quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

TOM, SAM, HILDA, WALT, BECKETT, WOOLF, ALBA, PATRICIA, HURT & LOU - e outras pequenas estórias

 
Tom
rouco diz o louco
mouco não ouve o que diz o louco e continua a comer os seus torresmos com gordura e tempo, beberica o seu tinto de algures e mofo, sabe-lhe a pouco
rouco teima o louco que coça o toco
- nem por isso, já foi mais
o que o louco discorda e se põe a milhas – rouco, rouco… profere longe o louco
e nem uma moeda nem pouco
rouco cada vez mais
voz sem reboco e fica assim

 
Sam
Dois homens estavam à espera de um outro. Que chegou já de madrugada. Receberam-no perto da luz dum cadeeiro de rua e as sombras de uma grande árvore. Abraçaram-se e atravessaram uma grande avenida. Foram esperar uma mulher num bar dum velho teatro. Sabiam que estava aberto o bar, só para eles. Instalaram-se a um canto bebericando os seus portos. O dia chegou e a mulher não.

 
Hilda
Empurrou a mulher pelas escadas abaixo e chamou a polícia. Amava-a mas não a suportava. A polícia chamou a ambulância e levou a pobre mulher. Já não a suportava, repetiu o homem algemado a entrar no carro de polícia. Não mudou de argumento e ficou preso. Ninguém se lembrou do gato. Esse saltou a vedação e entrou na cozinha da velha senhora da casa ao lado. Aninhou-se num alguidar cheio de roupa lavada. A velha senhora sorriu:
- Estás em casa, gato…

 
Walt
O homem encostou-se à parede de madeira da velha estação e morreu. Os últimos pensamentos foram um belo corpo de mulher a surgir dum nevoeiro citadino e um campo de batalha onde um dos corpos era o seu. Levava numa das mãos uns papéis sujos que se espalharam entre as folhas de erva.
Tiraram o corpo do homem e referiram-se ao seu sorriso. Um sorriso tão acriançado para um corpo tão velho e desfeito. Fazia sol e sombra por entre os passos da multidão que aumentava para verem o homem velho de barba grisalha que simplesmente faleceu onde se assentou.

 
Beckett
Na peça todos os actores estavam empenhados. E ninguém morreu no fim. Saíram todos do teatro com frio. Espalharam-se pelos bares da zona e sentaram-se nos seus automóveis polidos e muitos arrancaram para longe. Só ficou um vagabundo encostado a uma árvore perto da entrada do velho teatro, à espera que o mandassem embora. Mas ninguém apareceu. As portas do teatro fecharam. O frio da noite instalou-se. Certas luzes apagaram-se e o vagabundo acabou por adormecer envolto no seu grosso sobretudo. Morreu congelado à espera dum milagre.


Woolf
Onde estavam ondas agora rolam pedras. Como marés. Aonde estava o peso de muitas pedras está um sorriso. Tímido e cheio duma tristeza por catalogar. Melancolia única e de jardim enfeitado. Sabem, aqueles jardins muito bonitos mas sós de gente e crianças. Assim como um corpo nu mas sem ninguém que lhe pegue. Há jardins de cemitério sem gente sepultada. E muitos nos rostos de quem passa. Quem serão essas pessoas? Espelhos andantes? Que diria Virginia de tudo isto?
 
 
Alba
Não tenho dinheiro para te dar, mas tenho ali dois pães de hoje. O pão mata a fome. Não mata as noites frias mas aquece o interior. Mas é só pão. E tu só tinhas uns papelitos para me pagar ontem e hoje? Tens mais algum poema? Dou-te os pães na mesma. Ficas-me a dever. Dois poemas dos pequenos, com a tua luz.
Agora as ruas não são as mesmas. Morreram um pouco, torcidas pela memória e sujas pela culpa. A noite matou-te sobre a forma duma motorizada mas os teus poemas são a nossa noite dividida. Entre as tuas sábias expressões e a nossa agonia dos dias. Sabias que tinhas conselhos para dar que nunca provaste?
 
Patrícia
Um gato esperava por uma sombra no vão da escada. A casa tinha heras por todo o lado. Paredes cobertas de tijolo centenário. Um fumo suave e contínuo sai pela chaminé. Levanta-se vento e as folhas caídas no alpendre voam. O gato passa pelo espaço entre a porta e a ombreira como se fosse pecado no mundo dos gatos tocar na madeira ou na pedra e entra. A velha senhora atira a ponta do cigarro para um jarrão com areia. Entra em casa, puxando a gola do casaco mais para si. Dentro de casa, há um chá quente à sua espera e problemas com cadáveres para resolver. A noite abraçaria o bairro dentro de pouco tempo e a inspiração mais fértil. O gato ainda enfiou os bigodes fora da porta como que despedindo-se da tarde. A porta fechou-se.

