sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

3 ESTÓRIAS, ou se calhar mais algumas

História de um homem que abriu uma pequena encomenda dos correios e descobriu lá dentro uma grande quantia de dinheiro, resolve utilizá-la e faz fortuna em aplicações num só mês, reflete e resolve devolver a importância total ao seu dono, que o denuncia à policia por faltar dinheiro, mas como não havia provas da quantia exata, apenas se abriu queixa e o feliz sortudo continua a aplicar na bolsa e a ganhar dinheiro. Anos à frente, numa das firmas que este homem dirigia, apareceu-lhe um gestor a oferecer os seus serviços e o homem reconheceu com sendo o tal da encomenda de dinheiro. Empregou-o e despediu-o. Empregou-o novamente e são hoje leais amigos. Continuam a ganhar dinheiro e a despedir empregados aplicados.


História de um casal de hippies sexagenários que acordam nos corpos de dois adolescentes de sexos opostos, de dezasseis e dezoito anos, em pleno concerto de um conjunto metaleiro que fazia um berreiro infernal com uns instrumentos elétricos que desconheciam o seu funcionamento, rodeados por uma multidão de genes com roupa que gritava e não ouviam os seus próprios gritos. Ela chorava e ele não ouvia os seus próprios gritos, também, mas sentia a pressão nas veias do pescoço e as crescentes dores de garganta. Quando voltaram a casa, os seus pais não acharam nada de estranho.
Maio 08


História de uma senhora de idade que com um revólver carregado juntou na sala de sua casa o seu ex-marido bêbedo e os seus oito filhos, no dia em que um deles foi liberto da prisão por posse de droga e estupidez. Ninguém acreditou que a arma fosse verdadeira até a mulher, vestida com a sua melhor roupa, ter disparado um tiro cuja bala se alojou na parede lateral duma pequena dispensa a caminho da cozinha, houve gritos e depois um lívido silêncio. A mulher num discurso em crescendo, em profunda catarse catalogou todos os defeitos da família e todo o trabalho escravo e humilhante de toda a sua pobre vida. Quem chegasse no momento a meio do discurso de uma hora precisa, dir-se-ia que a mulher sexagenária declamava uma versão livre do famoso poema Howl de Ginsberg. Ao fim daquela brutal hora, engata com precisão a pistola e pega numa pequena mala de viagem vermelha e sai. Segundo relataram alguns vizinhos, nunca mais a viram.
Dez. 11

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quarteirões de rua - longe

Os quarteirões de paredes de tijolo de burro escurecido. As tuas mãos delicadas e de pele branca. Naquela tarde de calor desatou a chover e sorriste. Por causa desse sorriso habitamos este duplex com vista para a parte pobre da cidade no prédio mais antigo de toda a rua. Neste momento leio salmos e bebo o teu chá preferido demasiado adocicado para mim. Ajeitas o lume e a lenha e sorris por causa da minha posição no sofá, dizes que pareço um gato desgrenhado. Estou pobre e desempregado mas feliz contigo, sabias? Nesta rua suja, mal frequentada e longe… Aqui mesmo.

Jan.10

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Olé



Chovia como nunca. Ele fechou os olhos e deixou-se estar no automóvel enquanto o sinal vermelho não abria e o condutor de trás não apitava. Quando terminou o disco já ele estava fora da cidade.

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Rudes & Rompantes

(1):
Desliguei a televisão no botão: ON/OFF. Puxei o fio da tomada com força, como não se deve fazer. Enrolei-o à volta do ecrã e peguei nela juntando o vidro ainda quente à barriga e saio. Juntei-a ao caixote verde do lixo. Fiquei indeciso se valeria a pena colar um papel escrito: Funciona. Retornei a casa e deitei-me no sofá. Adormeci. Sorri com este pensamento e apanhei o comando. Mudei de canal. 11 Ago.

(2):
Desliguei. Levantei-me e puxei o fio. Peguei no televisor. A minha mulher abordou-me: - Para onde levas a televisão? Vai dar o Lost. Voltei a pô-la no sítio nobre da sala. Deito-a fora depois. Vimos o último episódio. Comentei que fiquei desiludido. Ela não. Gostou. Pequei na televisão e chamei o elevador. 11 Ago.

(3):
Quando cheguei a casa o gato havia fugido. – Qual deles? – O Syd. Logo o Syd, o vaidoso Syd. Fazem-no em frangalhos na rua. Sai para a rua e observei por debaixo dos carros. Quando passo perto do caixote do lixo, vejo Syd em cima da televisão. –Syd, meu maroto. Lá tive de pegar na televisão novamente. 11 Ago.

(4):
Deixem que vos apresente os meus outros dois gatos, rafeiros e maus: Cato e Fred. Nomes rápidos para um gato preto e feroz, Fred e um de pêlo fofo. Gatos de rua, aprenderam a partilhar o espaço com o imperador Syd, persa puro. Relembro um quarto exemplar, uma gata de mais de 15 anos Nicky que morreu em casa e foi levada de madrugada para o gatil de Lisboa. 12 Ago.

(5):
Quando morreu a gata Nicky peguei nela pelas patas e metia-a num saco preto. Pensei enterrá-la num descampado nos fundos da rua. Imaginei-me de pá na mão a escavar como uma cena dos Sopranos. No fundo receei ir de madrugada a atravessar a mata do Monsanto para a entregar no gatil para incineração. Segundo a minha mulher, era assalto certo. Mas fui. 13 Ago.

(6):
Voltei a casa destroçado. A mulher telefonava-me de 15 em 15 minutos. Quando cheguei, perguntou: - Que aconteceu, assaltaram-te, deram-te porrada? – Não, filha, foi uma seca despedida de Nicky… apenas isso… Sentei-me no sofá. Estava a dar um episódio do Monk. Syd veio deitar-se aos meus pés. – Vamos dormir? – Vou já. Onde estão Fred e Cato? 13 Ago.

(7):
Desliguei a televisão. Empurrei Syd que adormecera. Na varanda aberta, cada um no seu canto, Fred e Cato dormiam. Fechei algumas janelas. Espreitei a rua silenciosa e ao fundo o rio Tejo, negro e só. Recordei o porto de Roterdão, onde nasci. Ver o movimento dos portos, sempre foi um prazer. Aqui, o rio e um cais nu. Mas Lisboa é uma mulher velha e bela. Fui-me deitar. 13 Ago.

(8):
Meu nome é Bastiaan Van Dolle. Nasci em Roterdão mas moro aqui há 35 anos. Sou mais português que outra coisa. O que me denuncia, a altura elevada e a tez branca, muito branca. Meus cabelos já foram quase da cor do fogo mas agora brancos e desgrenhados. Neste momento estou desempregado. Vivo do subsídio para a restauração do pequeno prédio onde vivo no 3º andar. 13 Ago.

(9):
Finalmente deitei fora a televisão. Mandei cortar o sinal por cabo e cancelei os pagamentos. Uma estranha liberdade e uma sensação de alivio. Senti-me como Clint Eastwood após a sua fuga de Alcatraz, filme de Don Siegel, de 1979, se não erro. Ou não, mas gostei do filme e revi-o na televisão. Pensando bem ainda a vou buscar ao caixote do lixo. 17 Ago.

(10):
Não fui buscar a televisão ao lixo. Ou seja, quando fui, 4 horas depois, já lá não estava. Finalmente, dois anos depois atendi o pedido de minha mulher Selena, grega de nascença. – Tens de deitar fora a televisão. Só dá porcaria. – repetia com insistência. Bastiaan e Selena, fazemos um par estranho. Ela pinta, tudo o que apanha pela frente e eu serro, martelo, prego e também estrago. 17 Ago.

(11):
Sem televisão, as obras no prédio começaram a correr literalmente. Consegui acabar as paredes do 1º andar, finalmente. Dois amigos, José e Jonas, andaram um ano inteiro para remontar os cabos de electricidade e as canalizações. Tudo de novo, em paredes velhas. Foi nessa altura que detectamos um grave problema, as caves e as fundações. Em risco de colapso pelo tempo do prédio e da humidade. 17 Ago.

(12):
Foram dias horríveis para esvaziar as caves de lixo de cem anos. Livros podres, tábuas e tabuinhas, bonecas sem braços, ferros de engomar do principio do século, ferramentas ferrugentas, revistas amarelas, a Time, Readers Digest brasileiras, bandas desenhadas desfeitas, garrafas vazias de liquido e cheias de pó quase sólido, duas camas de ferro desmontadas, mais tábuas, tijolos e muito mais… 20 Ago.

(13):
Demorou meses até as caves ficarem vazias, sem humidade, com luz e pintadas. De repente, ficamos com aquele espaço livre. – Podia-se viver aqui, com estas janelas minúsculas que dão para a rua. – Houve alguém que lançou esta louca ideia. Arrumações, arrumações, snooker, lavandarias e pouco mais, foram as ideias que sobreviveram. 20 Ago.

(14):
Passamos para os outros andares. Paredes escavacadas, janelas partidas, cozinhas e retretes sem louças. José e Jonas acordaram em ficar a dormir entre os primeiro e segundo andares e restaurarem as paredes e darem-lhes pintura condigna. Selena protestou, queria pintar tudo sozinha. – Eu consigo. – Claro que consegues, mas quero terminar isto, ainda vivo. 20 Ago.

(15):
Penso que José e Jonas nunca mais sairão de cá. Nunca falamos disso, excepto com Selena e acordamos que o aceitaríamos. Obras eternas, portanto. Expressão portuguesa: obras de Santa Ingrácia. Mais ou menos isso, só que estas obras eram consentidas e apreciadas como tal, sem tirar nem pôr. Demorou mas ficamos com dois andares restaurados e de bom gosto. 20 Ago.

(16):
Serrei, aplanei, voltei a serrar e a medir, preguei e arrebitei, cravei e martelei, tudo em bom ritmo até a escuridão se espreguiçar do exterior para o interior numa languidez gasosa. José e Jonas após terminarem parte das pinturas, interromperam os trabalhos para me ajudar com o último andar com sótão, tudo em madeira e a agradecer aos céus por não chover. 23 Ago.

(17):
As traves do telhado foram postas numa semana com ajuda de grua exterior, emprestada também para colocar as paletas de telhas, tijolos, cimentos e madeiras. Transformou o enorme sótão em estaleiro. Num mês para toda a armação do telhado e o revestimento térmico onde levaria as telhas. Terminado este desafio começou o meu de montar chão, escadas, soalho para uma espécie de duplex descoberto. 23 Ago.

