os seus infortúnios de agricultor. Cansa ouvir a nossa voz rouca e repetitiva, como graffiti de basquiat neste muro coletivo. Cansa esta lamurienta cantarolice tão ensimesmada por isso sabe bem o ezra pound dos outros. Os mestres quotidianos e tristes. Já chega, tudo tem um fim mas aos amigos diz-se até já e servimos o whisky barato das nossas consciências. E à poesia pós-moderna delego o caixote do lixo e vai-te catar, virulenta. Estou asco de ti. Bela tirada, adverte M. Vai daqui um abraço de cuspo. Um adeus. Um the end, prostituta dos dias e deixa-me em paz. Umbigo feroz de bairro esquecido. Este mesmo, utopia de regime, com relva velha. Os Olivais das ruas em curva.

12.
Não conheço madrid mas madrid pode ser esperança. Madrid não me mates, madrid não a mates. Uma pausa. Um intervalo para a grande fiança futura. Volto em abril poema. Madrid não a mates. Esvazia-a viva de um sol de viagem e dor. 16 de março. Aconteceu mesmo. L recordou o momento aflitivo associado à cidade espanhola. Seguiram mais a norte, para o bairro da Encarnação.

13.
Como posso se não sei o que é. L sabe, afirma. P também. Mas M afirma que não. Há o senhor Herberto, há o senhor Camões. Há o senhor Ramos Rosa, o senhor Gullar e o senhor Manoel de Barros. Há a senhora Sophia, a senhora Florbela Espanca e a senhora Adília. E há o senhor Pessoa que era outros senhores dentro dele, uma coisa estranha. Como posso sequer sonhar que me chamem isso. No entanto venho para aqui e faço isto sem saber muito bem como me enquadro no propósito de deus. Afirma o poeta, os poetas. Sou assim sem saber outra coisa de mim. Mas dos outros percebo eu. Vejo-os a polir as letras em perfeitas estátuas-metáfora. Poesia, coisa estranha. A chuva ignora-a. Faz chiar os pneus.

14.
Viu pollock, assim é fácil. Observou rothko, assim é fácil. Mirou miró e klee, assim é fácil. Leu bukowski e ginsberg, assim é fácil. P disse gostar de bukowski. Franco e rude. Releu Hemingway, assim é fácil. Visionou jarmusch, assim é fácil. Ouviu ramones. Ouviu tom waits. Ouviu ornette, assim é fácil. M protestou, como é que ornette pode ser acessível. Fácil, teimou L.Viu outra vez basquiat, assim é fácil. Voltou a ver picasso, assim é fácil. Lembra-se de ter gritado com sid vicious e os restantes sex pistols, assim é fácil. Leu Herberto, isto não consigo e morreu infeliz dentro duma falésia em queda contínua. O grupo que já se abstraia da declamação, elogiou o final. L não ficou convencido. Estacionaram ao pé duma vivenda germinada assaltada por heras e plantas selvagens no exterior.

15.
Faz um poema. Escreve um poema. Escreve 1000 poemas ridículos e naif, amorosos e ingénuos, com frases gastas, repetitivas de puro enfado, acriançados, niilistas, religiosos e com nuances espirituais, desolados, criminosos. Poemas sexistas, machistas, racistas, com voyeurismo, destituídos de humanismo, adolescentes, virados para umbigos, cheios de nada, de sangue e vísceras – o poema. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que todos leiam o poema - isso nunca aconteceu - nada significa. O mundo fica tal e qual. Melhor seria fazeres pão. Fazeres amor com uma persona de ventos trigueiros. Passear o cão. Pintar uma tela. Beber uma cerveja. Pregar boas novas. Cantar uma canção. Adotar um mendigo. Conversar com um velho amigo. Pintar uma casa. Ir trabalhar. Fazer as camas de lavado. Engraxar os sapatos. Comprar flores. Fazer uma omolete. Limpar a rua de folhas mortas. Observar os outros. Beber duas cervejas. Ir assistir a um enterro. Olhar as estrelas. Orar a Deus. Fabricar estantes. Fazer bolos. Comer um gelado. Dormir uma sesta – depois - faz o raio de um poema com esta secura de brisa noturna e suor de santa preguiça. Subiram ao segundo piso, em silêncio. Acharam tudo música de câmara oitocentista. Expressão de M que nada disse mais.

