quarta-feira, 13 de novembro de 2013

NÃO TENHO NADA QUE VER COM ESTE CÉU

Não tenho nada que ver com este céu, abruptamente azul e sem nuvens. Pertenço à chuva e à trovoada. Ao cheiro a terra e a setembro. A novembro de madrugadas frias e nuas de gente. Noites de chuva e gatos de janela. Quartos de janelas abertas e alguém que pergunta por um livro. Um gole de whiskey e um bairro muito feio. Teclo o romance infinito e deixo que a escuridão da rua, do bairro me cante sonetos de ventos. A música das árvores esguias e sombrias. Chega-me, pouco mais preciso. Alguém pede para ir à casa de banho, indico-lhe o corredor de chão de soalho. Ouço ruídos e coisas que caem sem se partirem. Escrevo uma frase e paro. Olho os mastodontes de cimento em frente, mora ali gente pouco silenciosa, luzes nas janelas e canções de periferia de dança do sabre com ritmo de favela, que se instalam no meu silêncio. A noite tratará desses intrusos festivos. Espero pelo clamor da noite longa. Alguém pergunta se há algo que se coma. Indico-lhe o outro extremo do corredor de chão de soalho. Novos ruídos e novas luzes. Uma televisão que se liga, o que me estraga o ritmo interior. Retorno ao céu e á chuva que se desfaz em nevoeiro para lá dos quarteirões do bairro. Outrora nestes campos havia hortas e quintas. Velhas e ovelhas. Tascas e caminhos junto à linha de comboio. Agora resquícios de uma fúria de betão, motas roucas e gajos de bonés virados ao contrário. O sol queima mais por detrás, no pescoço, talvez pensem. Ou nada disso, apenas o prazer de usar o contrário de cada coisa. Alguém faz ovos na cozinha e não tarda, não haverá nada para beber. Escrevo sobre esta noite antes que ela me derrote com uma nova luz de cada dia.

Esperarei por outra noite.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Homem-Árvore é um livro.




Homem-Árvore é um livro.


Não sou eu.
Podes ser tu, ou outro.
Há caminhos com muitos homens plantados, na memória, conta a história.
De tronco torcido como o futuro.
Não sou eu.
Posso ser eu.
Não sou eu.
Tomara ser oliveira.
Apenas.


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Apresentação da autoria de Graça Pires, no lançamento de: Homem-Àrvore


(foto de Paulo Afonso Ramos)


No dia 7 de Setembro, na Biblioteca Municipal da Póvoa de Santa Iria, decorreu o lançamento de: Homem-Àrvore, editado pela Lua de Marfim.
Na foto, tirada pelo editor Paulo Afonso Ramos, da esquerda para a direita, Sara Timóteo, poeta após uma declamação de um poema do livro, que lhe deu vida além do que imaginava eu quando o concebi, a Dra. Conceição Matos, responsável pela bonita Biblioteca, eu ali em maravilha tendo em conta o momento captado em que a conversa descamba à volta da poesia, os livros e mais com todos os presentes, Graça Pires que se deslocou de longe para apresentar o livro e iluminou toda a sala com a sua intervenção e a tirar a foto Paulo Afonso Ramos.
Com a permissão da autora, reproduzo o texto oferecido da poeta Graça Pires, na apresentação. Fiquei feliz por ter o privilégio de o escutar em viva voz, um momento a recordar para sempre. Não mereço tanto do que foi dito. Mas foi dito assim:


"“Homem-Árvore” Carlos Teixeira Luís
Sábios os caminhantes
os que não param na sombra
nem na curva da estrada verde  […]

Assim começa o livro Homem-Árvore de Carlos Teixeira Luís.
É o 3º livro do poeta, que publicou em 2008 Tijolos de verde rude e em 2009 Histórias do deserto.
Homem-Árvore. Qual o motivo da escolha deste título? Nos interrogamos todos.
Sabemos que a direção da luz e do vento indicam de que lado irá crescer uma árvore. A luz e o vento são metáforas que assentam bem na comunicação estabelecida entre estes poemas que associam intimamente a vida e a linguagem.