(18):
Selena agora trata das pinturas a tempo inteiro. Faz padrões de papel de parede e inova. Anda feliz e eu também por a ver assim. Isto qualquer dia acaba e voltamos à monotonia. Sem trabalho e obras, que fazer? Destruir para construir de novo? Talvez. Mas não neste prédio, está a ficar uma obra de arte. Ainda é muito Pollock, mas ficará Miguel Ângelo. Acredito nisso.

24 Ago.

(continua)

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A minha aurora

começa quando desperto em laranja perna e rua e os gritos não dos velhos as mulheres que fogem do frio

e da chuva a ausência de chapéu, fundo-me na alvorada.

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Que percebemos nós

da poesia dita e chutada na viela que sobe sem cair até à última rua do castelo onde mora a poetisa nova que aqui veio morar e se insinua na luz quente dos anoiteceres cheia de sombras dos seus ombros, dorso, braços, pescoço nu, alheia à vontade dos homens que passam de mala a tiracolo para os seus longínquos postos de emprego onde gastam horas, voltando ao fim do dia, sem antes passar pela loja das bagaceiras cegas que lhes pesam nas pernas até à cama fria de luz de candeeiro poste rua esquina, mais um dia, boa noite e a poetisa escreverá que percebemos nós da poesia dita e chutada na viela que sobe sem cair…

27 Jul. 08

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Outras mãos,

as minhas mãos, em todos os degraus da tua pele. Trazem torres de sinalização. Nenhuma delas me diz quem és mas não me entregam à tempestade.

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O senhor doutor saiu para almoçar

Sento-me na relva. No parque, mães passeiam os seus filhos. Homens estáticos, sentados, olham em redor. Velhos passeiam, de mãos a gesticular ou de mãos atrás das costas.

Uma enorme árvore que desconheço a espécie, parece dar sombra a todo o parque tal a sua copa alta e larga. Que árvore magnífica. Dir-se-ia com milénios de existência. Muitas crianças correram à sua volta. Eu correria se fosse criança. Muitos sábios velhotes se abrigaram debaixo dela, a comentar a vida.

Parece que numa louca correria citadina, não damos valor às nossas árvores perdidas em quadrados de terra cercadas de pedra e cimento. Pobres, anseiam a liberdade da terra que se perde no horizonte, nos seus sonhos de árvores perdidas nas urbes e ruas esquecidas na velha cidade. E esta cidade, bem antiga, nasce e renasce, destrói-se e constrói-se segundo a segundo. Os que passam, alheios à sua postura resistente e cheia de dignidade.

Não escutamos o grito da cidade e das árvores a pedirem socorro pelas agressões, talvez porque há barulho demais. A cidade não tem o silêncio necessário para escutarmos o que é importante. O som do vento entre as árvores, o chilrear dos pardais, os gritos das crianças a brincarem e muito mais. Como seria bom escutar as mulheres a fazerem amor e os segredos sussurrantes dos que nos governam, mas esse tipo de ouvidos pertence a outro nível. Ao reino da fantasia ou dos anjos. Tomara eu ouvir o que me dizem em voz normal.

Olho o relógio. Mais meia hora de descanso e levantar-me-ei.

Estes raros momentos dão-me muito prazer. São uma necessidade, esta meditação livre, estes actos de observação a quem por aqui passeia. Pensamos no que pensamos. Os nossos pensamentos são os nossos pensamentos. Valem o que valem. Para nós próprios terão sempre valor. Parar para observar os outros e pensar. Que preciosismo. Um bem divino, penso eu. Não prescindo deste hábito por nada. Nem que seja cinco minutos num longo dia.

E este meu último dia de trabalho, neste caso a minha última tarde de consultas como médico pediatra, parece-me um longo, muito longo dia.

Tirei os sapatos e as meias, enfiei-as nos sapatos. Sabe bem os pés nus em contacto com a relva. Acho que os outros que passam, começam a olhar para mim. Exacto, estou a dar nas vistas. Devem achar estranho, um velho de fato e gravata, sentado na relva e descalço.

Aquele homem está louco, dirão. Ou desculpar-me-ão, por ser velho. Não louco, mas apenas senil. Ninguém vem ter comigo. Ninguém me diz nada. É porque não é muito mau. Devem pensar que desde que não faça mal a ninguém, deixá-lo, pobre velho…

Benefícios da velhice.

Bem, o tempo voou. Está na hora de ir atender algumas mãezinhas que não sabem o que fazer com os seus furacãozinhos que choram, não querem comer a sopa e mijam na cama.

Fiquem descansadas, hoje o Senhor Doutor Velhadas irá atender-vos com a sua paciência de Jó. Mas só por hoje.

Amanhã será um dia dedicado aos troncos com folhas verdes, aos pardais que pululam, ao som do comboio lá ao fundo, e ao barulho da voz da minha bela mulher, velha, velhíssima como eu, a praguejar qualquer coisa.

Um bom dia para vocês, que caminham por aí.

Out. 07 ou Out. 08 agora, sei lá

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Giro em mim,

os mesmos rostos, mesma gente. Para onde, diga-me, amigo. Para onde, o destino do meu olhar. Amo o entardecer das nossas cidades antigas. As sombras, os passos de solidão. Diga-me, amigo, para onde devo dirigir os meus caminhos. Amo o sol das nossas cidades antigas. Covilhã, Braga, Évora, as cidades de Lisboa. Porto, Lagos, Castelo Branco, Beja, Portimão, Sines, Guimarães. Amo os cantares dos pássaros da noite, nas encostas, aldeias de alma em xisto. Mértola, Guarda e os poetas, Setúbal e o brilho dos mares. Diga-me, amigo, que país é este. Somos gaivotas de sal, apavoradas de luz.

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As mãos

são ternas. Contam histórias. Aquelas mãos deram-me vida. Há uns bons anos que me contam estórias, nalgumas eu apareço. Fico sempre. Com as mãos a desenharem-me rostos de conhecidos. Parece que estas mãos também cantam. Fados muito lentos.

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No porto de Amsterdam

Sentei-me ao balcão e pedi uma John Smith’s fresquinha. Do lado de fora, na rua de muro de tijolo sujo, um rastaman vestido de Ziggy Stardust segundo pude identificar cantava num português abrasileirado a seguinte canção:

No porto de Amsterdam
os marinheiros cantam
sonhos apoquentados
Ao largo de Amsterdam.
no porto de Amsterdã
os marinheiros dormem
junto com as bandeiras
ao longo das margens mortas
No porto de Amsterdam
os marinheiros morrem
cheios de cachaça e de dramas
aos primeiros sinais
Mas no porto de Amsterdam
os marinheiros nascem
naquele calor espesso
da apatia dos oceanos

Bebi um pouco da cerveja, mergulhando as beiças na espuma da caneca. De quem era a canção? Dum cantor francês, penso. Mas quem? Charles Aznavour? Brel! Isso, Jacques Brel, o emocionante poeta da catarse. Foi a primeira vez que ouvi esta versão em português.

No porto de Amsterdam
Os marinheiros comem
em toalhas brancas
onde o peixe escorre
e mostram os dentes
para morder a fortuna
e para esconder a Lua
para roer os cordames
E o fedor de tripa
no meio dos fritos
que os seus dedos convidam
E chegam mais que
depois se levantam a rir
quase como um trovão
fechando a braguilha
e arrotando então

Bem, não sei se a tradução da letra é correta. Mas que interessa, o cantor entrega-se ao frenesim emocional da letra e da canção. Começa-se a juntar pessoas à volta. Pago a cerveja e saio para a rua. Junto-me à multidão. Julgo que quase todos não entendem a língua mas conhecem a canção. No estojo gasto da guitarra do cantor vão aparecendo moedas.

No porto de Amsterdam
os marinheiros dançam
esfregando a pança
na pança das damas
e giram e dançam
como estrelas cuspidas
ao som arregaçado
de um acordeão rançoso
eles torcem a nuca
para se ouvirem rir
até que, de repente
o acordeão chega ao fim
então de jeito sério
então de olhar firme
eles trazem suas flores batavas
para onde a luz lhes sorri

O que são “flores batavas”? Bem, algumas frases são engolidas pelo êxtase do interprete e não sei bem se ouço exactamente o que penso ouvir.

No porto de Amsterdam
os marinheiros bebem
e bebem e voltam a beber
e bebem ainda mais
Eles bebem à saúde
das piranhas de Amsterdam
de Hamburgo ou mais além
Enfim, bebem às damas
que lhes dão seus corpos firmes
que lhes entregam suas virtudes
por prata ou ouro
e quando beberam demais
enfiam-se de nariz no céu
assoam-se nas estrelas
e mijam como o choro
das mulheres infiéis
No porto de Amsterdam

Dans le port d’Amsterdam (e repete, diminuindo a intensidade até ao fim)

No final, os assistentes aplaudem. Eu aplaudo. Cumprimento o cantor.

- Fred que fazes aqui tão longe de casa?

Entramos novamente no bar. Pedimos mais duas John Smith’s. Perguntamos ao barman, um enorme haitiano se podia pôr Jacques Brel. Riu-se e foi buscar um cd. Momentos depois uma alemã loura sentou-se ao nosso lado. Parecia a Ute Lemper mas mais bonita. Jornalista, desatou a falar com Fred. A conversa deu-me sono.

Nov. 11

* [Pluymers Toon - Vue Du Port D'amsterdam, original (1941)]

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Oh, os escritores!...

Dois velhos sentaram-se num banco de jardim. Ambos aposentados. Todos os dias pela manhã conversavam. Um deles tinha sido médico, penso que o de chapéu. O outro trabalhou em milhentos trabalhos como por exemplo, carteiro e nos caminhos-de-ferro.

NICOLAAS (o médico) – Não nasci aqui mas sou de cá e continuam a tratar-me como um turista.

JERÓNIMO (o outro) – É a pronúncia.

NICOLAAS – Qual pronúncia?

JERÓNIMO – Mal se nota mas tens. Dizes umas palavras mal. O pessoal topa e acha que és estrangeiro. Tratam-te bem?

NICOLAAS – Claro. Bem demais. Como um senhor doutor. Sabes o que ando a ler?