16.
Gosto dos poetas que não são metáfora. Que olham nos olhos da realidade e dizem o que lá encontram sem filtros. Há uma poesia abrupta, VIL nisso mesmo. Gosto dos poetas rudes, VIS. Detrás dos poetas, as sombras sem corpo. Confundir as coisas. Um poema tosco em bruto, associamos a um grunho em pessoa. Enganamo-nos ou acertamos. A poesia VIL faz lembrar pessoas da família que já morreram. Contavam histórias de fatalidades entre um copo de vinho e um pedaço de queijo. Sorriam felizes, nunca percebi porquê. Percebo lendo os poetas rudes também eles felizes por terem histórias irreais a contar em poemas de soco. Felizes por terem sobrevivido a dias sem nenhuma poesia, apenas fome. Gosto de poetas assim, rudes, VIS como o bairro onde vivi por vinte e cinco anos. Onde as velhas que passam se confundem com as oliveiras centenárias, VIS, belas. Não tarda, serei um desses velhos. Rirei contando as mesmas VIS histórias com um copo de vinho e um pedaço de queijo de cabra. Como as estórias do meu falecido tio nos arredores de Versailles. Do meu falecido pai, seu irmão entre um filme de Ford, uma aguardente e a cama. Gosto de pensar nestes poetas. A estes conheci-os e estão dentro de mim. Um dia as histórias VIS vão sair cá para fora e dançar na rua. Rirão dos dias passados de boca em boca, rirão de quem as VILMENTE contaram. Atravessaram a avenida de Berlim e L acelerou o velho VW rumo a Chelas.

17.
O livro é uma casa, um monte. O que se faz a uma casa e a um monte senão levar um cão e um garrafão de vinho. Deixar por lá o tempo cantar a sua cançoneta. Mas este livro tinha 90 anos e problemas de articulações. Doía-lhe os joelhos e a coluna quando se dobrava. Um lugar já antigo e com problemas de amarelecimento. O livro é uma casa arrendada a novos habitantes que não param de a subverter sem parar. O livro é uma casa, um monte sempre perto, sempre longe, quanto uma mulher de eira e uma sombra que afasta na sombra do dia. Sombra que se afasta da sombra, destacou M. Posso fumar, perguntou.

18.
Um velho, velho automóvel descoberto sem portas, nada que o distinga duma ruína memorial, ford capri de muitos anos, abandonado, testemunha consentida duma era de utopia que já passou. Dentro os ratos coabitam, procriam entre ervas verdes e húmidas de mau cheiro, ratos multiplicam-se, viscosos e de olhares furtivos, ratos crescem como texugos. Um velho automóvel parado por séculos, se o século for medido em tempo de rato, ecossistema de improviso, na cidade velha, deserta de gente e ruídos, apenas a comunidade multiplicada de ratos de urbe. Deixemos os ratos, estes vivem no seu mundo de sobrevivência, no meio do lixo, no meio da leptospirose que aos ratos não afeta. Ratos não têm a culpa, não nasceram católicos, nem têm a inquisição dos ratos. Bichos que vivem e alimentam seus filhotes. O lixo é humano. O lixo é invenção humana. Talvez invenção do Diabo em conjunto. Os homens aceitam tudo do Diabo e algumas coisas de Deus. Os ratos bem que podiam correr pelos campos, se não fosse a salada suja e gorda que é uma cidade. E os gatos engordariam selvagens de território dividido. Várias criaturas concorrem a dividir o mundo. Ratos e Baratas e várias Bactérias. Estão a ganhar. O pobre humano a perder. Voltemos aos ratos então. A comunidade que vive no velho ford capri floresce e invade a cidade pela porta fácil, um condomínio fechado de luxo. Nem vos digo, nem vos conto o que sucedeu a seguir. Subiram à torre cinzenta e arredondada. Sem elevador. No nono andar, uma mulher com demência cantava. Uma varanda e um apartamento vazio. Voltaram para trás. Desceram sem elevador. O velho VW acelerou mesmo sem saber para onde se dirigia. Tinha parado de chover.

19.
Viva paulo leminski, nunca o nada foi tanto. Viva zapata, talvez por brando. Viva dylan, o que canta, ensinou-me a suplicar o poema. Viva jim morrison, com ele aprendi a alongar o zelo louco e mais tarde deixei de beber. Viva camões, sempre habitará a nossa ilha. Viva os poetas que nos brilham os sapatos, são os verdadeiros. Viva hilda Hilst, conheci uma vizinha assim, bebia, tinha gatos, fotos antigas e belas. A preto e branco, perguntou P.

