quarta-feira, 7 de março de 2012

Os DESENHOS de António Ramos Rosa & outros textos

Os desenhos de Ramos Rosa trazem palavras descobertas na raiz do traço. Vão-se descobrindo a cada curva como uma lenta estrada de província. Às vezes estou no Alentejo e faz sol. Noutras vezes não sei onde estou e faz sol. Estar não me parece o verbo adequado para tanta inquietação mas é um verbo como outro qualquer. Senhor Ramos Rosa, as suas figuras femininas são tão divinas e suaves e doces. Como o seu sol, os seus desenhos, estimado senhor, deitam luz de sorriso, uma fonte que não incendeia mas enternece. Leva-me a colinas longe, muralhas, escarpas e dorsos de história. São tão belas as mãos, ágeis e corcéis de vento. Os desenhos de António Ramos Rosa, trazem pétalas deitadas com o perfume de brisa de um fim de tarde feliz. 


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Kjell Askildsen



Uma Vasta e Deserta Paisagem



Gostou dos personagens zangados. E dos que envelhecem e são irascíveis. Quando envelhecer… Quando envelhecer mais, vou ser assim: maldisposto e insolente. Posso muito bem não ser capaz. Mas tentarei. Uma bengala e umas cãs darão uma ajuda. Bem as cãs… Falta a bengala. Feita de pau-teimoso-e-rezingão. Então a vida valerá a pena. Afaste-se que eu vou passar. Vá, despache-se.

Quer dizer que este senhor norueguês que escreve brilhantemente os seus contos e outros escritos, era um perfeito desconhecido por não haver quem o traduzisse, o que é pena e esta frase já está muito grande. Kjell  Askildsen, nascido em 1929, premiado autor – comparado a Raymond Carver  e também a Beckett  (descubram porquê) não tem frases assim, grandes e com desperdício. Escreve o que é preciso e chega. Simples? O tanas. As suas personagens, cruzamo-nos com elas todos os dias – gente. Tu e eu. Velhos e novos. Doentes e saudáveis. Sóbrios ou nem por isso.









Imagina tu que este livro de contos não tem histórias felizes. Mas conheces alguma história feliz? Eu conheço. Histórias com pessoas felizes, mas terminam todas mal.






Autor norueguês, Kjell Askildsen é considerado um mestre na narrativa breve ou conto. Este livro de 1987 ganhou o Prémio Riksmal, no seu país. O livro é uma recolha de alguns dos seus contos inclusive um dos seus primeiros publicados: “A partir de agora acompanho-te a casa”, editado em livro com o mesmo título nos anos cinquenta.
Gostei de particularmente dos últimos 4 contos: “Ingrid Langbakke”, “Carl Lange”, “Últimas notas de Thomas F. para o público em geral” e “Um repentino pensamento libertador”. Reflexões sobre a solidão, a velhice, a aproximação da morte, os estranhos e perdidos relacionamentos entre pessoas, no casamento e no dia após dia. Gente que se cruza e gente que vive em conjunto mas não sabe nem consegue ser feliz em comunidade ou em família. Um grande escritor. Com um sentido de humor refinado, negro e irónico. 
Este livro já tem uma pequena lista de amigos à espera de um empréstimo para o lerem. Acho que farão muito bem. Boa leitura é o que lhes desejo.


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WISŁAWA SZYMBORSKA (1923-2012)







Um exemplo. Um poema. Nobel de 1996. Um mundo mais pobre agora sem a presença física da poeta. Fica a poesia como árvore plantada no nosso peito.

“EXEMPLO

Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.”

(Poema segundo a tradução de um dos autores do blogue: Poesia & Lda, ambos poetas de excepção) Quando publiquei no Luso Poemas esta citação, recebi este comentário que me sensibilizou:






“Querido amigo,
compartilho da sua dor pela morte de Wisława Szymborska. Hoje, o meu quarto também parece mais escuro, pois esta grande poeta morreu. Os grandes poetas são assim: acendem luzes iluminando cantos escuros da nossa alma.
Nas semanas passadas, eu publiquei aqui no Luso 4 poemas de Wisława Szymborska (Nada acontece duas vezes, Amor à primeira vista, As três palavras mais estranhas, Gato em apartamento vazio).
A sua poesia vai viver para sempre.
Um abraço,
Manuela”



Façam favor


Façam o favor
de reparar na
poesia de wislawa
szymborska.
Que eu também
não sei pronunciar.
Façam o favor
de absorver um
pouco mais do mel
desta poesia
que vem do país
do museu-da-memória-triste-
-auschwitz, ex-fábrica
de sabão que nunca
produziu nenhum.
Façam favor de a ler
entre a doçura e a
franca ironia.
Façam o favor de a ler.
Façam o favor.
Façam.
O favor de a ler.
Foi nobel
e o que isso interessa.