JERÓNIMO – Ainda lês?

NICOLAAS – Poesia portuguesa.

JERÓNIMO – Só agora é que… perto dos cem anos.

NICOLAAS – Não tenho cem anos.

JERÓNIMO – Pouco falta.

NICOLAAS – Então… não perguntas?

JERÓNIMO – O quê?

NICOLAAS – Que poesia andas a ler? Que poeta?

JERÓNIMO – Diz lá então.

NICOLAAS – António Lobo Antunes.

JERÓNIMO – Mas esse é um escritor conceituado, prosa pura.

NICOLAAS – Poesia, nem ele sabe que a faz. Poesia. A fingir que é prosa. Nunca o leste, pois não?

JERÓNIMO – Acho que já. Não, não o li mas ele próprio diz que deixou de escrever poesia porque era muito má.

NICOLAAS – Sabe lá ele, gostava de o encontrar e ter uma conversinha…

JERÓNIMO – Que é que lhe dizias?

NICOLAAS – Sabes lá tu…

JERÓNIMO – Estás senil.

NICOLAAS – Eu? E tu?

Começa a chover.

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NICOLAAS (admirado, observa o amigo) - Disseste isso tudo de cor?

JERÓNIMO – Viste-me a ler qualquer coisa?

NICOLAAS – Isso é bonito. Quem é…

JERÓNIMO – Amadeu Baptista, é um excerto dum poema longo. Gostei disto e li-o várias vezes e o que é que significa, tu que lês estes gajos que brincam com as palavras?

NICOLAAS – Sabes o que é uma metáfora?

JERÓNIMO – Outra vez?

NICOLAAS – Sabes ou não?

JERÓNIMO – Sei. Mas o que significa o poema?

NICOLAAS – Sei lá… Diz lá isso outra vez.

Jerónimo repetiu o poema. Nicolaas pôs-se a pensar. Uns passaritos desataram a fazer barulho na árvore que lhes fazia sombra. Talvez por causa do sol.

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JERÓNIMO – Comprei a biografia de Keith Richards.

NICOLAAS (olha-o com ar muito sério)

JERÓNIMO – Leitura desempoeirada. Relato de um louco, toxicodependente e imitador de blues. Será que foi ele que escreveu o livro?

NICOLAAS (continua a olhar para Jerónimo, sério e com ar de uma mistura de sentimentos) – Vais continuar a chatear-me ou vais parar com essa tua veia adolescente? No fundo nunca deixaste de ser adolescente. Pode-se ser adolescente a vida toda, de facto.

JERÓNIMO (riu-se) – Estava só a entrar contigo mas hoje estás podre de mal disposto. Que se passa?

NICOLAAS – Estou velho…

JERÓNIMO – Há vinte, trinta anos.

NICOLAAS - … e estou cansado de ser velho. Sabe-me bem o sossego e que morra depressa, para descansar.

JERÓNIMO – Já percebi. Trouxe-te um livro para te ler. O poeta do outro dia.

NICOLAAS – O Romeu Baptista?

JERÓNIMO – O Amadeu Baptista, isso. Escolhi dois ou três poemas, ou excertos. Vais gostar. (Começa a ler.)

Nicolaas fecha os olhos. Estava a viver um dia mau.

Nov.11

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Não quero mais bíblias

- Não quero mais biblías!

- Avó, sou eu.

- Entra, filha. Queres chá?

- Se tiver feito.

- A avó tem comprado muitas biblías!?

- Não, nunca comprei nenhuma. Ainda tenho a do teu avô.

- Então…

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piscos

Acordei com uma chilreada tremenda da passarada, mas que raio, começou a primavera? Espreitei pela velha janela, junto à parede de tijolos encardido e afinal era apenas um dia de sol.
Fiz-me à cidade de chão que escorrega seco ou molhado de pedra polida com o peso dos séculos. Os pássaros faziam coro quarteirão abaixo e não se calavam.

Enquanto atravessava a avenida para apanhar o autocarro de dois pisos, fedorento e lento, lembrei-me dum haiku:

outonos frios

como gosto – sou

de nevoeiros

Quando entrei no superlotado autocarro, ouvia-se Beatles. Nem era uma das canções que apreciava. Subi para o segundo piso e sentei-me à janela. Segundos depois o revisor pediu-me o bilhete. Após a primeira curva, um vulto sentou-se a meu lado. Era ela. Beijei-a. Disse-me, de rajada: - Vou para Londres, no fim do mês.

Nov. 10 ou talvez Nov. 11

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Mecca

Espalhei-me como chuva sobre os ombros dos que passam. Sou um livro esquecido no pó do prédio velho de pedra rude. Mulheres novas sorriem quando passam entre a sombra da nuvem. Há uma onda que se aproxima da cidade e é árabe. Os meus sonhos habitam as janelas arredondadas e altas. Na minha cama de poetas de folhas gastas vejo o entardecer. Na mesquita sorrisos entram na multidão, tapados de silêncio. Posso olhar os pés nus da serpente sem o pecado estrangeiro? Não sei, e arrisco seduzir o olhar com o respeito dos suaves. Vim de longe e fotografo com os sentidos. Que fazer a esta gente que se enlameia, murmurantes e sós em multidão? Odores e galinhas vivas e especiarias coloridas na praça, se praça é, ombros, cabeças cobertas e a nuvem de poeira. Sou um cristão desencontrado de roupas estranhas entre outros. Desenho com caneta sombras e corpos de cinzento e cor. Como o que não consigo observar e o chá de menta arrefece
Nas minhas mãos trémulas de tanto querer enquadrar. Os meus passos são silenciados no ardor dos corpos. Aqui apedrejam um rochedo e atropelam-se gentes. Fujo entre os térreos edifícios desenhados sem esquadria. Dou por mim num quintal de cabras, pobre criança sorri. Sua mãe puxa-a e clama para que o apóstata se afaste. Faço-o entre os mantos vestidos e suores do deserto. Longe dos ismaelitas, entendo o que fazer com o que não entendo. Respeitarei o homem vociferante que também ama os seus filhos.
Respeito o chamamento do alto da torre para a oração. O ódio gasta-nos por dentro e o amor é de graça e uma dívida a pagar a todos os homens. Sorrio à criança e aceno. Ela acena-me. A mãe leva-a para dentro. Está tudo dito.

Dez. 08 ou Nov. 11, que aconteceu entretanto

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nenhuma memória está parada

Os dois subiram a escada. Subiram a escadaria louca de madeira velha encerada. Sempre em caracol. Bêbeda sempre às voltas. Sem parar. A velhota ia à frente e eles chegaram tontos ao andar de cima. Um espantoso dúplex apanhando uma área que antes pertencia ao sótão, que foi antes esvaziado, furado e fortalecido. A velhota fez questão de mostrar cada pilar e deu-lhes a cada um dos seis uma seca pancada, provando a sua rija força. Muita madeira o que dava um ar algo medieval e arejado, estava rodeado de amplas janelas, naquele momento abertas. Tontos, tontos de espanto chegaram ao último quarto da torre um duplex medieval e limpo, enormes janelas davam para o vale, para os campos cultivados e a planície estendia-se colorida pelos horizontes, disse ela de cabelo curto e vestido florido. A velhota referiu, a melhor vista é essa, a parte da frente para a avenida. Ele disse que viveria ali para sempre, ela disse-lhe que ele era louco, como poderiam pagar aquilo. A velhota disse o preço do aluguel com um mês de caução. Se gostam, por amor de deus, fiquem como se fosse a vossa casa. Ele disse, aceitamos. Sou louco, sim louco mas menos muito menos na tua presença, na tua companhia contigo e contigo mesmo sem a tua presença, disse ele e abraçou-a. A velhota disse, falta assinar o contrato e ficam à vontade. Assinaram. A velhota desceu. Passos certos e pequenos. Vem ver a casa de banho, uma banheira antiga com pés de ferro. Despiram-se. Banharam-se e banharam-se um no outro. Ela fez ovos e ele uma espessa limonada. Torraram pão e fritaram qualquer coisa que correu mal e viram televisão com dois canais apenas na televisão minúscula com interferências de campismo que ele trouxera e dormiram. Ele leu um dos livros de Moisés, um que fala de um pobre homem que perde tudo e dormiram na noite e na madrugada e o nascer do sol brilhante e puro, manhãs de planície bicicleta e uma volta de canoa pelos canais até faltar o dinheiro, ideias por cumprir. E os nossos amigos nos levarem num velho biplano e de comboio e de táxi a cair aos bocados até ao aeroporto onde embarcamos carregados de lágrimas e sacos de saudade falando outra língua, a língua do amor e da amizade sem fronteiras chegamos a casa nos canais do grande rio na nossa barcaça duplex onde vivem também outras famílias sempre flutuando na cidade submersa que outrora fora seca e movimentada, ideias dela em pleno delírio feliz, nua sobre a colcha centenária com motivos campestres. Aqui é tanto a nossa casa como outro local qualquer, penso eu, sim, penso eu, disse ele, tremendo de frio.

- Precisamos de móveis.

Ago. 09 e também Out. 11

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um homem, um homem qualquer


apenas pó
uma breve exalação
uma migalha do universo
com nudez e culpa…

dez. 09

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Observo os eléctricos demasiado silenciosos. Na paragem, após a abertura da porta um homem dá um passo e cai. Uma senhora de idade ajuda-o a levantar-se. Dois sorrisos.

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Tardes a ouvir blues

Tardes a ouvir blues. Os gatos a fazerem sabe-se lá o quê no quintal. Mulheres a estender roupa no prédio em frente. Com um andar de diferença e pelas janelas trocam algumas palavras entre si. Aqui nas traseiras da grande avenida havia um pequeno jardim e estrados de mini golfe. Mas já não é assim. Alguns carros estacionados. Num deles, um BMW branco a gasolina um homem de meia-idade, com bigode, passa pelas brasas. Abre a boca de vez em quando. Um gato no pequeno quintal junto a um dos prédios, salta de fronte de uma folha que o vento faz voar. Parece um bailado improvisado. Novo salto. As mulheres foram para dentro. Fora o vento nas folhas dos plátanos, nada mais se ouve. Duma varanda com marquise ouve-se um som surdo e ritmado. Identifico como sendo a guitarra de talvez John Lee Hooker mas segundos depois um trompete em surdina que me parece ser Miles Davis e esta mistura confunde-me. Mas agrada-me o som. Fecho os olhos.

