sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

como diria ALEXANDRE O`NEILL

Portugal, Oh Portugal, como diria Alexandre O’Neill, é um país pequeno mas de grande beleza. Feito de coisas pequenas mas belas. Não tem grandes montanhas, apenas serras verdes e uma delas com pouco mais do que mil e tal metros, mas rodeada de paraísos que a neve tapa no inverno. Não tem grandes florestas, apenas bosques aqui e ali. Todos eles são criações divinas. É um país de serra e mato, suave e poético. Uma das suas maiores riquezas, o mar e a costa e todas as suas vilas e cidades, únicas. Este pais é um poeta pescador que desce a serra e mira o mar que o liga à História e ao mundo. Numa escolha muito pessoal, nada pode ser mais divino que observar o mar selvático numa Ericeira ou Nazaré, profundamente comovido pela força impetuosa e natural. Ou deitarmo-nos numa encosta da Serra do Açor a respirar a trovoada e a cantar para o manto verde. É esta terra que criou este povo que criou esta terra, de gente curiosa e de estatura baixa. O português tem em média metro e setenta e a portuguesa metro e sessenta. Somos baixotes. Somos país de poetas, de facto somos, cada terreola, vila, aldeia tem o seu e há aldeias que não passam de meia dúzia de famílias. É uma proporção de poeta por habitante descomunal, mas não há censos para isso. É também um país religioso e ateu ao mesmo tempo. Cada esquina uma capela, cada monte um mosteiro, cada vila a sua festa e procissão. Mas cada um desses frequentadores numa proporção também única, não quer saber daqueles santinhos e cultos para nada. Apenas frequenta e nada ou pouco acredita. Por isso também existe terreolas tendencialmente socialistas mas que não deixam de ter o seu pároco. Fazem manifestações anti-regime, todos eles, e são os mesmos que em datas diferentes, participam nas tradições religiosas. É um povo assim. Sempre foi um povo que recebeu o estrangeiro e se adapta a ele mas não deixou de ser um pouco racista. O negro é o preto. A brasileira é a Gabriela, cravo e canela, iletrada e fogosa. Quando um homem larga a mulher é porque fugiu com uma brasileira qualquer. Nunca foge, se de facto o faz, com uma africana ou romena qualquer. Embora a vida cosmopolita das cidades seja diversificada, o português ainda olha o imigrante ou estrangeiro com desconfiança embora nunca o admita em voz alta na via pública. Só no café central entre amigos. Todas as raças têm rótulos-alcunhas pouco favoráveis e anedotas indignas mas na rua, o bom português é incapaz de negar ajuda seja a quem for. O outro vira costas, e o bom samaritano tece comentários rebaixadores. É um povo assim. Elogia o feito e o bem adquirido do vizinho e na sua ausência atribui-lhe motivações negativas e invejosas. Há uma inveja muito portuguesa nos genes desta gente. Não há purga geracional que a livre. Qualquer nova geração tenta a mudança mas logo a idade e a pertença e a identificação exerce uma força que suga qualquer tentativa de ser diferente. Somos ferozes observadores do outro, mesmo que não o demonstremos. Poucos povos observam assim nem mesmo os espanhóis cuja herança latina é muito semelhante. Comer ou despir com os olhos só podia ter sido uma metáfora inventada por um português. É inato. Há até uma certa rudeza na observação em desafio. Quem és tu e a que vens, homem que passas? Um forte machismo primário na forma como se despe com os olhos uma mulher transeunte. Só as cidades curam muitas destas maleitas, mas poucas das localidades se podem chamar de cidades. Talvez Lisboa. Muitas vilas e aldeias, dentro das cidades. É esta a nossa realidade. Somos um povo assim, e pouco nos faz mudar. Continuamos a ser o que sempre fomos. E nada disto se pode afirmar, pelo menos em público. Também ninguém nos está a ouvir. É o que vale. Oh Portugal. Mas de que falo eu, afinal. Senão de mim mesmo também, que nasci já ali, dobrando aquela esquina, bem perto daqui. A inveja que tenho de ti, ai parado a ler-me.
Dez. 12


--


David Lynch, ambiental e puro
http://www.youtube.com/watch?v=3SpG7C4vHZQ




Bem, chamando ambiental e puro. Interessante patrocínio artístico do mestre do desconforto, David Lynch. Faz lembrar algo de Julee Cruise dos tempos de Twin Peaks, belo, etéreo, onírico e assustador. O vazio do suspense, e agora?, o desconhecido em suspenso, a atirar-se como um gato louco, de rompante, sem aviso. Durante muito tempo, fascinou-me esta linha musical ambiental e falsamente onírica, um lounge-jazz cinematográfico e pouco óbvio. Na linha do mestre Angelo Badalamenti. Pronto, era só isso.


--



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Resumo – Solo SAX - ALTO Nº1

A rua Naquele tempo Nem coreto
A mãe Nem memória Sem lugar
Não estou aqui Nem descubro
Poeta velho Menino doce O sal
O sol de nenhuns Óbvio – amigo
eficaz Disperso nevoeiro Um começo
Olé a viagem – tem morte a norte
Solo sax – a paz O nervo O verbo
VW rodopia – Sem fim O céu

--

SIMPLES A MORTE
e eu prefiro algo

bem mais complexo

apenas a ideia e um

sol para uns todos

apenas a morte e
uma ideia complexa
preferida por uns
desagradada por todos

simples é o sol
que complexo
agrada a todos
prefiro a ideia de
uns antes que à morte

simples é a morte
sem sol nem para uns
nem para todos uma
porra nada complexa
Nov. 12


--
POR VEZES
por vezes transpiro
um lamento doce de morte
e fim vejo o meu funeral
um dia vai acontecer como aos outros
e respondem-me: lindo maravilhoso tocante
por vezes exalo uma festa de cor e árvore
porque me sinto feliz nem que seja por um bom momento
antes que termine respiro-o e dizem-me: quem és tu
para ter tanta pretensão
às vezes sento-me e espero - não faço nada
observo os outros um desporto português obsessivo
no estrangeiro ninguém olha assim fixamente em desafio
e deus tira-me do lugar  sempre incomodamos
quem passa e quem está parado
quem fala e quem não fala mais porque não quer
era bom transformar o vazio num longo e interminável poema
mas é sol que só brilha por vezes
Out. 2012
--