20.
E agora e agora, continuam vós, a ode eterna, o meu grato sentimento, o meu sincero obrigado por absolutamente nada, bastardos, tontos, despassarados como um qualquer querubim perdido. Éden circular que tonteia a noite.

21.
Faz tu mesmo, revoluciona o rock and rol, mas que é isso, uma invenção comercial, um negócio, uma fraude, um sonho. Faz tu mesmo, revoluciona a democracia, de repente o homem do talho podia ser presidente mas que é isso, uma utopia, uma fraude, a great swindle, um engano, um sonho. Vai e faz tu mesmo, é o cristianismo mas que é isso, um modo de vida, nunca uma aparência, nunca uma vestimenta, nunca um discurso, será um sonho, cada homem respeitar cada homem, o pior dos sonhos, o mais difícil, o mais acessível, o mais barato. Olha, vai e faz tu mesmo, diz-me depois qualquer coisa. Ouvia-se Lou Reed. Voltaram ao bairro dos Olivais. Recomeçara a chover e com violência.

22.
Ó poema, porque me maltratas. Lembro cossery, dado morto, em paris, no mesmo quarto de hotel onde viveu desde 45, escrevia uma linha por dia, uma folha por semana, oito livros em oitenta anos de escrita, sim morreu sem ser velho, com apenas 94 anos. O objetivo da sua escrita era que após a leitura de um dos seus romances ou contos se ganhasse a motivação para no outro dia não ir trabalhar. Assim se avalia um poema de livro, se nos faz no outro dia abandonar ou abraçar tudo. Não, não podemos, já somos escravos demais, temos contratos até à 3ª geração e dívidas eternas, não corremos e fomos apanhados. Resta-nos a consolação, houve um homem que nada teve, chamado albert cossery que ainda nos ensina, um egípcio a viver em paris. Ó poema, porque, porque me maltratas. Seca de vez. Fazes-me chorar, diz M a P. Miraram um prédio que visto de cima tinha a forma de y. Grandes plátanos na rua. Encharcados regressaram ao automóvel.

23.
Poeta tomara ser. A primeira vez achei engano. A partir da segunda, deu-me vontade de rir. Depois fiquei assustado, encaro bem o facto, não é crime ser-se mau poeta, ninguém morre por isso, estou feliz assim, pai, homem, amigo, corajoso, profissional, bondoso, parvalhão, distraído, palerma, camarada, brincalhão, bonacheirão, preguiçoso, melancólico, lento, é o que conta. Poemas não dão de comer. Todo o poeta fica feliz quando recebe o padeiro, quando é atendido pelo médico e mais tarde quando é enterrado por um bom coveiro, que mande a terra para cima com jeito. Agora poeta, em pequeno pensava que eram poetas certos excêntricos de pequena barbicha, óculos redondos de tartaruga e bengala, que observavam o mar com deslumbramento, mais tarde descobri, poeta é toda a gente. Por isso não morrem, estão sempre a aparecer. Sou tão poeta como tu, saiba fazer poema, mesmo dos maus. Serei feliz e diz-me lá se isto é um poema, tomara eu.

24.
Poeta, tens lido neruda, chateia os seus poemas de amor, neruda chateia, neruda poeta, lê o canto general, não não precisas de ser socialista, apenas de estar vivo e teres peito ao sabor do lamento das horas. Poeta, gosto de neruda, chateia-me neruda, com suas odes, todas elas elementares, como o céu que as viu nascer, chateia sempre a ode seguinte e o medo de a perder e a felicidade de nunca mais a lembrar. Atravessaram a rotunda do aeroporto e rumaram ao areeiro pela grande avenida ladeada de mansões.

25.
Gosto de Adília Lopes - nome de senhora da limpeza. Dona Adília, nome de senhora da mercearia, das que já não existem. Dona Adília, nome das estranhas vizinhas sempre presentes, as Donas Adílias. Gosto da poeta, dos seus poemas com gatos e com baratas, na casa da D.Adília. Gosto da poeta quando declama, não parece uma poeta, é apenas a Dona Adília, não parece ser tão brilhante quanto é, tem uma poesia tão clara quanto incomodativa, borbulha em nós, empurra-nos pelas escadas abaixo com cheiro a lixívia e a amoníaco, uma poesia tão desbragada e pura que nos embala num tango atroz de dia-noite, gosto de Adília Lopes. Não é poeta quem quer, apenas quem se entende com o vento. Dona A abriu a porta do prédio de fronte verde na avenida de Roma. Subiram ao segundo andar. Beberam chá acabado de fazer na casa vazia de pés direitos altos. Ouvia-se o velho elevador no hall de entrada. Dona A sorriu. Apenas sorriu.