 […] um homem árvore feito raiz mistérios de luz que a poesia sublima […], refere o poema da p.42 ou, então, lemos na p.74:
Quando o vento oferece árvores
ao meu caminho é a hora tardia de
fechar os cantos de sombras do bosque […]

Homem-Árvore. Porque, certamente, a poesia transmite, à vivência do autor, a verticalidade de um tronco que não verga perante a inconsistência dos sonhos.
Falar de poesia é uma tarefa problemática, mas muito estimulante.
Não vou entrar em análises teóricas ou técnicas. Vou ficar-me pelas emoções, pois os poemas têm o poder de reconfigurar os nossos sentidos.
O autor poderia dizer como Herberto Helder: “A manhã começa a bater no meu poema. As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores líricas. Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema”.
Penso poder afirmar que, neste livro, a poesia é o fio condutor de todo o texto. Como se fosse poesia da poesia que ajusta a estética a uma ética pretendida. Nele (no livro) se esconde e se revela um dinamismo singular, em que os poemas se abrem à nossa sensibilidade, atingindo frontalmente quem os lê.
Podemos seguir o poema da p. 14.
Ninguém dá por nada – pelo fio de luz
da janela ao canto do móvel com memórias
retratistas pelo choro na madrugada fria de gente
pelo gemido pelo último gemido dum crepúsculo
pelo brilho da calçada e dos passos corridos
para a estação das névoas pelo sorriso tímido
duma mulher feliz que diz adeus com a sua sombra
pelo gato que já não caça o pó dançante
porque adormeceu pelo poema fechado
no abrupto mundo do livro esquecido
Ninguém dá por nada até darem por si
no olho do furacão e serem domesticados
pela própria borrasca.

Nas palavras de Carlos Teixeira Luís somos levados, de forma subtil, numa peregrinação da linguagem, em busca da compreensão do mundo. Linguagem, essa, que é como um fio inesgotável a tecer os dias.
(O poeta finge seu mundo e seu mundo finge que merece o poeta, nos alerta o autor no poema da p.16.
Mas essa busca, que traduz o seu imaginário, é uma busca ansiosa. Um pretexto para nos apresentar a vida em linguagem poética, nos incluir nela e a sobrepor às lembranças que nos cabem. Leia-se no poema da p. 38:
Procuro um tema procuro o tema
não sou nada sem outros será o meu tema
os outros […]

No entanto, há um cruzamento de vários temas representando um vínculo entre a imaginação e a memória, ou as nostalgias que captam a luz e as sombras.

O poeta recusa o lirismo que se abstrai dos outros, da vida concreta. Porque a poesia quer-se dádiva, promessa, testemunho, aviso. A poesia está atenta às circunstâncias da vida que formam e informam o poeta.

Mesmo não tendo em conta o sentido biográfico, podemos analisar estes poemas como uma projeção da vida na forma como espelham as angústias, a confiança, o modo de estar no mundo.

O poema é melhor que o poeta. Quem o afirma é o autor (p.23) que reclama na poesia o seu espaço criativo, o seu lugar de liberdade, indiferente ao desdém e ao “verbos daninhos” já que
[…] Loucos são os poetas que dizem e
tornam a dizer o indizível são loucos
porque inventam novas palavras para a
palavra amor que ainda seja amor […] (p.32)

Em alguns poemas do livro há a introdução de personagens que servem de mediadoras do poeta que as faz emergir na cena do poema e lhes dá a palavra.
Por ex.: (p. 53) GRITAM AS MULHERES: - eles
matam a rua sangrando-a A guerra
a guerra dos dias travada assim tão impoluta
a guerra que nunca mais nos serve
mas nos sorve.

Ou lamenta o NARRADOR: -
Volto aos mesmos passos
para onde vou? nem deus nem o diabo
sabe que as pernas calcaram todos estes caminhos de pedra esquecida […] (p.57)

É como se o autor falasse através do sentir das personagens, recuperando, ao mesmo tempo, a sua própria voz, numa espécie de diálogo-monólogo, que imprime aos poemas um ritmo inesperado.
Falar de poesia é uma tarefa problemática, repito.
Falar da poesia deste livro é saber descobri-la. É deixarmo-nos surpreender porque Somos corrente contínua de sangue nervos e sonho (p.19) e Somos folhas de árvore sempre verde. (p. 37).

Podemos, portanto, conceber a leitura deste “Homem-Árvore” como um cerco de sonho e de vida. E de poesia naquilo que ela tem de secreto, de sublime, de absolvição e horizonte de esperança.
[…] Sábia a ode velha cantada por todos
os ventos mesmo os ventos da noite (p. 26).

Escrever poesia é um acto íntimo onde se confundem a solidão e a partilha, a memória e a emoção.