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Dum poeta invulgar






Xavier Zarco



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Elle est retrouvée!
          Quoi? L' éternité.
C est la mar mêlée
          Au soleil



(Rimbaud 1854-91)



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Revolutionary Road de Richard Yates







(magnífica capa de uma edição americana. imagem tirada do Google)




O romance “Revolutionary Road” de Richard Yates (1926-92), editado em 1961, é um tratado de melancolia suburbana. Um romance que deita por terra o american way of life como supostamente foi utopicamente idealizado. Alguns momentos angustiantes na vida de Frank e April Wheeler, um jovem casal com dois filhos pequenos, vivendo num confortável subúrbio. A aparência duma vida perfeita. A acção desenrola-se entre uma peça de teatro comunitária e um acontecimento trágico com um dos principais personagens. O vazio duma existência de conforto e sossego, entre martinis e bourbons, entre chás e conversas de fim de tarde com outros exemplares de uma extinta classe-média em meados dos anos cinquenta. Infidelidades, traições e obsessões diversas. Casas de madeira com alpendres floridos, jardins e garagens, onde espreitam os pára-choques cromados de Buicks e Chevrolets, crianças fogem dos aspersores ligados e mulheres preparam repastos perfumados para os seus maridos que chegam no final da tarde do escritório. Frank Wheeler com um futuro promissor na firma de máquinas de escrever Knox. April uma feliz dona de casa a ver a sua vida passar com rapidez e lentidão.
Não vi o filme de Sam Mendes de 2008, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet. Mas confio no realizador para filmar esta história digna de ser realizada, de enredo suburbano e tristonho, realista como se atribui quando a alegria de viver não é convidada para dançar.  
Depois do romance, não tardarei a atirar-me aos contos do escritor, editados cá pela Relógio D’água, havendo essa oportunidade.  


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Oh, os poemas!...


- O teu poema é tão denso que não consigo lá entrar.
- O teu poema é tão mau que nem escrito por uma criança. Se uma criança o escrevesse pelo menos um pouco do seu maravilhoso mundo teria.
- Gostei do teu poema embora o não tivesse entendido mas os poemas não são para perceber, não é?
- Isto é um poema!?
- Não percebi, um poema em prosa ou uma prosa poética? De toda a forma, cheio de bela linguagem.
- Gostei mas cheio de lugares comuns, metáforas belas mas muito usadas. Cheio de beleza mas muito dejá vu, entendes?
- Uma porcaria, desculpa!
- Mais ou menos uma insignificância. Sem mensagem, sem mundo, sem gente dentro, confuso.
- Oh, os poemas que escreves! Penso cair num exagero mas escreves expressões tão ricas e belas que fazes avançar a Língua cem anos.
- Tanto dia a dia e tanta melancolia. Fica registado os nossos piores momentos nas tuas palavras. Dói ler-te. Mas não deixamos de o fazer.
- Desculpa lá, sei que gostas de poemas de amor mas gostavas que alguém te dissesse ao ouvido o que acabaste de escrever? Gostarias de viver esse amor como o descreves? Ou fugirias a sete pés? Então, porque escreves sobre isso…
- Faltou-te o fôlego a meio, não foi? O teu poema tem o ritmo de uma locomotiva endiabrada ou duma banda speed metal enlouquecida. Se não consegues manter o ritmo, tu que escreveste, como haverá o leitor de o fazer? Coloca-se a questão, porque fazer um poema que ninguém consegue ler até ao fim, porque tem uma síncope a meio? Mantem o ritmo elevado mas faz pontuadas pausas assim como numa canção. Podemos aqui aprender algo com o Howl do Ginsberg, eu sei que aquilo é difícil de digerir mas um portento de ritmo elevadíssimo.
- Chamas poema a isso? Eu chamo: uma nódoa. Lê-se como forma de a apagar e eliminar.
- Oh, que poema tão rude e cheio de negatividade! Mas verdadeiro, é tudo verdade embora chutado na cara do leitor. Vai sobreviver, penso.
- Nunca li um soneto tão belo. Métrica perfeita e cada palavra no sítio certo. Como conseguiste?
- Lançar tanto vernáculo sobre um texto é como estragar uma caldeirada com malaguetas a mais. Ninguém a vai comer. Lamento. Um pouco menos, por favor.
- Escreves sempre o mesmo poema. Mas cada vez melhor. Acho que nunca vou deixar de te ler.
- Surpreendes-me sempre. Mas hoje não. Igual. Igual.
- O teu poema é um denso pomar com tanta árvore que para colher uma simples laranja cansa tanto que não voltamos a repetir. Poemas complicados mas descartáveis. Para se ler uma única vez e cansam que se fartam. Mais um pouco e deixarei de ler poesia. Qualquer poesia.
- Poema negro como a morte. Difícil de esquecer. Uma estocada na alma.
- Oh, Camões mais Camões! Socorro!...
- Oh, Florbela Espanca mais Florbela Espanca! Socorro!... Não posso ficar com uma só, a original?
- O teu poema transtornou-me. Marcou-me. Vou ter de o ler várias vezes. Posso demorar anos.
- Não consigo classificar o que escreveste. E não consigo parar de ler.
- …
- Perfeito no sentido de que me fez escrever poemas. Se um dia escrever um poema que seja, como resposta ao teu poema, então não me importo que me chamem isso: escrevinhador de poemas ou…
- Nunca li um poema como este. Nunca.
- Um poema tão longo quanto o cosmos. A tua respiração faz pensar numa qualquer ideia de eternidade. Como um solo de John Coltrane.
- Eu queria viver esse teu haikai. E ficava lá.
- Poesia, mas o que é poesia.


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