26.
A expressão povo desajustada nos dias que vives. A expressão povo politizada nas veredas que não caminhas. Jamais a expressão nua, perdida e datada. A expressão povo já não conta os dias, madrugadas frias e noites sós. A expressão povo tornou-se pobre para descrever o que és, o que somos, fomos povo agora nada - números surdos, percentagem de gente, previsões de economia, como diz o vagabundo que pede dinheiro e não pão, todos os dias. O pior é as noites frias, é o pior de se ser pobre e com fome, as noites frias, escuras, nas camaratas excluídas, tomara ele ser povo, viva o povo que já não somos - somos apenas a língua que falamos, a de Camões e de Florbela Espanca e já não é pouco. Para um povo há sempre um mestre timoneiro, para cada povo um mestre timoneiro a quem o povo tira o leme das mãos.

27.
A vida perde-se em sinónimos, simbolismos e metáforas como um saco estranho de serapilheira cheio de vírgulas e pontos por colocar. Inventemos um novo dialeto mais uma vez.

28.
L M P
e um narrador.
Lisboa Madrid Paris - terão casas vazias?

(7 de Abril de 2014)
 
(Espero que possam gostar. Ficará um tempo por aqui. Depois irá sabe-se lá para onde. Bem hajam!)

sábado, 5 de abril de 2014

Bio - gráficos

“o meu cão parece um coelho
eu pareço uma pessoa …” (
Bénédicte Houart)  

...
  Escrevo poemas
porque sou sujeito a medir o horizonte com a
a melancolia Desde que nasço no dia até ao
poente A doce melan-co-lia como o voo medido
das andorinhas sem fim sem perdão sem dó
Malfeito e por acabar esboço a lápis dissolvo-me
na chuva das horas mortas Vulgar pardal que cairá
sem que o trânsito se quede nem mulher nem
velho homem que passa nem criança de rua
nem vagabundo ébrio nem deus nem sombra
nem esquina nem candeeiro de nevoeiro nada
nem ninguém se mexe sempre que um pardal
cai nem o vento nem a eira adornada a pôr do sol
nem nada se importa com o estúpido pardal que
caiu que importa que importa menos um
ridículo pardal que importa, senhores
  Escrevo poemas
portanto em delírio espécie de loucura particular
esquizofrenia de labor sempre que estou só com
o meu ego esse bárbaro mal comportado e inútil
Não faço poemas quando o sorriso me aquece
quando corro na relva com a menina do meu ser
quando ela me chama e clama: pai, não me apanhas
– pois não preciso de poemas para nada e quando
exausto regresso a casa e a noite chega então logo
ficarei igual a mim próprio ao meu pai ao meu avô
num duro alentejo E preciso dum poema que me
pendure na corda de secar do cosmos ou lá o que
é isso dos poemas Noite bela doce princesa
é quando a história de sempre te adormece
sobretudo se me enganar de propósito e baralhar
os mundos do Peter Pan com os do Rei Leão
dá outro gozo à história quando é imperfeita
e com erros doces erros motrizes de tudo o
que é vivo E porque é que tudo tem de se
assemelhar ao correto e não ficcional ora
porra
  Escrevo poemas
como qualquer um que trabalhe nas docas Viver
dói como o raio que o parta parece que para
todos Deus porquê isto assim Sou um pardal
de chuva na árvore do momento e apenas isso
(Maio 12)

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Alguns aspectos mais

Comecei com este livro. A sua divulgação restringe-se ao site da editora mas pode ser adquirido em e-book, uma forma barata de o ler. Um livro experimental, com prosa e poesia. Talvez um dia recupere alguns dos poemas para outro projecto. Quem sabe.






Partilho também convosco, a minha estreia na rádio. Não sei se é possível ouvir esse programa que decorreu em Setembro de 2013, mas aqui fica o link da rádio e do evento.



Encerro aqui esta espécie de balanço com informações que podem ser utéis. 
Voltarei aos textos habituais.

Os meus agradecimentos por tanta e generosa atenção da vossa parte.
São muitas visitas e leituras no meu contador, nunca esperei ter tantas.
Tudo farei para estar à altura com os textos que vos dou a ler.

Bem hajam!

