quarta-feira, 13 de novembro de 2013

NÃO TENHO NADA QUE VER COM ESTE CÉU

Não tenho nada que ver com este céu, abruptamente azul e sem nuvens. Pertenço à chuva e à trovoada. Ao cheiro a terra e a setembro. A novembro de madrugadas frias e nuas de gente. Noites de chuva e gatos de janela. Quartos de janelas abertas e alguém que pergunta por um livro. Um gole de whiskey e um bairro muito feio. Teclo o romance infinito e deixo que a escuridão da rua, do bairro me cante sonetos de ventos. A música das árvores esguias e sombrias. Chega-me, pouco mais preciso. Alguém pede para ir à casa de banho, indico-lhe o corredor de chão de soalho. Ouço ruídos e coisas que caem sem se partirem. Escrevo uma frase e paro. Olho os mastodontes de cimento em frente, mora ali gente pouco silenciosa, luzes nas janelas e canções de periferia de dança do sabre com ritmo de favela, que se instalam no meu silêncio. A noite tratará desses intrusos festivos. Espero pelo clamor da noite longa. Alguém pergunta se há algo que se coma. Indico-lhe o outro extremo do corredor de chão de soalho. Novos ruídos e novas luzes. Uma televisão que se liga, o que me estraga o ritmo interior. Retorno ao céu e á chuva que se desfaz em nevoeiro para lá dos quarteirões do bairro. Outrora nestes campos havia hortas e quintas. Velhas e ovelhas. Tascas e caminhos junto à linha de comboio. Agora resquícios de uma fúria de betão, motas roucas e gajos de bonés virados ao contrário. O sol queima mais por detrás, no pescoço, talvez pensem. Ou nada disso, apenas o prazer de usar o contrário de cada coisa. Alguém faz ovos na cozinha e não tarda, não haverá nada para beber. Escrevo sobre esta noite antes que ela me derrote com uma nova luz de cada dia.

Esperarei por outra noite.