 Hurt

Ando triste. Vivo num país triste. As pessoas não são pessoas. Nem números são. Não existem umas para as outras. Tenho a certeza que se disser a um transeunte qualquer: - Tenho uma bomba potente, se não me der uma moeda, ela explode! A resposta seria: - Tenha paciência. Vai trabalhar! Qualquer ideia que possa ser dita: - Estou com fome. – Vou-me matar. – Vou matar alguém. A não ser: - Dá cá o dinheiro ou espeto-te esta faca de cozinha! A menos que vejam a faca, a resposta será: - Não me chateies! Deixa passar! Este país morreu e ainda não sabe disso. Vive uma crise monetária, económica e financeira. Mas a verdadeira crise de que sempre sofreu é de tristeza. Um povo triste. Não acredita em si. Mas que vai dar a volta. Com certeza. Mas vai sempre parar ao mesmo sítio. É sempre uma volta penosa de cento e oitenta graus. Fica-se apenas um pouco mais à frente. Melhor seria, romper a direito.
Por isso ando triste. Sou um desses que andam por aí. Tal e qual.

Lou
Acho que já contei esta história. Eu e ele, parecido com um dos Ramones, o que canta, íamos a um apeadeiro ferroviário esperar o outro que vinha de Vialonga e apanhávamos um lento autocarro até à Encarnação, onde numa vivenda um afável ex-hippie alugava a cave e instrumentos para malta como nós fazer uns barulhos. Chamava-se a Harpa. Assim estava escrito no gradeamento de metal da porta de entrada. O Joey Ramone ficava com um baixo e berrava, sempre de cigarro ao canto das beiças. O de Vialonga, na bateria e eu a solar. Os solos eram longos e cheios de eco. A bateria demolidora.
- Lembras-te do filme Blue in the Face, em que aparece Lou Reed  – alguém perguntou.
Algo se passa com esta memória, decorria os meados dos anos oitenta e o filme saiu em noventa e cinco. De toda a forma, teve vida curta a banda Outsiders Revolution Blues Band. Durou uma cassette gravada, algumas tardes e muitas canecas de cerveja.

Jan. 12


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numa destas noites


Alisei a barba e bati à porta. A bela holandesa veio abrir. Solicitei se podia dormir um pouco e comer alguma coisa. Precisava dum banho mas isso seria pedir muito. Perguntou-me como me chamava. Bem, Fred, tens ali um anexo onde podes fazer isso tudo e de manhã vais embora, não quero que assustes as crianças. Aceitei com muitos agradecimentos e a bela senhora de sardas e vestida como uma hippie conduziu-me a um barracão com um automóvel lá dentro. Apontou-me uma casa de banho, uma espécie de estufa onde podia dormir e disse que já trazia comida. Perguntei se ela queria que eu fizesse algum trabalho ou limpeza como paga por aquela hospitalidade. Ela sorriu. Venho já. Entrei na estufa, uma espécie de sala com um sofá, candeeiro, móvel com livros e um aquecedor a gás. Nem sombras de plantas, apenas umas caixas num dos cantos. Do lado de fora da estufa um Ford Capri verde em excelente estado de pintura mas com os pneus em baixo. Não andava há muito tempo, apenas lhe limpavam o pó. Entrei na casa de banho, pequena, limpa, com um duche a um canto e muita luminosidade. Podia viver ali sem incomodar ninguém. Apenas não havia onde fazer comer. A linda holandesa nos seus bem conservados quarenta anos ou pouco mais, surgiu com umas calças, uma camisa aos quadrados de pescador, um par de sapatos de sola de borracha e uma grossa camisola. Disse que era do ex-marido e que me devia servir. Quer que lhe dê uma vista de olhos no carro, perguntei. Não anda há séculos, há aí ferramentas mas não vale a pena, só eu é que conduzo e não me ponho a andar nessa lata. Já lhe trago comida, pode ligar o aquecedor que a estufa é fria e já lhe trago umas mantas para o sofá. Agradeci tudo e entrei na casa de banho. Tomei um duche frio e vesti as roupas do ex-marido da mulher. Lavei com sabão as minhas roupas e pendurei-as perto do Ford numa corda. De manhã estariam secas. A mulher apareceu com umas mantas e uma almofada. Foi lá dentro novamente e trouxe num tabuleiro duas fumegantes sandes com carne assada e duas garrafas de cerveja. Guardanapos e duas maçãs. Não sei como lhe agradecer, apenas queria um lugar para descansar. Sorriu e desejou-me uma boa noite. Comi uma das sandes e bebi uma cerveja. Abri o capô, comecei a limpar o motor. O óleo parecia estar bom. Enchi os pneus, tirei-lhe as teias de aranha. Limpei o filtro do ar, sacudindo-o. Dei um aperto a alguns tubos. Vi todos os níveis. Só faltava a chave para ver se o conseguia ligar. A roupa ia secando. A noite chegou e encheu de sombras todo aquele lugar. A estufa não era assim tão fria. Não liguei o aquecedor. Mexi nos livros. Tudo velharias. Descobri uma Bíblia e comecei a ler o livro de Job. Comi a outra sandes e bebi a última cerveja, saboreando-a. Tapei-me com uma das mantas e uma simpática escuridão abateu-se sobre o meu corpo. Sonhei ou penso que sonhei com gatos, moinhos de vento e com um estranho personagem vestido de pirata que conduzia um Ford que ia mudando de modelo e de cor ao longo de planícies sabe Deus de que país. Acordei cedo com a explosão de luz e calor. Um gato malhado olhou-me e fugiu. Lavei a cara e reconheci os meus olhos. Doía-me o corpo. Juntei a roupa e arrumei-a na mochila. Fazia intenções de me ir. Arrumei o livro e ajeitei as coisas mais ou menos como estavam. Que horas seriam? A mulher surgiu e agradeceu o que fiz ao carro. É capaz de pegar ou a bateria está descarregada. Não interessa, quer tomar o pequeno-almoço lá dentro? Não será um abuso, não me sentirei bem, as crianças… Não tenho crianças, apenas disse isso por uma questão de segurança, mais um pouco e diria que era casada com um polícia mas pareceu-me boa pessoa. Entramos na cozinha, onde o gato comia da sua gamela e um agradável cheiro a café e ovos mexidos pairava no ar. Qual é a sua história, porque anda por aí - perguntou Eve apresentando-se e serviu-me café para dentro de uma chávena enorme com figuras de um desenho animado qualquer.
(23 Jan. 2012)
(ligeiramente aparado, tinha umas arestas ortográficas)