A coletânea A Vida Num Sonho (como e aonde adquirir):



Participo nesta coletânea com um pequeno texto em prosa. Lançado pela editora Lua de Marfim, com autores da casa.

Pode ser adquirido, aqui:
http://www.wook.pt/ficha/a-vida-num-sonho/a/id/14762731

Aqui:

Aqui:


Obrigado pela vossa atenção.

A coletânea Poetas da Nossa Terra (como e aonde adquirir)



Participo com 5 poemas nesta coletânea de poetas do concelho de Vila Franca de Xira. Lançado em 2013.

Como adquirir:

Aqui:

Aqui:

Aqui:


Boa Leitura!

Como e aonde se pode arranjar o livro: Homem-Árvore




aqui: 

aqui:

aqui:

aqui:

aqui:
A Ler Devagar aceita encomendas, de todo o país, de livros portugueses e franceses. As encomendas podem ser feitas por telefone (213 259 992) ou por e-mail:livraria@lerdevagar.com .

aqui: 

Livraria Pó dos Livros
Comprar Entre na página Pó dos livros vintage. Todos os preços incluem IVA e não têm portes para Portugal continental e ilhas. Os livros devem ser reservados pelo email: podoslivros.vintage@gmail.com ou pelo tel: 21 795 93 39. Após confirmação da reserva pela Pó dos Livros, as encomendas podem ser levantados na livraria (no prazo máximo de uma semana, salvo combinação em contrário), enviados por correio (normalmente em 24 horas), pagos por transferência bancária para o banco Santander Totta (NIB: 0018 0003 1620 840 702 071 ou para transferências internacionais EBAN: PT50 0018 000316208407020 71 BIC TOTAPTPL ) ou por Paypal.
(Não se esqueça antes de fazer o pagamento por Paypal confirmar stock através do tel: 21 795 93 39 ou pelo e-mail:  podoslivros.vintage@gmail.com ).

Aqui:


Qualquer dúvida, há respostas na editora Lua de Marfim. Estejam à vontade para me contactar por e-mail. 

Obrigado pela vossa leitura. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

4NCH – Luís de Carvalho (edição de autor)



“(…) na 222 west 23fd street, entre a sétima e oitava avenida do bairro de Chelsea em NYC, está o Chelsea hotel (…)”

Luís de Carvalho, também Luís Carvalho, o autor de “Buraco Branco”, no ano de 2011 edita este pequeno grande livro: “4NCH”. Edição de autor, 500 exemplares assinados e com oferta de CD com 8 faixas, declamações e música, do anterior projeto: “Lotaria”. O autor atualmente tem novo projeto de leitura de poemas com banda, os “Dead Flowers”. No canal “You Tube” correm alguns vídeos das suas declamações em vários locais de Lisboa.

Neste novo livro: “4NCH”, o autor vive o sonho de ficar algumas noites no famoso Chelsea Hotel antes que desapareça. Corria notícias de uma provável demolição que no presente parece ter sido abandonada, mas começou obras de restauração e muitos dos seus inquilinos, artistas, boémios e outros excêntricos, têm abandonado o local com o acordo voluntário ou não, com a nova gerência. O hotel de Bob Dylan, Patti Smith, Andy Warhol e outros, celebrizado por Leonard Cohen em canções, corria o risco de perder a sua aura mítica. Antes que acontecesse, Luís Carvalho passou 4 noites no hotel e escreveu: “4NCH” (4 noites no Chelsea Hotel).

Numa fraseologia solta e um discurso poético muito próprio, que se notou bem no livro: “Buraco Branco” (2008), os poemas são influenciados pelo próprio hotel. Poderia dizer que o local se assume como um personagem. Poemas concebidos ao 1º take, um pouco na linha dos Beat, em que o 1º pensamento é o melhor. Todo o livro, de poucas páginas, é um excelente objeto de design. As ilustrações com elementos e padrões usados na decoração do hotel cruzam-se com poemas de fascínio pelo sítio tão fervente de histórias. E as histórias e a memória de outras histórias misturam-se nos poemas com a experiência do próprio autor e esposa naquelas 4 noites no Chelsea Hotel.

Um livro diferente, com poemas duma voz que se afirma na nossa poesia. Luís de Carvalho tece uma poesia singular, muito anglo-saxónica, algo Carverniana, de poucos virtuosismos líricos, de uma metáfora direta e atual. As palavras como são entendidas nestes dias. Poesia de agora, com a carga da memória recente vinda do universo do cinema, da história do rock n´roll, da web, das gentes e das leituras do presente. Uma arte viva e uma voz original. Poesia com um jogo de linguagem irónico, mordaz, pessimista mas não derrotado. Vale a pena conhecer: “4NCH”. Uma pequena viagem de sentidos alerta pelo famoso hotel. Não esqueçam o CD.