É o que nos revela Carlos Teixeira Luís, a quem não é alheio o saudável convívio com a leitura de poetas em cujo universo imagético se reconhece.
então retorno ao meu secreto caminho
todas as sombras do bosque nascerão
mais uma vez num novo setembro (p.79)

É com estas palavras que o autor acaba o seu livro.
E eu termino também porque não é necessário acrescentar mais palavras ao sentimento do poeta.
O livro está aqui. À espera que o leiam. Desejo que esta breve apresentação ajude a atrair sobre ele olhares interessados, críticos e cúmplices.
Obrigada.

                                                       7 Setembro 2013

                                                         Graça Pires"
 
A todos os presentes, e aos que que desejaram estar mas a vida tem os seus caminhos sinuosos e de difícil previsão, um Muito Obrigado. Este livro é para todos vós. Bem hajam!
*







Apresentação de dia 14 de Setembro, do livro: Homem-Árvore por Luís Carvalho (autor de Buraco Branco e 4NCH)





"APRESENTAÇÃO DO HOMEM-ARVORE (Carlos Teixeira Luís)

 

Gostaria de começar por agradecer a todos os que preferiram vir aqui nesta tarde de Setembro em vez de ir para uma das nossas praias, jardins, ou outro tipo de programas de lazer de sábado à tarde em família ou não. Gostaria de agradecer ao Carlos pelo convite para aqui estar a partilhar palavras minhas convosco.

 

Começar por dizer que não conheço bem o Carlos Teixeira Luís. Mas também interrogar-me sobre o que é isso de “conhecermos bem?”. Será até que eu me conheço bem a mim? Não vos vou maçar com filosofia sobre o conhecimento, sobre o conhecer. Quis apenas usar essa palavra para começar: conhecer. Estamos todos hoje aqui por isso – conhecer este livro/obra de nome: homem-arvore.

 

E para começar gostaria de dizer que embora não tenha a certeza qual o clube de futebol o Carlos mais gosta, dizer-vos que mesmo não o conhecendo bem, a vida se encarregou de nos dar-mos a conhecer; não só talvez porque nos fomos apercebendo que gostamos de músicas e músicos no mesmo sentido de registo; que ele viveu até aos 4 anos no bairro da Graça (onde eu actualmente vivo), e que mantem ligações ao Alentejo (região, para mim maior deste País; onde há alguns anos nasci); mas talvez e acima de tudo porque gostamos de partilhar as palavras que fazemos. Palavras a que outros enquadram nos mundos da prosa e das poesias. É a vida... (como o poeta diz ou dizia).

 

Mas afinal quem é este homem-arvore?

 

Como vejo o Carlos Teixeira Luís, é como, aquele vagabundo de palavras que passeia por aí com elas pelos bolsos cheios. Que passeia como as folhas das arvores passeiam ao vento, ou como um Alberto Caeiro “em manhãs de vento que sopra forte e nos leva” num passeio, caminho de acasos, “ sem sentir pensar”. Um homem que às palvras dos bolsos sempre volta, retirando delas sentidos que dão coisa maior, como podem ser as coisas das vidas de prosas-poéticas. Um homem que usa essa “coisa”, que é não é mais que a essência deonde tudo começa e as organiza ou desorganiza no sentido de lhes dar - vida maior. Vidas eternas, como eternas são as vidas das folhas e das arvores. As vidas dos homens que por cá, de alguma forma ao passarem, deixam “a coisa” gravada.

 

E isto são “os caminhantes que não param na sombra”. Que é como abre dizento este homem-arvore. E isso são os poetas: “todo o poema nasce vive e morre; todo o poema revive sempre que é lido amado vivido e desprezado: todo o poema é melhor que o poeta” – como vai continuando a dizer, entre outras leituras, o homem-arvore, esse pobre homem de certeza (feliz digo eu) de vazio.

Entre tantas interrogações continua, “somos folhas de árvore sempre verde” numa espécie de esperança que as coisas pequenas se mantenham vivamente grandes como; livrarias que abrem, bairros que florescem; nadas que se multipliquem; e sorrisos que convergem. Como os pequenos grandes sopros. Ou “como um gato vadio entre as casas vazias e as sombras que se mexem a quem o sol manda mexer. Ninguem mais”. A não ser talvez o outro lado desse homem, ou seja - as arvores - que têm tanta capacidade para estar, ser, conversar (entre elas) nos observar. “quando o vento oferece arvores, o meu caminho é a hora tardia de fechar os cantos de sombras do bosque”. E como as arvores, “as mulheres de braços em uníssono agarram os dias e fendem-nos em quente nas suas gargantas de lamento doce”. Talvez por isso um poeta um dia escreveu que “admira as arvores”. Pela razão da mulher, de M grande.