Set.11

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A cidade

Mostrei-lhe a cidade. Ao personagem Dexter Gordon ou Dale Turner ou Bud Powell ou Lester Young ou outro qualquer que tenha imaginado para o papel de saxofonista no poema que não é poema que dei o título de: Os Improvisadores, um título que muito me agrada.
Mostrei-lhe a cidade mas não a parte brilhante e limpa. Aliás como a minha personagem me pediu.
Primeiro apanhamos um táxi e ficamos no hotel Tivoli no Parque das Nações. A personagem deu entrada como Mr. Memphis Silva, luso-americano. Foi ele que inventou o nome. Subiu para tomar um duche e mudar de roupa. Esperei no bar do hotel e pedi um Jack Daniels. Meu Deus, que me está a acontecer?
Saímos e arranjamos um táxi. Explicamos ao taxista, um moço novo, que queríamos conhecer a cidade. Aliás, eu queria mostrar a cidade dentro da cidade a Mr. Memphis, grande saxofonista luso-americano. Demos-lhe cinquenta euros para a mão. Quando fosse mais ele diria de sua justiça. – Ligue o taxímetro na mesma. A tarifa não mudaria, garantiu-nos José, o taxista.
Demos uma volta pelo Parque das Nações, o pavilhão Atlântico, os edifícios de arquitectura inspirada, o rio, a ponte e os seus enormes pilares, um afluente do Tejo outrora nauseabundo e agora apenas poluído. Atravessamos um túnel e fomos dar a um vale supra habitado. Dei-lhe a conhecer os nomes das povoações em fila. Voltamos ao centro e passamos a citar por nome alguns estádios de futebol e um espantoso centro comercial. Andamos por Benfica, voltamos ao jardim do zoo mas não entramos, ver animais no cativeiro não é um bom programa para um fim de tarde, Memphis queria ver o lado negro da cidade, temos de deixar vir a noite, disse-lhe, mas o nosso paciente taxista deu algumas sugestões, torci o nariz e seguimos, Campolide, o aqueduto das águas livres e do outro lado da colina o parque do Monsanto, ver a cidade de cima e entre as árvores, o bairro da Serafina, a Serafina não estava e o meu amigo americano não se riu, o decadente bairro da Liberdade, a zona das transacções de droga, a história do fim do bairro do Casal Ventoso, um pouco mais à frente, contada pelo taxista com nomes elogiosos de certos autarcas envolvidos no fim do maior bairro de consumo e venda de estupefacientes da Península Ibérica, com o exagero próprio dos taxistas, e em seguida a lista de autarcas que o homem comparou a bestas e trolls, censurou a forma política de resolver o problema em acabar um flagelo espalhando-o por várias zonas da cidade, bairro do Intendente, zonas da baixa Pombalina e lá fomos conhecer, Chiado, Bairro Alto, Restauradores, zona ribeirinha, Santa Apolónia, antes de entrarmos novamente no ex-Parque Expo, entramos pelos Olivais, e neste imenso bairro fui cicerone e o taxista calou-se, mostrei-lhe as zonas da heroína que em finais de anos 70 e parte de 80 calou a voz a muitos putos com sonhos e debilidades sociais diversas, e alguns ainda lá andam, Memphis falou-me de Nova Iorque, do Bronx e do Harlem dos anos 60 e 70 onde se perdeu e nunca se encontrou até sair de Nova Iorque, visitamos vários núcleos habitacionais alguns decadentes entre relva, cães, mulheres ociosas, velhos e vagabundos, mostrei-lhe alguns recantos intocados pelo tempo, onde se vive, mostrei-lhe onde cresci, onde namorava e onde pedi em casamento a minha mulher, parece que ainda lá está o banco, naquela tarde à sombra de um enorme plátano, saímos dos Olivais e rumo a Chelas, atravessando os pontos de negrume do bairro, vimo-nos novamente junto ao rio, e perto de silos enormes de cereais e enormes armazéns, o taxista com o pé pesado no acelerador sugeriu almoçar, embora fosse tarde, numa tasca no Cais do Sodré, junto aos bares de striptease, Memphis gostou da ideia e lá comemos um sumptuoso cozido à portuguesa com muito vinho tinto. Retornamos a viagem, atravessamos o rio pela velha ponte e andamos por Almada a visionar a cidade pelo lado oposto, no Barreiro uma breve visita por locais quentes de agitações populares e histórias antigas de trabalhadores e da antiga neblina tóxica que o taxista fez questão de contar, voltamos para o lado oposto e tomamos umas cervejas na Trafaria junto aos pescadores, nas praias da Costa da Caparica, em pelo menos duas, Memphis quis caminhar à beira mar, subimos uma recta perto duma casa onde certo lutador já falecido fazia as suas milagrosas massagens e fomos admirar mansões na Verdizela. A tarde atingiu-nos de rompante e apanhamos a ponte nova e entramos novamente no Parque das Nações, esperamos por Memphis, foi pagar o hotel e trazer a bagagem. Esperamos uma hora e lá chegou. Rumo ao aeroporto, onde apanharia um voo para Nova Iorque. Pagou uma fortuna histórica ao taxista que quase se ajoelhou aos nossos pés com a gorjeta. Fiquei com um cartão seu e disse-lhe que foi um prazer. Lá seguiu, como se despedisse de algum familiar. Ainda bebemos dois ou três bourbons do Tennessee e Memphis abraçou-me. Iria aparecer mais vezes.
- Desde que não me mates.
- Terás de morrer sozinho. Nunca te matarei.
Certa senhora franziu o sobrolho quando pareceu ter escutado aquele diálogo.
Memphis fez-me uma espécie de continência e disse com a sua voz grave: - Hasta la vista! E desapareceu. Adeus, mestre improvisador. E lá me tinha livrado de mais uma personagem. Isto de ser um “autor” perseguido e questionado pelas suas personagens tem muito que se diga. Sai do aeroporto. Não chovia nem fazia nevoeiro. Não estava frio nem era Nova Iorque. Fiz a avenida de Berlim na sua totalidade e dou comigo na Estação do Oriente. Valido o bilhete e sento-me ao frio no cais. Veio-me à mente Round Midnight tocado por um gasto Dexter Gordon, uma versão longa, lenta e perfeita. Acho que assobiei um pouco. Soube-me bem.

Set. 11

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Uma personagem um pouco zangada