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50
coisas pequenas & de fácil leitura
um telegrama STOP demora 3 minutos a ser escrito STOP mas já ninguém escreve telegramas STOP seria ridículo STOP com e-mails STOP sms STOP facebooks STOP e tudo o resto
lembram-se do TELEX cheguei a escrever um desabafo catártico a um chefe por TELEX que ele anos depois sempre referia com desagrado
lamento hoje não estar na moda escrever-se CARTAS mas pode ser que voltem, como coisa antiga a preservar
uma CARTA de amor (ou de ódio) era coisa que se podia guardar, agora só virtualmente (o que não é a mesma coisa)
e a arte dos POSTAIS quem hoje faz colecção
eu gosto e ainda os escrevo e entrego pessoalmente, são e serão insubstituíveis
e nada disto são coisas pequenas
uma coisa pequena é um apontamento – uma breve declaração
quando um poema é uma coisa pequena – houve algo que se perdeu, a meio do processo
eu sei – eu escrevo coisas pequenas: pequenas histórias, haikus, pequenos poemas, pequenos episódios
mas quando são de fácil leitura – é sinal de que quem escreveu é muito bom, nunca o foi ou deixou de o ser, grande parte das vezes o primeiro caso é uma honrosa excepção
e termina-se o texto – e nada foi dito


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54 - velhos diálogos


velho: ó banco fica lá com tudo e pára de chatear com marketing de 2ª categoria com actores de ar feliz e doentio baseado em figuras de uma qualquer religião de 3ª categoria e pára de contratar fuinhas infelizes que ficam mal de gravata e fato e que fumam cigarrilhas mal cheirosas na esplanada do café minúsculo onde os clientes do banco comem sopa com pão

outro velho: não tenho medo não tenho nada

velho inicial: ó céus atmosfera ou o que seja livrai-me deste chato que sou eu agora sentado neste banco de cimento ao menos um belo banco de jardim daqueles de madeira e ferro

outro velho: madeira e ferro?