Por fim gostaria de destacar umas ultimas palavras, que são também as que encerram o livro:

 

“então retorno ao meu secreto caminho

todas as sombras de bosque nascerão

mais um vez num novo setembro”

 

Leio-as como se fossem escritas de verde, no verde. Como numa canção verde que se trauteio-a para voltar a assobiar. Palavras como ventos-verdes. Verdes por um Outono calmo e regenerador, que nos ajude a passar melhor estação fria que nos levará à Primavera. Deste Setembro até ao Março – o mês das arvores. E claro que estas palavras são de esperança! mas são também de insistência, teimosia (da boa) e só-alegria. Como diria, que é no fundo este acto tímido de transformar folhas em papel encadernado. E por isto gostaria de elogiar o autor das mesmas; por mais uma vez trazer a partilhar a coisa feita. O que mais importa é fazer. Fazer é matar medos. A coragem de partilhar. É expor-se à dimensão dos ventos-verdes e aí se deixar serenamente estar.

 

Mas e o homem-arvore? Ficamos a saber melhor quem é ele? Será que era isso o que hoje mais importava? Será ele um pouco de tudo ou de todas as palavras que hoje aqui deixei? Ou será as que não deixei? Nada disso importa muito. O que importa é descobrir. Conhecer. Pegar neste livro, é conhecer. É olhá-lo, lê-lo, pegar-lhe como vos apetecer e talvez assim perceber melhor quem é esse homem. Que é talvez ninguém. Que é talvez um de nós. Ou talvez seja uma qualquer árvore que por aí, aos ventos, ainda possa andar.

 

Ficamos o mistério. Haverá coisa melhor para ficar?

 

E mais uma vez, em nome do homem-arvore, agradeço a todos por aqui estarem. Especialmente ao Carlos por mais uma vez fazer & partilhar. Como costumo eu dizer, quando o faço, pois também o faço – estas coisas servem para juntar pessoas, amigos de preferência. Uma boa forma para nos irmos encontrando. Que a vida também é para isso.

 

Luís de Carvalho"

 
Obrigado Luís. Uma bela tarde. Gostei de conhecer este teu novo projeto, o livro 4NCH com CD que contem novos poemas com a tua voz e força declamatória. É bom esta partilha. Viva a poesia!
 
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Análise do livro: Homem-Árvore, da autoria de Tereza_T (poeta e autora do blogue: Ars Longa, Vita Brevis - http://arsturmundrang.blogspot.pt/)


[Homem-Árvore

O culminar da sabedoria é inacessível e sem interesse; apenas o seu caminho nos importa, fecunda e transforma.

"Sábios os caminhantes
os que não param na sombra
nem na curva da estrada verde"

O homem-árvore provém de uma semente. Eleva-se na direção dos céus, desde a raiz à folha mais alta, e respira a origem da palavra.

"Sábios os dedos
que consertam o cosmos da terra
da semente à erva da raiz ao corpo
Sábios todos os que respiram
o génese da palavra"

É, portanto, um caminhante, procurando na palavra a sua forma de expressar o mundo que vê e sente.
Todavia, a acuidade da visão pressupõe, não só uma curiosidade infinita na procura de algo novo, como uma sabedoria antiga, um passado que se encaixe sob os olhos como um filtro, ajudando-nos a captar o mundo em todas as suas múltiplas faces, evidenciando o que, de facto, poderá ser visto como novo, sabendo a priori o que foi desbravado anteriormente.

"Sábias as odes velhas
que o vento as leve
e não as traga de volta
Sábias as vozes e murmúrios
num coro cego e sem fundo
Sábio o nevoeiro que tudo cobre
até que o sol o sorva"

Somos caminhantes, andarilhos, observando e cantando o que nos rodeia e inspira

"sal e mar – duro horizonte"

"Primavera – a porta dos dias como duas
árvores inclinadas"

porque a loucura do verso é uma forma de visão

"Sei e julgo saber tudo"

"Poetas são loucos
Vagabundos ébrios pedintes e sós loucos"

"Loucos são os poetas que dizem e
tornam a dizer o indizível"

e assim se persiste numa

"tempestade perdida"

mas consciente, escrevendo o mundo com as palavras que nos atingem de luminosos reconhecimentos.