Estava a almoçar num pequeno café com má comida e por isso barata, quando entra pelo café dentro um homem grande de fato azul amarrotado e um pequeno chapéu na cabeça e olha para mim. Fez-me lembrar um certo músico de jazz mas não podia ser pois já havia morrido na década de 90.
Sentou-se na minha mesa com dificuldade pois o homem parecia ter perto de 1,90 de altura e não era muito magro. Enfim um homem grande e com um sorriso que não conseguia ler na verdade. Algo entre o simpático e o zangado. Numa voz grave e pausada disse:
- Falo pouco a tua língua. Porque me mataste? Li no teu blogue que não matavas personagens. Não é verdade. A mim, mataste-me. 
Reconheci-o.
- Aqui não há privacidade e espaço. Vamos só falar para outro sítio. – Levantei-me e paguei a minha lasanha comida a um terço. Saímos e atravessamos uma larga avenida e caminhamos um pouco. Entramos num bar-restaurante e sentamo-nos cada um num confortável maple. Veio o empregado e o meu personagem pediu um Jack Daniels numa pronúncia americana talvez nova-iorquina. O mesmo para mim.
Mostrou-me uma garrafa do mesmo bourbon no bolso do casaco. – Esta bebida vai durar.
Desculpei-me que bebia pouco e que aguentava menos ainda. Não gostei do olhar. Que raio, que olhar era aquele!
- Vamos lá esclarecer o problema – disposto a esclarecer tudo de início – vem reclamar que eu matei-o, não é. Mas era lógico ou não?
- Não. – Vieram os bourbons. Com gelo em copos largos. – Não em literatura. Em literatura, segundo entendo queres-te neste campo e não nas historietas. Em literatura o personagem pode nunca morrer. Pode ser eterno. A mim deste-me uma vida curta, um músico de jazz que faz um concerto, dois ou três solos, uma deambulação imaginária como pensamentos do músico enquanto improvisa e depois mata-lo. Por isso vim cá reclamar. – Bebe lentamente. Reparei que fala em bom português.
- Eu sei, um personagem baseado num personagem de filme que por sua vez é baseado num gajo real que se não dá muito a ver que é um músico de jazz.
- Um génio improvisador.
- Aqui estamos de acordo mas tratas-me insuficientemente. – Bebe.
Bebo um trago. O bourbon não tinha ainda dissolvido o gelo e estava demasiado forte para mim. O homem tirou um papel amarrotado do bolso.
- Não me vai ler o poema?
- Não é um poema. Gosto do título. Porque aquela malta a que te referes ao de leve é mesmo isso: improvisadores. É um termo feliz. – Bebe. Começa a ler:
“Entrou no grande bar, sempre pela porta principal, como fazia, ou demasiado cedo ou na hora do espectáculo, fato escuro, camisa branca e gravata escura, tudo amarrotado com arte de quem sabe á muito…” – Que é que isto quer dizer ao certo? – Bebe. Lê: “… ao caminhar os seus braços bamboleavam, era de facto muito grande e sempre com um pequeno chapéu de abas pequenas e um sorriso tímido e eterno. Falava pausadamente
com voz sumida e rouca, dir-se-ia sempre alcoolizado, mas depressa se concluía que
simplesmente acordava assim. O músico simplesmente acordava assim.” – Referes-te a Dale Turner ou ao próprio Dexter Gordon? Baseado no filme “Round Midnight”, não? Ou referes-te aos personagens reais de quem Dexter Gordon imita para compor a sua personagem como o Bud Powell e assim?
- Não vou responder.
O gigante despeja mais um pouco da garrafa, sorrindo e olhando para o empregado de costas e bebe. Torna a ler:
“ Naquela noite, o bar já tinha cerca de vinte a trinta pessoas, alguns acenaram, e ele foi simpático com todos, pediu um copo de água com limão e gelo ao barman, que lhe apertou a mão com calor, e levou-o para o palco. Sentou-se num dos seus bancos
e tratou de preparar o seu saxofone, que tirou da caixa. Bebeu um pouco de água e humedeceu a palheta do instrumento. Dir-se-ia a pensar no que iria tocar. Os presentes assim pensam. De que pensa um músico? Realmente, de que pensa um músico? Os outros músicos foram chegando, primeiro o baterista, alto e barrigudo, abraçou-o. O baixista, o pianista, a velha vocalista e o guitarrista. Todos o cumprimentaram, como a um irmão mais velho, a mulher beijou-o, segurando-lhe na cara, ele disse uma piada, todos riram. O bar ia enchendo. Os músicos, iam tocando os seus instrumentos, preparando-os para o concerto. Uma cacofonia leve, já era em si um pequeno espectáculo, sempre que o homem grande soprava o seu sax, alguns do público, sorriam,
e viravam-se para o pequeno palco. Homens e mulheres, sedentos de som, viravam-se para o palco.” – Isto é uma vulgar descrição do começo de um concerto de jazz num pequeno bar mas nada de poesia. Bebe. Continua:
“ O dono do bar, gordo, barba de três dias, fato de mau gosto…” – lugar comum – “… aproximou-se do microfone e anunciou, que o concerto iria começar, todos aplaudiam,
anunciou a banda, um por um, todos aplaudiram, por último o grande músico de fato amarrotado e chapéu, todos aplaudiram, demoradamente, anunciou um provável alinhamento dos temas, sorrindo que talvez não fosse assim e aplaudiram. Aplaudiram,
é o que fazem os que assistem. O músico saxofonista soprou e solou o começo de um standard que todos reconheceram às primeiras notas, dois minutos depois, lentamente a banda foi participando, entrando cada músico, formando um compacto de harmonia.
O minuto final do tema, novamente um solo do sax em crescendo, terminando ruidosamente, num caos free. O público aplaudiu. Dois standards depois, vinte minutos depois, os homens e mulheres conversavam e ficavam atentos, conversavam e voltavam
a tomar a sua atenção, ia-se bebendo e bebendo, após uma terceira aceleração, deram entrada a uma introdução melódica de Tenderly, com vocalista de olhos fechados deixar a alma pairar no ar. O músico alto, sempre de chapéu, agora sentado, sorria. Terminaram em apoteose, alguns que aplaudiam, levantaram-se, fazendo alarido. A eanda agradeceu e anunciaram um breve intervalo. Todos se aproximaram do balcão
E beberam em silêncio, sorrindo. Após a pausa, anunciou-se uma longa improvisação
sobre Roud Midnight, aplausos, assobios amigáveis e um silêncio possível. O velho músico atacou o tema, melodicamente, a banda certeira em harmonia, pouco a pouco o tema ia-se transformando, como uma serpente longa e lenta. Um som doce, embalador.
Rico e enérgico. Que pensaria o solista nestas ocasiões? O que alimentava a sua música,
de blues eterno, sem vacilar? Que pensaria? Doce improvisação. Uma escada para o exterior. Um lamento solitário. Um copo bebido ao lado de Miles Davis, de costas voltadas, bafejando a sua antipatia, empurrando os admiradores para o caldeirão do seu ácido de gelo. Fumando cigarros longos, de poeira química que lhes assaltava os pulmões. Que pensaria o velho músico, de fato amachucado e chapéu pequeno e sempre silencioso, como se bastasse expressar-se, usando o sax tenor, seu inefável amigo? Era novamente um menino, perdido no corredor de chão polido, de madeira rangente, longo corredor, com milhentos quartos de gente a despir-se, mulheres de soutien, velhos a dormir, bafos quentes e sombras, todos expulsando-o, mandando-o brincar com a sua corneta de plástico, e lendo os seus livros de desenhos violentos, para longe. Para longe, miúdo. Sai a voar pela varanda de metal, agarrado à cauda do cão atroz que te mordeu um braço num dia de calor. Que pensa o músico, de olhos tristes, numa calma de vazio azul? Voava, e deixava-se cair, voava e caia quando não queria, sempre a força a puxá-lo para baixo às catacumbas das ruas sujas entre prédios molhados da chuva que nunca terminava de cair. Longas tranças, a sua bela amiga tinha, nos campos de papoilas e margaridas, por detrás do moinho velho. Daqui vê-se a outra encosta, verde de musgo e casas pré-fabricadas com gordas mulheres a estenderem roupa. Um beijo raptado e um olhar de céu. Que pensas, velho tocador de blues improvisado?
Na morte tão perto, nos quartos bafientos de paredes húmidas, com janelas ruidosas para as ruas de perdição, nos maços de notas contados com lentidão após os concertos tristes de público que não ouve a tua música, apenas quer um preto ali ao fundo, a soprar um sax ou um qualquer trompete em surdina, coisas melodiosas e fáceis que nos embalem o vapor do álcool, ou o corpo quente de uma qualquer deusa de pés calejados
e que ressona solos imaginativos? Que pensas? Em Round Midnight? Quantas vezes reinventas essa negra fogosa? Em Summertime, triste lamento negro e só? Em Night and Day, melodias nos prados da colina a pique? Em Body and Soul, mais uma vez, e mais uma vez, a luta entre o que cai e o que não se levanta, o que persegue e o que é sempre capturado, que pensas, homem velho de beiça ferida, tropeçando no beco escuro? O que vai na mente, da mente que vai da mente da mente mais profunda, medo que a dor retire o ar do pescoço, e caia duma só vez, no último concerto? Como será esse dia, a queda, os braços levantando-o no ar, paredes de caixão de madeira morta,
terra para cima e um solo a lembrar, vindo do céu ao escuro como breu, underground azul de luz suja. Quantas pausas farei, num só solo para respirar, até parar? Quantos standards este público demonizante aguentará até se cansar e o expulsar do reino dos úteis? Venha carne nova, máquinas de sons perfeitos, para corpos perfeitos dançarem
até que o dia se estenda à rua dos néons apagados. Quanto mais tempo terei, morte?
Tens pouco, puro desgraçado. Tens pouco, puro desgraçado. Ouvi à primeira. Sei que ouvistes, tudo sei. Sei que ouvistes, tudo sei. Então, porque te repetes, morte? Repito para não falhar. Repito para não falhar. Meu Deus! Dizes bem e nunca falhei à primeira.
Se falhar contigo, serás o primeiro. Agora cais.” - Para um autor que diz que não mata personagens que me dizes a isto? Nem me deste uma vida digna, quem sou eu, o personagem do personagem do personagem, uma figura de banda desenhada, o grande Dexter ou o quê? Qual é o fim? Nascer e logo morrer, apenas isto? A minha vida foi só isto? – Bebe. A garrafa ia menos de meio. Eu fingia que bebia e mesmo assim acho que estava colado ao sofá.
- Vou só ligar para o emprego. Estou a ver que vai demorar. – Liguei e pedi o resto da tarde. Bebo um trago. Cada vez sabia melhor o raio do bourbon.
O Dexter-Dale-o-raio-que-o-parta agora sorria. Foi exactamente assim que o imaginei. Mas nem sempre um autor, se é que o sou, está preparado para ser questionado por um personagem. E não era a primeira personagem, como se sabe.
Consegui dizer a seguinte frase: - Leia o resto do texto.
Ele leu, antes bebeu mais um pouco do Jack Danielíssimo.
- “ O solo prolongou-se por belos treze minutos, o velho músico inclinou-se com o sax para trás, levantaram-se todos a aplaudir e cai, sempre segurando o saxofone. Rodearam-no, e não conseguiram tirar o sax da mão, tal a força com que o segurava. A ambulância chegou tarde, já era um corpo a caminho dos solos eternos, com bares abertos até de madrugada. A vocalista chorava com o seu chapéu na mão. Nessa noite, o bar fechou um pouco mais cedo.”
- Mestre improvisador, ainda pode ser ressuscitado. Agrada-lhe? De repente, apetece-me fazê-lo. Que acha? A sua intervenção à base de Joaquim Daniel está a fazer o seu efeito. Aceite antes que me arrependa.
- Aceito pois. Um brinde?
- Melhor, vamos conversar. Conhece Lisboa?
- Se for o Dexter sim. E estou no Hotel Tivoli, junto ao rio… e uma estação de comboios enorme, que os pilares parecem ossos de baleia gigantescos.
- Temos de decidir quem és. Para já um maravilhoso improvisador algo alcoólico.
- O Jack terminou. Eu pago a conta. Em dólares. Dinheiro vivo. Estou a brincar. Garçon! Chama-se assim?
Levantei-me. – Pode ser. Mas que nome lhe darei? Meto-me em cada uma.
Depois de pagar, apertou-me a mão e sorriu como já o tinha imaginado. Estava de volta.
Saímos para a rua. Agora chovia. Escureceu rápido.
Gritei a um táxi.

Set. 11

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talvez talvez

talvez sim

talvez não

talvez talvez

talvez talvez se faça o que se promete

prometi ir a piodão aldeia esquecida na montanha da serra do açor e fui

confesso que nas curvas apertadas a estrada apertada o precipício mesmo ali o coração apertado afinal éramos três e se caísse por ali abaixo sozinho era só eu mas não era só eu éramos três

andando devagar chegámos bem

no largo provei três licores e trouxe um demos uma volta até cansar as pernas e almocei uma chanfana picante a vista fica-nos

sair foi a mesma coisa com o coração apertado e se vem um carro em sentido contrário e se não cabe

aconteceu mas coube e a vista fica-nos

chegamos bem a casa e piodão no coração ou na mente a bailar nos sonhos com contrabandistas e criminosos fugidos a pé pelos montes esfomeados e em sobressalto por causa dos lobos e dos ursos mas já não há lobos e ursos e as gentes chegam de turbo-diesel alemão e babam-se a ver as casas de xisto e ardósia

talvez sim

talvez volte

(set. 11)

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Gente

Vou povoar o meu silêncio. Há tanta gente por aqui e uma imensa solidão. Um espantoso deep blue sea morno e lento. Parece que habito um país de gente que não quer ser gente. Como se pedissem desculpa por ser gente. Pedem com as suas existências.
É preciso mais pessoas nas pessoas. É preciso ser-se mais em si. Povoar o conteúdo. Anda só como o centro da multidão. Por isso vou povoar o meu silêncio. Vou começar por dar dois bons gritos. Um sabe sempre a pouco. Depois logo se vê.