A propósito de “4NCH”, um poema do livro: “Buraco Branco”:


“a tua susana leonardo

a tua susana leonardo, cantavas
que te levava, junto ao rio
nos barcos passear, a minha
leonardo, descalça sobre risos
entre vidros, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
meio louca, com chá e laranjas
da china te alimentava, a minha
leonardo, despojada sobre copos
entre whiskies, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
que te arrastava, nas ondas
do amor sem mar, a minha
leonardo, desafinada sobre pianos
entre brasas, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
sol como mel, vestida de trapos
e plumas te tocava, a minha
leonardo, eclipsada sobre chuvas
entre sóis, dançava

a tua susana leonardo, cantavas
que te ensinava, entre lixo
e flores debruçada, a minha
leonardo, desarmada sobre sintonias
entre dores, dançava

com ela no sem mar, viajavas
às cegas, corpo perfeito, tocavas
pensamento, e com ela cantavas
o mundo que se encanta, numa tumba
de profeta oculto, ao sem mundo
da dança isolada, parto espelhos
seguros, danças mudo.”


Aqui fica as minhas impressões sobre este projeto e livro.
Um abraço, poeta.

31 Mar. 2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

LEIS DA SEPARAÇÃO – Rui Almeida (Medula – 2013)




“É leitor o que se assombra devagar
E respira para cima da folha,
Para dentro do gesto de escrever (…)

(pág. 13)”


Uma editora nova. O editor, um poeta. Os autores, caminhantes de vereda própria.
Rui Almeida, prémio de poesia Manuel Alegre de 2008, com: “Lábio Cortado” (Livrododia, 2009). Em 2011 edita: Caderno de Milfontes (Volta D´Mar). Autor do blogue: Poesia distribuída na rua.
Agora com: “Leis da Separação”. Edição de apenas 100 exemplares, 25 assinados pelo autor. Livro esgotado. O poeta é uma figura simpática e afável. Atrai e dá de si.
Poesia madura e em movimento. Cinema de palavras. Livro pequeno mas grande no trajeto do poeta. Sei lá quantos passos mas em frente. Enfrentando a dura realidade, como uma tempestade que não se sabe quando acaba.


“Ainda aguentamos um pouco
Até não sermos mais capazes
De conter soluços e versos
Debaixo da insanidade (…)
(pág. 29)”



Traz-nos fé nesta nova editora. A editora de Manuel A. Domingos.
Rui Almeida segreda-nos de peito feito:
“Não digas a ninguém que estás contente (…)”. Eu respeito-o e cumpro. Como classificamos o prazer que nos dá esta poesia? Que nos incomoda e não nos deixa em paz.
“Dorme”  e “sossega” não é possível, poeta.
São poemas destes dias. Apontam o horizonte. Mas para onde caminhamos, se caminhamos. 



“não sei quantos de nós estaremos vivos
No dia em que estes campos
Voltarem a estar verdes (…)
(pág. 44)”



O livro tem desenhos de Carla Ribeiro. Capa de Manuel A. Domingos.
Lê-se em vários galopes que nos atiram ao chão, quase sempre.

28 Mar. 2014

GRAÇA PIRES – POEMAS ESCOLHIDOS (1990-2011, Edição de Autor) e outros livros




“Um começo cor de mel como um cenário aberto
                                                     à violência das mãos,
depois, a insinuante dialéctica entre o corpo e a véspera

                                                    de um azul impenetrável.”