"A tempestade é um tambor dos céus
que chove no empedrado e nas almas de pedra"

Esta tempestade é inata ao andarilho, àquele que se não descobre, que eternamente se procurará e que na procura se concretizará sem fim; escrevendo, não só para inscrever as suas imagens, os seus pensamentos, a sua alma fatalmente perdida no tempo, como para procurar o sentido desse mesmo tempo que o devora, que o consome, que o surpreende e que, simultaneamente, o sustém neste mesmo mundo que o intriga; fazendo-o, estranhamente, existir.

"Lamenta o NARRADOR: - Volto aos mesmos passos
para onde vou? Nem deus nem diabo
sabe que pernas calcaram todos estes caminhos
de pedra esquecida
escrevo para não temer que o horizonte
catapulte as imagens no horror dos esquecimentos
rua que desce sem as almas que a fizeram
brilhar"

"Íngreme a fonte suave a tontura
Sábia a queda E nada perdura"

"Sou apenas
Custa tanto ser e ser apenas"
"(…) Sou
também o que duvido
e basta-me quase nada"

ardes tu eu ardemos todos
em lume brando em profunda agonia
muros de apatia cemitérios de empatia
bairros de solidão olhamos e não vemos"

"tomara eu ser mais mas o tempo tira
e somos sempre menos"

A sensibilidade de um Homem-Árvore fá-lo deparar-se com mundos de enorme significância nos mais variados momentos efémeros, quase fugidios, que o encantam e captam ternamente.

"Vale a pena as mãos que desenham
o corpo Que traçam na pele quente
mapas poéticos que levam a tesouros
descobertos"

"Vale a pena os pardais perdidos
nos ramos esquecidos dos cepos
amarelecidos e despidos que compõem
a linha cinza"

"Ninguém dá por nada – pelo fio de luz
da janela ao canto do móvel com memórias"

"Diz o POETA: A mesma entrada a mesma porta
novos mundos e sons e eu ainda
admirado e perdido"

"Penso existir dum pequeno nada"
(…)
Tenho no entanto o coração
grato por tão belos pequenos nadas"

Mas se o mundo parece valer a pena sobre este olhar frutífero, o mesmo não se sucede com o que se escreve – fonte de dúvida e inquietação.

"No horizonte da minha
rua que também vale a pena Ali
vivo sem saber se vale a pena
este mesmo poema"

Mas, então, por que faz o poeta o seu percurso pela palavra e pela surpresa eterna?

"Foi a neblina que aqui me levou
Foram passos que dei sem saber
Descobri esta sala onde o sol bate
e a janela dá para um modesto jardim
japonês Sento o poema e deixo que ele
respire solto no auditório nobre"

Há um peso constante na vivência do mundo. Um desmoronamento impassível e real que se faz ouvir nos interstícios das ruas, dentro das lacunas da pele, no denegrir dos sonhos e nos sonhos incumpridos.

"Tudo se força – a compassada respiração
a luta árdua do sorriso de todos os dias"

"A cama desfeita por sonhos que saíram
sem fazer as malas
(…)
A sombra esquecida no degrau arruinado
da casa demolida
(…)
O poema folha de árvore que não dura uma estação"

"Num silêncio de haicai uma brisa
levanta pó e gente"

"as fotos ficam
e o mesmo chão as mesmas traves e teias de aranha"

"o sol está frio como
gente como gente só"

"Até que a morte das casas irrompa
silenciosa e em ritmo de tambor felino"

"E tu não passas poeta sem que o teu sangue
marque o chão pisado pelos árduos caminhantes
do suor e do silêncio e do pó
(…)
todas as eras todas as memórias
todas as pedras calcadas com o sabor da derrota
e dos sangues que os tempos secam e esquecem"

"ficam as tábuas de soalho vacilante"

Em acrescento à negridão, há um acaso surpreendente que nos traz uma fremente reflexão sobre o que tomamos como autêntico

"Fica a beleza do momento e não o que
escolhemos o momento escolhe-nos"

Mas se na vida se vive na recordação de um passado

Saudades (…)"