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Pablo & Cristina

não tens onde ficar, pois não

não

pablo dizia chamar-se pablo estava a ler camus num livro de aspecto miserável mesmo no lugar defronte do de cristina del mar

pablo por vezes encolhia as pernas, vestia calças de ganga e camisola grossa creme, barba e cabelos penteados para trás, oculinhos redondos, um puto típico meio freak-hippie em colapso existencial

cristina meteu conversa

- olá, gostas de camus

pablo olhou com sorriso cristina

cristina tinha aspecto de ter perto de trinta, bonita, meio loura, arranjadinha, com mala arrumada ao lado, lia livro que não se percebia autor

- gosto deste, o estrangeiro que não gostava da mãe

pablo só trazia um saco enorme, reparou cristina

- já li esse, não era bem o facto de não gostar da mãe

- eu sei, disse o que me veio á cabeça e você que lê?

- você? chamo-me cristina

- pablo

-trata-me por tu

- vem de beja também?

- sim, tive um trabalho em beja

- eu ando a viajar, espanha, algarve, alentejo e agora para Lisboa

- para casa

-não, não moro em Lisboa

retornou ao livro, mas passados segundos abandonou-o

- já li isto, sabe bem não ler

- está à vontade, desculpa interromper-te

- não, estava a precisar de parar, quer um café, queres um café, vou ali ao bar

- não, obrigado mas vou comer, queres uma sandes

mexe num saco, estica uma sandes triangular embrulhada em celofane

- atum com tomate, essa

tirou outra, e sorriu, pablo reparou que tinha um sorriso bonito algo nervoso e tímido, aceitou a sandes

- só falta a cervejinha, brinco, obrigado

cristina acenou, com a boca cheia, qualquer coisa que quereria dizer que concordava

comeram em silêncio

- viaja em trabalho, viajas, custa-me a habituar

- sim, sou jornalista freelancer, aceito trabalho e faço-o, fui a beja entrevistar um autor e fazer uma apresentação dum livrito que editei este ano

- poemas

- sim, poemas, um livro pequeno, tem saído bem, uma edição pequena, nada de especial, e o pablo, que fazes?

- viajo

- só

- só

um pouco de silêncio 

- há um filme que fala destes silêncios, a minha vida está complicada e agora viajo e penso o que vou fazer a seguir, apenas isso, tenho família no norte

cristina ouvia, observando-o

- nem sequer há uma crise de identidade ou existencial, apenas uma pausa

- há quanto tempo andas assim

- vai para dois meses, mas não quero morrer num autocarro abandonado numa floresta à fome, como no filme, viste-o

- sim, um bom filme

- obrigado pela sandes, esta viagem é cansativa, dizem que esta ligação vai ser descontinuada

- dizem tanta coisa, estamos a chegar, ficas aqui

- em Lisboa

- sim, na gare oriente

- sim, queres ajuda com a bagagem

cristina disse que não mas pablo insistiu e pegou numa pesada mala com rodinhas

atravessaram a estação, desceram foram juntos até aos táxis

- fico aqui, vou ver o rio

cristina sorriu

- agora pareces mais velho, obrigado pela ajuda

- obrigado pela sandes, vou-me

beijaram-se na face

- não tens onde ficar, pois não?

pablo sorriu a resposta

- sem problemas, tenho algum dinheiro, faz parte dos planos

- dos planos de não ter planos, anda, vivo num apartamento enorme que pertence a uma senhora de idade, ela arranja-te um quarto pelo menos para hoje e depois segues a tua viagem

- vou interferir

- nada

ajudou cristina a põr as malas na bagageira do táxi e entrou

observou as colunas de cimento da gare, as frentes dos prédios coloridos, o rio, as avenidas largas, os silos de cereais, os navios de carga, os contentores, a estação de santa apolónia e depois o táxi começou a subir

cristina falou-lhe um pouco do seu livro e de como se inspirava por observar os telhados do bairro na encosta onde estava alojada

pablo encostou-se ao saco de viagem que pôs a seu lado, confessou-se cansado e desejou ler os poemas

estranho ter onde ficar pela primeira vez desde há semanas

apesar de gostar de cristina sentia-se em desconforto por abandonar a rua

a noite escureceu como se tivesse pressa 

chegaram, cristina pagou o táxi

- é aqui, lá em cima

subiram

cristina abriu a porta e entraram para uma sala ampla com grandes janelas e ao fundo uma escada de madeira

pablo largou o saco e a grande mala de cristina e observou a paisagem por uma das janelas

- meu deus

- pablo, valeu a pena

pablo sorriu e cristina reparou que era um novo sorriso

por hoje já tens onde ficar, miúdo, pensou cristina, e afinal que idade deves ter tu, cada vez me pareces mais velho

- posso abrir

- podes

pablo deixou o olhar escorrer pela encosta e atravessou o rio voando num voo planante

foi para dentro

ago. 11

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Pablo e Cristina

Nem até ao findar da noite Pablo e Cristina dormiram juntos. Dividiram o tempo entre falatórios, livros e o jantar. Fica já dito. Fica também por aqui essa treta de escrever sempre em minúsculas inclusive os nomes próprios e não finalizar as frases com ponto final. Apenas a mudança de parágrafo por causa da mudança de assunto fica no critério absoluto do autor. Eu é que decido que raio de assunto é que quero que termine e que outro assunto desejo que fique junto no mesmo parágrafo. Não é convencional, paciência, vão ler Tolstoi.

Voltemos a Pablo e Cristina. Estava afirmando que não dormiram juntos. De facto, não esfregaram os seus corpos nus um no outro nem mediram a pele com o tacto nessa noite. Pouco depois de Cristina ter dito a Pablo para se pôr à vontade, entra uma velha senhora meio curvada, vestida de castanho com um sorriso simpático. Diz boa tarde jovem, é bonito sabia. Pablo esticou o braço e cumprimentou-a. Muito prazer, chamo-me Pablo. A senhora pequena e magra, disse chamar-se Otília, viúva faz para vinte anos e dona daquele andar restaurado, um dúplex com biblioteca e do andar de baixo. Gosto que fique cá gente, fazem companhia. Cristina aparece e diz que Pablo é um amigo e que precisa de ficar pelo menos uma noite. Ficas no quarto dos hóspedes à vontade e observou Cristina como que procurando algum tipo de aprovação. Ela assentou. Hoje convido-vos a jantar, dentro de meia hora, vai cá estar um amigo, pintor, veio-me trazer um quadro belíssimo e caro. Sorriu para Pablo que retribuiu. Saiu e Cristina observou Pablo. Não te preocupes, tudo gente louca e simpática, a comida é boa, o quarto que dona Otília fala é este… Saíram para um corredor e entraram no quarto mesmo ao lado á direita. Embora a porta esteja fechada, dá para a sala e tem casa de banho, televisão, é grande, a vista já conheces, instala-te toma um duche, descemos dentro de meia hora.

Desceram. Edgar, de bigode e óculos de grifes, barrigudo, com ligeiro sotaque afrancesado, cumprimentou-os efusivamente. Sentaram-se á mesa. Inicialmente as atenções viraram-se para Pablo que contou como dormiu ao relento nas primeiras noites de viagem, saiu do Porto para Lisboa em boleia de camiões, só apanhou loucos e em Lisboa apanha comboio para paris, melhor viagem melhor conforto e muita leitura, conheceu umas raparigas francesas e estúpidas mas partilharam comida, bebida e músicas. Edgar quis saber se tinha amado alguma delas, mas Pablo explicou que eram muito novas, embora uma delas nunca mais se descolou dele e parecia que precisava de colo, esteve sempre abraçada, saem em Paris e elas desaparecem. Andou dias pela cidade, dormindo onde calhava, viu tudo, inclusive o velho cemitério de Pére Lachaise… Otília rectifica-lhe a pronúncia. Pablo continua por contar que apanha comboio para Barcelona e atravessou todo o sul de Espanha à boleia, grande parte do caminho na carrinha duns ucranianos estranhos e bebedores e veio para ao Algarve, Vila Real de Sto. António onde descansou e anda pelo Algarve todo, dormindo na praia, bebendo cerveja e conhecendo todo o tipo de gente verdadeiramente freak, por exemplo um deles um homem de idade, cabelo branco, andava a recolher rapazes para um iate, só rapazes novos e não acreditou quando disse a sua idade e o mandou dar uma curva, numa expressão mais básica e suja. Pablo olha para a velha que parecia dormitar mas ela logo lhe diz que já havia ouvido todo o tipo de linguagem baixa embora não goste. Pablo fez-lhe a vontade, lamentou que raparigas novas sedentas de amor houvesse poucas e mais de meia-idade, estrangeiras e loucas, de toda a forma procurava calma e introspecção e não delírio. Contou também como foi parar a Beja directamente de Lagos. Assaltaram-no e ele perseguiu os seus assaltantes até apanhar um deles que lhe havia roubado a carteira e o saco. Sovou-o e arrastou-o até à esquadra de Lagos onde foi interrogado pela policia, depois de os convencer da sua história, e ter inventado que ia para Beja, porque na verdade não ia para nenhum sítio especifico, o chefe da esquadra deixou-o sair e cá fora tinha um carro para o levar a Beja. Em duas horas estava na estação de comboios de Beja, o policia perto da cidade confidenciou que Pablo tinha batido num membro dum gang perigoso, de seguida lhe fariam a folha, de uma só vez e definitivamente. Por isso a preocupação em saber quem era e a que vinha. Devem ter achado, que tótó, disse Pablo e riu-se. Chega a Beja e anda por Mértola, Minas de São Domingos, Serpa e retorna a Beja onde apanha o comboio e quase a chegar a Lisboa conhece Cristina.

E agora estou aqui e sinto-me muito bem. Então coma, que só tem falado, disse sorrindo dona Otília. Então Pablo atirou-se ao rosbife. Bebiam vinho e foi a vez de Edgar falar dos seus quadros, embora sorrisse imenso e de vez em quando gargalhasse como trovão mais tarde Cristina admitiu que o achou chato no discurso.

Ao fim do jantar, Otília despediu-se e foi dormir. Edgar saiu e Cristina e Pablo voltaram ao dúplex. Pablo foi buscar o saco e dirigia-se para o quarto mas Cristina chamou-o para lhe mostrar o apartamento. O salão, a salinha de leitura, a enorme lareira e subiram as escadas, uma enormíssima águas-furtadas cobertas de livros e ao fundo um quarto e casa de banho. Pablo emudeceu. Referiu-se ao local como sendo um paraíso e que nunca sairia de casa se ali vivesse. Sentaram-se num sofá velho e confortável.