Uma retrospetiva em livro da obra da autora. Um livro de poemas escrito ao longo de pouco mais de vinte anos. Assim o li. Inicialmente por sugestão da organização do próprio livro mas costumo depois fazer os meus trajetos e inventar novas formas de respirar a poesia de outrem. Um leitor de poesia que se preze faz o seu próprio livro. Se não o fizer pode ser um problema do leitor ou do livro, ou da poesia. Neste caso, a riqueza está do lado da Poesia e a dificuldade no lado do leitor. A Poesia que se presta a múltiplas e infinitas leituras e que se recria sempre, que se adianta e impõe até ao autor – é um prémio para a humanidade. Como o caso da poesia de Graça Pires. Chamemos-lhe de Arte, ou o que quisermos, acaba por não ser importante designá-la, não tenho essa obsessão, prefiro apreciá-la, mesmo que me faça sentir incomodado ou afetado. Mas esta Poesia abrangendo a paleta de cores da vida na sua extensão alargada não é uma arte de sombra e escuridão. Por vezes sim mas em equilíbrio com o resto do contexto. Trata-se de, no meu ver, de poemas de memória, luz, beleza, deslumbramento e grande intensidade. O mar, o nosso mar, as nossas tradições, os nossos rostos, a mulher, as mulheres e uma digna portugalidade. Este é um grato pormenor que me vem sempre cada vez que me aventuro pelas leituras dos poemas, uma Poesia portuguesa virada para o mar, centrada numa serra verde, em viagem pelas planícies, um abraço desperto a esta terra que pisamos e respiramos. Encontro elementos nos textos que justificam pensar assim. Mas é apenas uma curta e imediata abordagem a tanto que nos é apresentado. 

Analisando a linha criadora de poemas ao longo do tempo, foi bom ler o poema: “Ortografia do Olhar”, sorrir e aceitar este termo como título do blogue da autora. Um belo tema, porque é mesmo disso que se trata, daria um belo título a esta escolha de poemas: “Ortografia do Olhar”, o título do livro de 1996. O poema, que deu título ao livro, um dos meus poemas.


Ortografia do olhar

Os barcos aproximam-se do quotidiano,
pelos atalhos da Luz, no corpo da tarde.
Ao mesmo tempo, de cidade em cidade,
uma inquietante treva incendeia, noite adentro,
o ruído mitológico das maresias de outono.
Um navegante, sem bússola,
enforca-se no cais dos percursos para sul,
como se rastejasse a paisagem dos sonhos
pelo lado mais escarpado da alma.
Ritual de sangue inadiável.
Rotas afogadas nas pálpebras.
Quilha de silêncio
onde ficamos exilados e cúmplices,
reassumindo não sei que espanto,
enconchando o coração para nele caber
o estremecimento intacto de um rio.
A brisa, de feição, justificará o lentíssimo
tumulto dos remos junto à foz.”


 Alguns livros se destacam mas amanhã serão outros, é preciso tempo para deslindar a vida nestes poemas e fazermos do discurso ponte para os nossos pensamentos. Refiro-me a: “Outono – lugar frágil” (1993), “O silêncio – lugar habitado” (2009) ou “A incidência da luz” (2009). Mas virão outras peças a impor-se, no seu devido tempo. Na imensa lista de prémios e livros editados surge um caso, diferente e singular, nesta obra. Um pequeno livro, em edição de autor, que me conquistou lentamente, não á primeira. Fez-me ler mais uma vez o relato bíblico de Marta, irmã de Maria e Lázaro. Textos em delírio poético de uma fina beleza: “Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos (Cartas de Marta para Maria)” (2007).





A poesia de Graça Pires merecia outra atenção da parte do mundo editorial das editoras de visibilidade sempre presente. Não se pode ignorar esta escrita que “enche as mãos de tílias para enfeitar a limpidez do olhar.” Talvez não gostem do brilho desta luz. Desta liberdade, dos “cavalos verdes na s margens do vento (…).” Restam-nos as pequenas editoras, como a Lua de Marfim, que em 2013, editou o novo pequeno livro de Graça Pires: “Caderno de Significados”, onde roubei algumas expressões. Uma pequena apresentação para quem quer começar do presente para trás. As leituras pertencem aos leitores.






Resumindo, se tal é possível. Um cosmos rico com uma linguagem própria e única. Graça Pires inventa o mundo e dá-lhe uma nova linguagem. Como leitor sou um estrangeiro que se deixa encantar numa terra que faço minha porque estou ali em pleno. Dentro deste mundo, vivendo cada sinapse, por assim dizer, momento a momento. É pecado perder alguma coisa.