"de tempos perdidos e das esquinas dos edifícios
que trazem amigos e cheiros
de outras telas imemoriais"

e se, na verdade,

"separados como estranhos"

os Homens vivem acima de tudo por si, suportando um futuro obscuro de gente anónima e errante que se distende em correntes e correntes inumeráveis de seres ensimesmados

"AS VIÚVAS: - Todas estas ruas todas estas amarras
de gente que passou e voou para longe sem feitos
de pedra e memória sem testemunhos de rostos fendidos
a ferro"

onde se dorme nos mesmos lugares onde outrora existiram pessoas e agora existem ausências

"prédios de gente ausente e morta
ruas de corpos que dormem"

que réstia de luz nos sobejará?
A resposta está, talvez, nestes trechos

"mesmo depois do caos crepuscular a noite brilha
mesmo depois do pó se espalhar a memória edifica
(…)
somos corrente contínua de sangue nervos e sonho"

"sopra um sol amargo e quente
sobra um mar de esperanças e de medos"

Assim, louvemos os dias que nos levam a rejubilar

"Grato pelo dia sem fado sem sombra
apenas ar torcido respirado"

e escrevamos, escrevamos, escrevamos o que sentimos

"Deixar o poema com ele próprio
como um gato vadio entre as casas vazias
e as sombras que se mexem
a quem o sol manda mexer
ninguém mais"

porque

"selvagem é todo o poema bruto rude
verde tosco livre"

e só a sua força nos poderá libertar do peso do mundo, encontrando ecos de nós mesmos vagueando quer pelo tempo, quer pelo espaço.

Tereza_T]


Os meus agradecimentos por tão belo texto e principalmente pela dedicação profunda ao teor da poesia. Não posso pedir mais. Um futuro brilhante para os teus projetos e arte. Bem hajas!


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Análise de Sara Timóteo, do livro: Homem-Árvore


"HOMEM-ÁRVORE de Carlos Teixeira Luís ou a arte de viver em perenidade a fugacidade das coisas

 

Homem-Árvore é a obra mais recente de Carlos Teixeira Luís publicada pela Lua de Marfim Editora. Não utilizo a palavra «obra» por acaso. De facto, o livro Homem-Árvore corresponde a um marco importante (atrevo-me a dizer primordial) no percurso de escrita deste autor cuja obra acompanho desde Histórias do Deserto. Tal como nos livros anteriormente publicados, o projecto poético e o projecto ético confundem-se numa só tessitura poética.

A proposta estética deste conjunto de poemas que podemos ler ao longo de 79 páginas assenta em três temáticas principais. Nas últimas 23 páginas podemos entrever a génese de um novo projecto que convida à leitura de uma próxima obra.

A primeira temática pode ser designada como «sabedoria da fugacidade». Podemos encontrar traços desse viver fugaz em expressões como “sábios os caminhantes/os que não param na sombra” (p.7), “sábio o nevoeiro que tudo cobre/até que o sol o sorva” (p.8) ou mesmo “o momento escolhe-nos” (p.15). Os poemas das páginas 15, 19, 21, 26, 40, 53-58, 59, 61-63 e 68-69 prosseguem esta temática através da transmissão de impressões de efemeridade e de momentos irrepetíveis e plenos de cambiantes e significados que procuramos desvendar ao longo da leitura.

Mas se tudo é fugaz, então, para que serve a poesia? É no âmbito desta interrogação que surge a temática da utilidade da poesia. Esta temática insere-se numa discussão recorrente desde a Antiguidade. Por exemplo, Platão em República recupera o pensamento de Sócrates sobre a utilidade da poesia para o governo da cidade. Em Íon do mesmo autor é abordada a loucura divina que domina o poeta, sendo por isso que este é manifestamente incapaz de falar sobre o que escreve. A voz poética ao longo deste livro admite que “poetas são loucos” (p.10). Indica que “ali/vivo sem saber se vale a pena/este mesmo poema” (p.11) e “para/quê a poesia assim” (p.12). Contudo, esta mesma voz poética assume que há uma função, uma utilidade subjacente a este projecto poético: “ninguém dá por nada até darem por si/no olho do furacão e serem domesticados/pela própria borrasca” (p.14). A voz poética, contrariamente a Íon, atreve-se a proceder a uma análise da poesia que produz. As páginas 16, 20, 23, 24, 27, 30 e 46 reforçam a ideia de que a poesia está em contacto com a loucura; porém, a poesia pode, simultaneamente, constituir-se como um aviso a todos aqueles que navegam inconscientes dos perigos da vida sem poesia. Como dar, pois, resposta a esta dialéctica entre insanidade poética e projecto ético? Ambos parecem encontrar uma resposta na leitura, que é uma escuta atenta por parte de quem lê. A voz poética indica-nos que “tu não és um pequeno nada/és a generosidade da leitura” (p.17). Nessa generosidade a voz poética encontra resgate para o seu desencanto, pois a leitura pode constituir-se como uma forma de amar.