Queres um Porto.

Se beberes.

Cristina esticou-lhe um copo pequeno com o Porto de cor marrom.

Tens tudo Kafka, Hemingway, Eça, Saramago, os poetas…

Era tudo do marido da velhota, a minha biblioteca é aquela pequena estante perto do quarto. Falaram mais um pouco acerca de literatura comercial que desvirtua leituras e Cristina começou a bocejar. Afagava os cabelos de Pablo.

Puxou por um dos braços e conduzi-o ao quarto. Sentaram-se na cama e beijaram-se.

Cristina levantou-se e entrou na casa de banho. Quando chegou Pablo dormia deitado em diagonal. Sorriu. Despiu-se, vestiu uns calções e uma velha t-shirt branca. Empurrou-lhe as pernas e deitou-se a seu lado. Encostou-se e adormeceu.

Bem, acabaram por dormir juntos mas o autor não mentiu.

Ago. 11

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Pablo? Onde está Pablo?

Cristina acordou pelas quatro da madrugada e nada de Pablo. Onde está Pablo? Na mesa-de-cabeceira do seu lado, um papel:

“Obrigado. Não posso parar agora. Mas fico com muito por te contar. Dentro de um mês estarei aqui (um número de telefone). Pablo.”

Em baixo do bilhete o livro de Pablo: “O Estrangeiro de Albert Camus”. Uma edição recente mas usada. Cristina folheou o livro, nenhum pape, nenhuma nota, dedicatória, apontamento na margem. Passou os olhos rapidamente pela mancha de palavras de cada página, nada de linhas sublinhadas. Porque tinha deixado o livro? Haveria algo no texto de Camus importante para Pablo e naquele momento para ela?

Foi tomar um duche e depois fez torradas e café.

Conversou com a Dona Otília.

- Um rapaz simpático e estranho. Fugia de qualquer coisa. Não acreditei em nada do que contou – disse a velha senhora, bebendo o seu chá preto como fazia todas as manhãs. – Dormiram juntos.

- Não.

- Querias?

- Havia nele uma espécie de perdição que me atraia, como se precisasse que cuidassem dele. Reparou que havia ocasiões em que parecia que envelhecia, enrugava-se-lhe o rosto…

- Foi isso que o denunciou. Aquele rapaz mentiu imenso e tem muito que contar. E foge. É as únicas certezas. Bem que vais fazer?

- Ainda não sei. Vamos ver o que sucede. Mas vou investigar.

- Essa maldita formação ou deformação de jornalista. Eu sabia. Não te metas em problemas. Ou mete-te mas poupa-te, és boa rapariga.

- Obrigado. Desculpe, ter trazido cá a casa.

- Bem, foi imprudente. Somos iguais. Olha o pintor, é uma fraude, não te apercebeste? Estavas ocupada. Agora dou-lhe para trás, cheirou a dinheiro e não me larga. Vai desaparecer assim que souber os preços que lhe proponho pelos quadros. Há gente muito estranha. Sabes onde estou, querida – desceu para o seu andar.

Cristina bebeu mais café e deixou-se embalar por pensamentos cruzados.

Ago. 11

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Há sempre uma outra história

Que estrangeiro era Pablo? Tomos somos um pouco estrangeiros para alguém. Podemos não ter de ser testados se choramos ou não no funeral de um ente querido, ou podemos nunca matar ninguém por um mero acidente ou nunca sermos condenados à morte mas sempre seremos absurdos aos olhos de alguém. Como Camus quereria afirmar no seu livro. Ou teria outra leitura? Certamente que sim.

Onde está Pablo?

No dia em que tudo começou a desaparecer, Cristina investigou no mundo dos jornais e nunca houve este Pablo, não era o seu nome verdadeiro. Quando voltava aos mesmos jornais, pessoas diferentes a atendiam e referiam que nunca a conheceram, o que era estranho.

Quando Cristina voltou ao apartamento com vista para o rio, no andar onde morava D.Otília, deparou-se com uma porta aberta e um apartamento vazio. Velho e vazio. A disposição da casa inclusive era bem diferente. Nem sombra da velha senhora. Cristina ficou confusa. Correu ao andar superior e o mesmo, uma porta aberta e tudo vazio. As janelas abertas e pelo pó um espaço desabitado por anos. E os seus livros? Os seus pertences, tudo havia desaparecido. Fora roubada? Teria de chamar a policia.

- Não vale a pena. - disse certo homem que surgiu do quarto onde antes dormira. Um metro e setenta, cabelos brancos, olhos azuis, óculos de griffes e vestia informalmente.Aparentava ter cerca de quarenta anos. Trazia um livro na mão.

- Não vale a pena chamar a policia.

- Quem és tu?

- Sou quem te criou, o autor. Não vale a pena procurar Pablo, na verdade não se chama assim e criei-o com um objectivo só, conhecer-te no comboio. E depois iria desaparecer.

- Que palhaçada é esta?

- Ás vezes, pergunto-me o mesmo. Senta-te, se o desejares.

Duas cadeiras no meio da sala. Mas não estavam ali antes. Cristina sentou-se.

- Eu escrevo histórias pequenas e alguns poemas. Já por anos. Criei-te para conheceres Pablo e acabei por não saber que rumo dar à história. Venho aqui explicar-te. Podes desaparecer assim que queira mas nunca mato os meus personagens. Dou-lhes vida e deixo que o leitor imagine o resto. A vantagem das histórias pequenas, contos se o são, é que não precisamos de contar tudo. Apenas o essencial para um fim...

- Eu não existo.

- Mas isso não te perturba pois não?

- De facto, não. Não sinto nada.

- Porque não escrevi sobre isso. Apenas quando escrevo o personagem sente ou não. Acho que já criei tantos personagens que lhes devia dar uma vida em conjunto digna e feliz.

- Aceito. Posso conhecer o Pablo, por exemplo.

- Podes. Vou pensar.

- Afinal quem és tu?

- Ah, sim a velha pergunta - o autor, ou seja eu dei-lhe o livro para a mão. Ela pegou nele e observou-o. - Um estrangeiro. Um "residente forasteiro". Sabes que inicialmente o livro que tinha na mão não era este, mas agora é este. Faz mais sentido neste momento. O outro era um escrito por mim mas este surgiu na história. Compreendes?

- Acho que não. Que pensará o leitor?

- O leitor é livre. Quem sabe o que pensa os leitores?

- E eu?

- Vive.

- Obrigado.

Cristina fechou os olhos. Quando os abriu acabara de acordar. Sozinha. Um livro na mesa de cabeceira e um recado. O sol entrava a medo no quarto e enchia-o de sombras e bailados de luz.

Ago. 11

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Olha só o que me lembrei

Pablo tirou as três telas do Ford Capri verde. Não foi fácil. Mas Pablo apesar do seu metro e noventa e dos seus cem quilos era ágil e afoito. Pablo não se chamava Pablo. Os amigos chamavam-no assim porque gostava de pintar. Uma espécie de alcunha. Pablo chama-se de Paulo Vinte. Filho de Manuel Abrantes Vinte e de Maria de José Ramos Vinte. Pablo vive sozinho desde os seus vinte e dois num enorme apartamento alugado com dois amigos, sendo um deles uma ex-namorada. Gustavo e Nela. O quarto maior ficou para Pablo por causa das suas pinturas. Pagam a mesma quantia e dividem mais ou menos as tarefas. Há um caos próprio naquele apartamento para quem chega de fora. Mas para os três, era bem diferente. Ali carpiam as mágoas e viviam as horas.

Até um dia, em que tudo mudou. Porque razão – a não ser o mais improfícuo acaso – um motor de um avião consegue matar 3 pessoas que bebiam as suas cervejas geladas numa varanda na mais pura tranquilidade? Este foi um dos flash do negro sonho com que Dolores de sessenta e oito anos se lembrou assim que acordou naquele dia de chuva e trovoada, também ela moradora naquele bairro, Chelas. O seu neto riu-se ao pequeno-almoço, enquanto engolia os cereais.

- Avô, não podes ver o Donnie Darko… - o filme tinha dado na noite anterior num dos canais generalistas.

Dolores não entendeu o sentido da suposta piada. Bebeu o café em silêncio.

Out. 11


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O menino que diziam ser poeta

Deram-lhe um prémio por ter apenas dez anos. O menino disse que o livro que lhe mais ofereceram era de um poeta complicado, que não era para a sua idade, tinha de crescer para o entender. No outro dia saiu no jornal que o menino poeta havia dito que queria crescer para entender o maior poeta do país. Na cerimónia de atribuição do prémio, onde esteve jornalistas da televisão, perguntaram onde se inspirava para os seus poemas. Disse o menino, aprendi com a minha avó. Num jornal escreveram que se inspirava nos mais velhos, como a sua avó. Não foi isso que eu disse, aprendi com a avó a fazer quadras e rimas mas como as rimas soavam estúpidas, deixei de fazer rimas. Relataram que após as rimas, o menino poeta improvisava outras formas de poemas. Eu invento e ponho palavras de que gosto ao pé de outras, dizia o menino. Escreveram que o espírito de observação era bastante maduro para a sua idade e que usava a sua fértil imaginação ao serviço do lirismo. O menino disse que o que iria fazer com o valor do prémio, dou à minha mãe e ela fará o que quiser, gostava de ter uma bicicleta. Os jornalistas destacaram a generosidade e desprendimento do poeta aos dez anos. Num semanário famoso, saiu em letras gordas: é possível ser poeta aos dez anos e uma foto do menino com uma caneta na mão a escrever. Aquela caneta não é minha e nem sequer escreve, foi o senhor do jornal que me emprestou e pesava toneladas. Nada disto saiu no jornal apesar das gargalhadas dos presentes. Quando começará o livro seguinte e qual será o assunto, perguntaram. Agora quero brincar, porque começaram as férias grandes e quero visitar o meu avô que está doente. Na reportagem seguinte, num dos diários de maior circulação saiu a noticia que os próximos poemas do mais jovem poeta premiado da nação seriam acerca da sua relação com os mais velhos e o seu mundo de criança que cresceu mais do que é costume crescer.