“A VIAGEM:

Sigo os teus passos, caminheiro perdido em cidades sombrias. Não sei manejar as estacas com que te inclinas no abrigo dos alpendres. Mas todos os caminhos me desafiam para o desvario de um lugar, de uma palavra, de um rosto. Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.
(pág. 30) Caderno de Significados (Lua de Marfim – 2013)”



28 Mar. 2014




quinta-feira, 27 de março de 2014

PAULO EDUARDO CAMPOS – A CASA DOS ARCHOTES (Lua de Marfim, 2011)



Vi o poeta na rua. Li o teu livro num galope, disse-lhe. Trocamos livros. Foi-me dado a ler um dos melhores livros de poesia editados pela Lua de Marfim, da Póvoa de Santa Iria. Terra de pescadores, sentados nas lezírias a consertar linhas e a observar o movimento das marés de civilização mutantes que se contorcem em terra.
Poesia viva e adulta. Um livro com narrativa em 4 Cantos. Da infância ao futuro. De dentro para cima e em velocidade horizonte afora. Sem medo das sombras e da ausência. Histórias de rejeição, abandono, separação e coragem. “(…) o coração é uma cama desfeita (pág. 41).”
4 partes: “a entrada da casa”, “a sala de estar”, “o quarto” e “da varanda” onde se procura o “silêncio” numa “paisagem de chuva”. Casa dentro, as sombras e o registo dos corpos presentes ou em ausência. Casa por fora, debaixo dum “céu de luas novas”.

“ VII
“quando preciso de silêncio
visto-me de palavras
e escondo-me num poema
(pág. 48”

Poesia que não perde a luz, enfrentando a sombra, mesmo quando o texto fala de ausência, separação e de “casa desabitada”.
“Falemos de casas (…), cantava Herberto Helder, com a colher na boca, com os elementos em tempestade. Entrei na casa do poeta, passei por ela e sai, ouvindo todos os planos de fina cinematografia desfilarem à minha frente, como se filmado por Orson Welles. O meu coração de leitor latejando no corpo do texto.
Vi o poeta na rua. Ia para casa.


27 Mar. 2014

quinta-feira, 20 de março de 2014

BOA NOITE

Boa noite, porque é de noite e o meu nome é. Apontamentos para poema, desde 2001 a 2013. Mofo ou cicatriz, o título. Foram uns anos bons. Com partes estúpidas mas bons. Na verdade o autor sobreviveu-os. Magro, muito magro, calado, metro e oitenta, careca, com barbas de revolucionário basco, sempre de fato escuro, camisas escuras, abotoadas até ao último botão, sempre sem gravata, boina negra de contrabandista espanhol. Dias banais transformados em dias únicos. Como todos os dias são únicos com algumas diferenças. Ele nunca usou chapéu ou boné, sempre boina. Já não se fazem por aqui. Seus familiares diziam que era de contrabandista, como se usava antigamente, quando se atravessava a fronteira que mais não era uma ribeira, com o fim de comprar alparcatas. Outros tempos, que se perdem de não lembrados. Não lembrar é sempre uma opção. Boa noite, meu nome é.

FILME

Um rosto difuso. Uma morte do dia, empenada e desfeita. Um corpo do outro lado da estrada, sem caos, nem fumo de futuro, apenas céu. O corpo é de gente, mexe-se e levanta-se. Caminha. Apenas nuvens ensolaradas, mais nada, lamento de Deus. Uma rua de Moscavide, junto à estação de comboios, numa antevisão de noite de chuva. Dois carochas antigos estacionados, um dum lado e outro do outro lado da estrada, com cores diferentes. Bicicletas a tilintar, com gente empoleirada. E um biplano com publicidade, a roncar e a virar, em direção ao rio. O corpo desaparece numa esquina antes da noite. Abre-se uma janela e um som de teclas de máquina de escrever enlameia o ar. 

AS LETRAS NÃO SÃO GIGANTES

as letras não são gigantes

e se fossem gigantes?
os gigantes também podem ser derrotados
se os fizermos cair, como são grandes – aleijam-se e assim se derrota um gigante

mas melhor é fazermos dos gigantes nossos amigos – porque haveríamos de estar a fazer cair gigantes?
Imaginem ter um gigante como amigo
se aparecessem na escola com um gigante como amigo – nenhum dos colegas de escola mais mauzinhos se metia convosco – isso era bom
também era bom para nos ajudar a escalar ladeiras que parecem montanhas
e trepar a árvores direitas e altas

aqui está a lição: os gigantes não se derrotam, dá muito trabalho e toda a gente se aleija – os gigantes fazem-se nossos amigos
e as letras não são gigantes
também podem ser nossas amigas
e quando isso acontece ler é uma aventura, agora repitam comigo, ler é uma aventura

e o professor foi embora
as crianças ficaram a olhar para os livros – pegaram neles e juntaram-nos numa pilha, numa torre, um dos miúdos atira tudo para o chão
desatam numa estrondosa gargalhada coletiva – o gigante foi abaixo
e o professor foi embora

embora queimar cadernos!

13 nov. 13 e mais uns dias depois