É deste modo que entramos em contacto com a temática que perpassa todo este livro em que a vida se confunde com a poesia - a da perenidade do amor. Segundo a voz poética, só quem ama é vivo, pois está “em sangue fendido” (p. 18). Também as páginas 29, 31, 32 e 35 retratam a felicidade de um caminho construído em conjunto em que à fugacidade das coisas se antepõe o acto intemporal da leitura – que, assim, traz utilidade à escrita poética. Esse amor parece transcender o afecto entre um casal (embora parta dele), diluindo-se num universo mais vasto que une o autor ao leitor dos seus livros. Quem é este autor? Quem são estes leitores? É desta identidade que se ocupa a última parte de Homem-Árvore.

Nas 23 páginas finais deste livro, surgem personagens que, à semelhança da tragédia grega, pretendem provocar um efeito de catarse no espectador/leitor. Contudo, ao contrário da tragédia grega, essa catarse não se produz por via da repulsa, mas por via da identificação. Os homens e mulheres - poetas ou caseiros - que nos desvendam a sua voz são muitos, mas são um todo constituído por todos nós. Eles não obedecem a uma hierarquia que pretenda restabelecer o lugar de cada coisa após a hubris ter sido desencadeada pelo protagonista, desafiando o destino ou a ordem instituída pelos deuses. Estes intervenientes obedecem apenas à perspectiva de cada um e aos sentimentos/pensamentos que os dominam. Trata-se, porém, da voz de um povo que parece sugerir a continuidade da obra de Carlos Teixeira Luís num registo de poesia épica. É o que se pretende averiguar com a leitura do próximo livro deste autor – onde nos levará o seu projecto de escrita po-ética?

Sara Timóteo

07 de Setembro de 2013

 por ocasião do lançamento do livro Homem-Árvore de Carlos Teixeira Luís"
 
 
Obrigado, Sara Timóteo pela análise, mergulhaste aos profundos do texto. É mais do que alguma vez pedia a alguém como leitura deste livro. Bem hajas! 









sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

como diria ALEXANDRE O`NEILL

Portugal, Oh Portugal, como diria Alexandre O’Neill, é um país pequeno mas de grande beleza. Feito de coisas pequenas mas belas. Não tem grandes montanhas, apenas serras verdes e uma delas com pouco mais do que mil e tal metros, mas rodeada de paraísos que a neve tapa no inverno. Não tem grandes florestas, apenas bosques aqui e ali. Todos eles são criações divinas. É um país de serra e mato, suave e poético. Uma das suas maiores riquezas, o mar e a costa e todas as suas vilas e cidades, únicas. Este pais é um poeta pescador que desce a serra e mira o mar que o liga à História e ao mundo. Numa escolha muito pessoal, nada pode ser mais divino que observar o mar selvático numa Ericeira ou Nazaré, profundamente comovido pela força impetuosa e natural. Ou deitarmo-nos numa encosta da Serra do Açor a respirar a trovoada e a cantar para o manto verde. É esta terra que criou este povo que criou esta terra, de gente curiosa e de estatura baixa. O português tem em média metro e setenta e a portuguesa metro e sessenta. Somos baixotes. Somos país de poetas, de facto somos, cada terreola, vila, aldeia tem o seu e há aldeias que não passam de meia dúzia de famílias. É uma proporção de poeta por habitante descomunal, mas não há censos para isso. É também um país religioso e ateu ao mesmo tempo. Cada esquina uma capela, cada monte um mosteiro, cada vila a sua festa e procissão. Mas cada um desses frequentadores numa proporção também única, não quer saber daqueles santinhos e cultos para nada. Apenas frequenta e nada ou pouco acredita. Por isso também existe terreolas tendencialmente socialistas mas que não deixam de ter o seu pároco. Fazem manifestações anti-regime, todos eles, e são os mesmos que em datas diferentes, participam nas tradições religiosas. É um povo assim. Sempre foi um povo que recebeu o estrangeiro e se adapta a ele mas não deixou de ser um pouco racista. O negro é o preto. A brasileira é a Gabriela, cravo e canela, iletrada e fogosa. Quando um homem larga a mulher é porque fugiu com uma brasileira qualquer. Nunca foge, se de facto o faz, com uma africana ou romena qualquer. Embora a vida cosmopolita das cidades seja diversificada, o português ainda olha o imigrante ou estrangeiro com desconfiança embora nunca o admita em voz alta na via pública. Só no café central entre amigos. Todas as raças têm rótulos-alcunhas pouco favoráveis e anedotas indignas mas na rua, o bom português é incapaz de negar ajuda seja a quem for. O outro vira costas, e o bom samaritano tece comentários rebaixadores. É um povo assim. Elogia o feito e o bem adquirido do vizinho e na sua ausência atribui-lhe motivações negativas e invejosas. Há uma inveja muito portuguesa nos genes desta gente. Não há purga geracional que a livre. Qualquer nova geração tenta a mudança mas logo a idade e a pertença e a identificação exerce uma força que suga qualquer tentativa de ser diferente. Somos ferozes observadores do outro, mesmo que não o demonstremos. Poucos povos observam assim nem mesmo os espanhóis cuja herança latina é muito semelhante. Comer ou despir com os olhos só podia ter sido uma metáfora inventada por um português. É inato. Há até uma certa rudeza na observação em desafio. Quem és tu e a que vens, homem que passas? Um forte machismo primário na forma como se despe com os olhos uma mulher transeunte. Só as cidades curam muitas destas maleitas, mas poucas das localidades se podem chamar de cidades. Talvez Lisboa. Muitas vilas e aldeias, dentro das cidades. É esta a nossa realidade. Somos um povo assim, e pouco nos faz mudar. Continuamos a ser o que sempre fomos. E nada disto se pode afirmar, pelo menos em público. Também ninguém nos está a ouvir. É o que vale. Oh Portugal. Mas de que falo eu, afinal. Senão de mim mesmo também, que nasci já ali, dobrando aquela esquina, bem perto daqui. A inveja que tenho de ti, ai parado a ler-me.
Dez. 12


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David Lynch, ambiental e puro
http://www.youtube.com/watch?v=3SpG7C4vHZQ




Bem, chamando ambiental e puro. Interessante patrocínio artístico do mestre do desconforto, David Lynch. Faz lembrar algo de Julee Cruise dos tempos de Twin Peaks, belo, etéreo, onírico e assustador. O vazio do suspense, e agora?, o desconhecido em suspenso, a atirar-se como um gato louco, de rompante, sem aviso. Durante muito tempo, fascinou-me esta linha musical ambiental e falsamente onírica, um lounge-jazz cinematográfico e pouco óbvio. Na linha do mestre Angelo Badalamenti. Pronto, era só isso.


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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Resumo – Solo SAX - ALTO Nº1

A rua Naquele tempo Nem coreto
A mãe Nem memória Sem lugar
Não estou aqui Nem descubro
Poeta velho Menino doce O sal
O sol de nenhuns Óbvio – amigo
eficaz Disperso nevoeiro Um começo
Olé a viagem – tem morte a norte
Solo sax – a paz O nervo O verbo
VW rodopia – Sem fim O céu

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SIMPLES A MORTE
e eu prefiro algo

bem mais complexo

apenas a ideia e um

sol para uns todos

apenas a morte e
uma ideia complexa
preferida por uns
desagradada por todos

simples é o sol
que complexo
agrada a todos
prefiro a ideia de
uns antes que à morte

simples é a morte
sem sol nem para uns
nem para todos uma
porra nada complexa
Nov. 12


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POR VEZES
por vezes transpiro
um lamento doce de morte
e fim vejo o meu funeral
um dia vai acontecer como aos outros
e respondem-me: lindo maravilhoso tocante
por vezes exalo uma festa de cor e árvore
porque me sinto feliz nem que seja por um bom momento
antes que termine respiro-o e dizem-me: quem és tu
para ter tanta pretensão
às vezes sento-me e espero - não faço nada
observo os outros um desporto português obsessivo
no estrangeiro ninguém olha assim fixamente em desafio
e deus tira-me do lugar  sempre incomodamos
quem passa e quem está parado
quem fala e quem não fala mais porque não quer
era bom transformar o vazio num longo e interminável poema
mas é sol que só brilha por vezes
Out. 2012
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