mesmo velho: sim, daqueles feitos com o design do antigo regime nos jardins públicos, são bonitos, o antigo regime salazarista tinha coisas bonitas, os candeeiros, os eléctricos

o outro velho: a pide
velho: não puxes por mim, és tu a jogar
o outro: os seus amigos hoje faltaram ao combinado?
velho: devem ter morrido todos – você só agora joga, tem estado sempre a assistir
o outro: é verdade, são um grupo coeso, fechado, chamo-me Nicolau e você
velho: prazer, chamo-me Josefo, é o Nicolau a jogar outra vez
Nicolau: distraído com a conversa, fim de jogo
Josefo: bolas, vamos lá à conversa, sabes agora ia um tintinho
Nicolau: é só atravessar a avenida
Josefo: se não fores atropelado
Nicolau: que é que ias dizendo? o governo
Josefo: primeiro tu, anda que pago eu
Nicolau: isso é que é falar – têm torresmos, aqui
Josefo: isso faz mal
Nicolau: fiz oitenta e três há dois meses
Josefo: então podes comer, vamos nisso – os impostos deviam
Nicolau: acabar – tudo grátis
(continua)
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Eva: - Anda, deita-te.
Ivan: - Não consigo, as costas não endireitam…
Eva: - Oh, céus e agora…
Ivan: - Ajuda-me só a deitar-me de lado. Empurra-me.
Eva: - Oops… e agora?


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Podemos ficar fartos

Estou farto da teoria impossível que é repetida sempre que se anseia uma parca teoria. Da postura que é aceite e é tão feia. Da palavra política, era bom ouvir duas pessoas a conversar, apenas isso. Do homem que é mulher. Da criança que é mulher. Da mulher que parece criança. Do rapaz que é mulher. Do homem que é cão. Do cão que come mulheres e da razão que acompanha a violência e o contrário. Da estupidez da morte e da sua beleza. Estou farto duma série de coisas que não o são. Mas chateiam.


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Uma história


Não tenho uma história para contar. Uma história que seja relevante e interessante. Só tenho uma história banal para ser vivida. E é tudo.


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Eva


Quando nasceu o dia, já Eva tinha acordado. De repente, o paraíso pareceu-lhe um belo sítio para se estar. Mas por onde andava Adão? Serviu-se de um chá e enxotou o gato das pernas. Aproximou-se da janela e pensou que iria chover não tarda. Voltou a pôr a agulha no princípio do disco de Monk e sentou-se novamente do sofá. O gato voltou ao seu colo.

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Era uma vez um homem


tão vaidoso que esqueceu a razão porque era tão vaidoso mas não perdeu a vaidade por isso. Era feliz, consta-se.

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Uma banda de jazz


O velho fundou uma banda de jazz. Na primeira jam session convidou um baterista e percussionista brasileiro, um contrabaixista português e um pianista americano. O contrabaixista despediu-se por confusão alcoólica, foi o seu argumento. O baterista vivia num mundo de ritmo próprio que os outros tentavam acompanhar. O pianista era louco o suficiente para aceitar todas as sugestões free. Mas esgotava-se e entrava em colapso. Saiu com um pesado esgotamento após duas únicas sessões de quatro a cinco horas cada. Foi substituído por um guitarrista do Mali. Mas os ritmos não acertavam com a percussão. O baterista não quis adaptar-se e o guitarrista foi emprestado a uma banda de world music. Entraram dois saxofonistas, alcoólicos e suaves, quase irmãos gémeos na abordagem dos temas mas lentos para o percussionista. O velho quis manter assim disfuncional e livre. Entrou novo contrabaixista com muita experiência, homem que nunca falava a não ser através do seu usado contrabaixo. Entendia-se com o baterista louco e colava as improvisações aos solos divagantes dos dois saxofonistas. Mas o velho queria um pianista. Nenhum dos que se apresentaram para fazer testes se encaixaram na secção rítmica. Apenas uma organista muito jovem e de ar angélico. Mas o som era excelente e viciante. O velho aceitou-a. A miúda, de apenas dezanove anos em certas faixas cantava o que deu ideias ao velho de ter uma vocalista. Entre os que surgiram ao anúncio, que foram muito poucos, só uma rapariga de grande porte, africana e de ar hip-hop se aventurava nos velhos standards de jazz que o grupo alterava. Fizeram um concerto memorável e louco. Depois cada um foi para o seu lado. O velho iniciou outra banda de jazz. Na primeira entrevista recebeu um famoso pianista desempregado. O velho ouviu por horas a fio. Mudou de ideias e decidiu gravar um disco mas precisava de um contrabaixista e de um baterista. Procurou e entrevistou milhentos músicos e escolheu o velho guitarrista do Mali. Ele aceitou tocar baixo e a usar uma caixa de ritmos. Fizeram um concerto brilhante e o grupo acabou por falecimento súbito do guitarrista, na noite pós-espectáculo. Após o funeral o velho iniciou os preparativos para uma nova banda, neste caso uma big band.


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