Dias depois, mais uma notícia acerca do dia-a-dia do pequeno poeta no interior junto aos seus avós a brincar entre as oliveiras e a deslizar colina abaixo na sua nova bicicleta.
Entretanto estoura um ataque terrorista a duas enormes torres na Babel da América e os jornais apontaram os canhões a outros interesses e preocupações. O tempo passou, o pequeno poeta transformou-se num jovem homem amante ainda de poemas mas nunca mais ganhou nenhum prémio e nem nunca mais foi notícia. Passa o tempo de concerto em concerto e deixou crescer o cabelo. Editou um livro que foi um sucesso entre amigos e conhecidos: O menino que nunca foi poeta. Ignorado pelos jornais e dilacerado por alguma crítica: ingénuo, repetitivo e carregado de ironia datada, foram algumas das palavras que o rapaz pôde ler numa revista e em dois suplementos culturais. Não importava, costumava dizer nos corredores da sua universidade. Agora o que interessava era quem seria aquela egípcia de olhos verdes e corpo felino que acabara de passar. Talvez fizesse um poema acerca dela, mas primeiro teria de a conhecer e de beber da sua beleza. O que veio de facto a suceder, conforme me disse um pardal, não o mesmo de sempre, mas um dos seus descendentes. Espero eu que possam ter muitos filhos poetas de quadras amadas.

Maio 2010

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O miúdo de onze anos

Chegou perto da hora do fecho.

- A minha mãe?

A mãe havia saído.

- Espera que eu ligo-lhe.

Vinha carregado com mochila. Dessas que pesam toneladas. Servem para levar coisas para a escola. Da escola para casa. Aprendem que a vida consiste em carregar coisas pesadas vida fora.

- Ela disse que ia buscar-me às dezoito e trinta mas se eu saísse mais cedo para vir para aqui.

- A tua mãe saiu e já se despediu mas não há problema esperas um pouco que eu ligo.

Ivan ligou. Não atendeu no número da firma. Não atendeu no número pessoal. Não atendeu no número de casa.

- Não atende mas espera um pouco. Podes sentar.

O miúdo vinha carregado com três grandes almofadas que estavam lá na escola.

- Eu fico aqui em pé.

Ivan observou-o pelo canto do olho, o seu. Pareceu-lhe uma lágrima no canto do olho, o dele.

- Vá lá, senta aqui e não te preocupes.

Voltou a ligar. Foi falar com a colega da mãe.

- Esqueceu-se do miúdo. - Que mania as mulheres têm de verbalizarem tudo o que pensam.

- Traz o miúdo cá para cima, fica aqui na secretária da colega que está de férias sempre faz uns desenhos enquanto eu vou ligando.

O miúdo lá subiu o lance de escadas. Queria levar tudo lá para cima.

- Deixa estar aqui, não faz mal, fica aqui ao cantinho.

- Está bem.

Foram ligando para a mãe. Desta vez várias colegas. Ivan deixou de ligar e enquanto trabalhava pensava no miúdo. Viu-se com onze anos e a sua mãe a não aparecer na escola. No seu caso não haveria problema, com essa idade ia para casa e já tinha chave.

- O miúdo tem chave?

- Não.

- A casa dele é longe.

- É.

A colega da mãe ligou para a escola.

- Se a mãe aparecer, é para dizer que o filho está no emprego da mãe.

Ninguém apareceu na escola. As horas fatídicas chegaram. Todos os colegas saiam. O miúdo fazia desenhos.

- Já lanchaste?

- Já.

Ficou a colega da mãe, o miúdo e Ivan.

Ivan foi-se despedir.

- Queres que te ajude nalguma coisa?

- Não é preciso, espero um pouco, sei onde mora, ele fica comigo, se for preciso vai comigo festejar a consoada. - Piscou-lhe o olho.

- Bem, não posso ajudar em nada, vou-me.

Despediu-se da colega. Disse adeus ao miúdo, bateu-lhe no ombro, desenhava um dinossauro com precisão. Apeteceu-lhe abraçá-lo.

- Não há nenhuma borracha.

A colega ficou à procura da borracha.

Ivan desceu. Vestiu o casaco e picou o ponto. Fechou a luz e sai. Uma tarde fria.

Devia ter abraçado o miúdo. Parecia precisar.

Quando chegou a casa, contou a história.

No decorrer da conversa pronunciaram-se nomes feios.

Bem, pode acontecer a qualquer um e parece que já não era a primeira vez.

Será que estes momentos se esquecem – questionou-se Ivan - ou este miúdo irá crescer
e irá esquecer da sua envelhecida mãe um dia, quando ela tiver alta do hospital e esperar que a venham buscar? Que farão as enfermeiras?

Um lápis e uma folha? Que desenhará a velhota? Uma folha de árvore caída suja e abandonada ou não fará nenhum desenho. Sem idade para isso.

- Ele deve estar a chegar.

Dez. 10

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(a trama noturna dos livros)

Os livros esperam que a livreira saia para se portarem livremente mal. Assim que a porta se fecha, a loucura e o caos é respirado folha a folha. Os bigodes do chato alemão rodopiam, o tal da ausência de deus na sua própria existência. Os livros divididos por tamanhos e cores, por prosas e poemas de poetas nus na capa a pescar em praias orientais, arrimam-se aos confins do conforto das madeiras. Alguns atiram-se como se piratas fossem. Um bombardeio sanguinolento de palavras e muitos reféns do peso das prosas velhas que esmagam pelo peso do papel bom que já não se usa. As poesias novas mais leves e mais ágeis inovam nos ataques que ninguém nunca pensou. Atiram folhas de estante em estante e as folhas misturam-se. Cuidado com o livro acastanhado e grosso do poeta de barbas que nunca se vê. Tudo come, o velho, apanha as metáforas no ar e recria-as tornando-as elásticas e bombas que deixam muitas vítimas. Uma delas uma senhora de idade com avanço que ao passar na rua, visionou o espetáculo. Os livros estavam no auge da dança e nem repararam. Nem disfarçaram e a senhora benzeu-se. E como não fazia há muito anos: correu e aleijou os joelhos já perto do largo do rato porque as articulações não aguentam tanto. Como todas as noites pela madrugada, os livros tomam estas atitudes de orgia, vários vagabundos e saltimbancos dançam comem bebem dormem e sexualizam perto da porta da livraria. Apenas avisando que o dia está a nascer e é bom que as folhas voltem à forma e livro original porque se bem que certos leitores não achariam diferença outros de certeza que processariam a dona da festa doida por não gostarem de ver um soneto no livro do autor prosador de dentes gastos e de cigarro nas beiças um dos melhores de sempre que alguém estragou mal sabendo que são os próprios livros que se conspiram a si próprios na ausência de quem os põe no lugar próprio. Como não há leitores, a coisa passa e já por anos. A policia é chamada ao local e nada se vê. Já ninguém acredita na pobre senhora de oitenta e cinco de joelhos esfolados que bem repete: avisem a livreira do que se está a passar. Mas consta-se que ainda ninguém o fez. Os livros do velho argentino nunca foram tocados porque o velho que via mal e é intocável, julgo eu invencível. Mas há noites em que os gatos se transformam e tudo pode acontecer. Mas ai deles se tocarem e trocarem o meu poeta louco e de cabelo estranho. Juro que serei eu a avisar a jovem livreira do que se passa antes que me expulse e feche às sete-chaves a porta.
Bem, é isto que se passa e lamento ser eu pobre autor dum livro que ninguém se lembra e que tomara que se misturasse com outros de lombadas e manchas de letras mais sábias, a avisar a livreira do caos libertado sempre que as luzes se apagam. Eu apenas sugiro, um dia uma noite passe por lá e sem que ninguém se aperceba, espreite e depois conte o que viu, experimente dona livreira, vai ver que não se arrepende.

Fev. e Jul. 11

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de que vamos falar então

- Olá, quando tinha a tua idade ou um pouco mais novo gostava dos Ramones…

- Não conheço.

- Eram punks…

- Panques?!

- Não… Punks… P.U.N.K.S. Sabes o que é…

- Não, nunca ouvi falar.

- No future?

- Quê?!

- Uma espécie de movimento juvenil artístico contra o sistema estabelecido clássico, antiquado, frouxo, que havia baixado os braços à mudança…

- Giro…

- Havia outro grupo que eram os Sex Pistols…

- Pistolas?

- … sim… que tinham uma canção que tinha um refrão: No future… e tal, acabou por ficar a ideia e uma geração que se achava sem futuro, nunca viste um gajo qualquer com uma crista pintada, assim como os galos, um símbolo típico dos punks…

- Já, já… punks é isso então…

- mais ou menos… ia dizendo que gostava de ouvir os Ramones, que quase não sabiam tocar e as canções eram imensamente curtas, por vezes 1 minuto e meio mas todas elas ficavam no ouvido e andávamos sempre a cantar aquilo…

- Não samplavam?

- Como?... E vestíamos como eles… blusões de cabedal negros com fechos, calças de ganga maltratadas justíssimas…

- Sim, isso já vi… como os Blink 182…

- Esses não conheço… o que é que andas a ler?

- A ler?

- Eu lia poesia maluca, coisas que às vezes não entendia e outras que me davam volta ao miolo, mas…

- Poesia? Quê Fernando Pessoa, já demos na escola…

- Olha, por exemplo, já leste…

- Já não é preciso, foi matéria do período passado…

- E não liam nada…

- Não, o prof não pediu, só tínhamos de saber os nomes dos personagens…

- Os heterónimos… e não tens curiosidade de conhecer porque se fala tanto no homem e o que podes aprender dele, podias criar o gosto por…

- Deixa estar, para o ano…

- Lusíadas?

- Isso é muito chato…

- … e comprido como o peixe-espada (risos).

- (risos) Não vais falar outra vez do Rembrou…

- Rembrandt?

- Pai, não gozes… não é esse…

- Já sei, Rimbaud. Pronuncia-se…

- Eu sei, outra vez essa conversa…

- É que não lês nada… nada de nada…

- Para quê, pai… para quê… é tudo diferente agora, os livros são uma chatice, vou sair…

- Vai… faz o que quiseres, a vida é tua.

- És uma melga, velhote!

No fundo da sala, ouvia-se Coltrane baixinho, coisa de velhos.

(jul. 11)

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Oops, foram mais do que 3 estórias... e esta?...

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