quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Am(AR-TE) tempestade e outros escritos

Abraçar-te arte onda a onda no meu trajeto
de vento e colina em selvagem pincel de correntes
de sopro de anjo raivoso
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amar-te tempestade no meu mar
arranhar violenta a costa magenta de dor
amar-te arte de solidão lacrimejada a cor
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arrasar-te arte em todo o corpo
nu de pavor húmido em vulcão quente
amar-te tempestade até ao rancor
-
das nossas teimosas vontades
das nossas estúpidas cidades
pintadas a brilho e forma
-
assanhar-te arte com os braços
e com as mãos mergulhados na tinta densa
e desenhar com o suor de todos os corações
-
festejar a arte e amar-te tempestade
com os amarelos novos das danças
e os verdes polidos dos dentes em riso
-
amar-te arte sempre em sangue e verve
que ferve nos nossos ombros o peso
das nossas consciências em pele viva
-
amar-te tempestade em todas as horas
com o azul das nossas digníssimas vozes
em grito pela madrugada enevoada
-
amar-te arte até que nasça novo dia
e toda a cor se funda festiva e os pianos
expludam de vez no centro da rua
-
e o vermelho das nossas telas sorria
dentro de todos os passos e cantarás:
amar-te arte com toda a tempestade.


-


Set. 11

Menção Honrosa no Concurso de Poesia da Associação Draca, de Palmela. Com o apoio da Câmara Municipal de Palmela. Prémio recebido no passado dia 22, pelas 15 horas na Biblioteca Municipal de Palmela. Como sempre cheguei 15 minutos atrasado, por andar às voltas e sair no limite de tempo do outro lado do rio. Esperaram. Muita gente simpática. Sorrisos generosos. Uma actuação teatral digna de ficar indelével na memória, da parte de duas actrizes amadoras que pertencem à Draca. Uma associação cultural para perdurar. Numa tarde cheia de brilhantes declamações e muito humor, tirei a seguinte conclusão: esta gente gosta mesmo de poesia. Como tal, senti-me em casa. A poesia vence sempre.

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Igual

Sou igual ao meu pai
Quando o meu pai morreu


foi como se arrancassem as cortinas
do meu rosto e o cobrissem de violentas
rugas
abruptamente e para sempre
O meu pai passou a ser eu
vejo-o no espelho
a pentear-se e a sorrir para as tempestades
do cansaço e da idade
Sou igual ao meu pai
finalmente tenho os traços
de tempo do anterior antepassado
que passo a ser eu

(sem qualquer valor poético a não ser tudo o que se passa no meu coração figurativo. meu bom pai (1928-2005) talvez morra eu de saudades tuas desde que desapareceste no nevoeiro dos tempos.)

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Subúrbio Feliz

Comecei a trabalhar aos dezasseis anos
e uns anos depois atravessei o rio da noite
usando como mapa um velho caderno de
capa negra de cartão.
Vivi uma boa série de anos pestilentos
num bairro de nevoeiro arborizado,
relva suja e cadáveres vivos que se
moviam arrastando relva e pouca alma.
Depois sai porque casei e fui viver
para um dormitório de baratas e
percevejos que falam como homens
e até mulheres, fui de comboio.
Lamento não haver relva pisada e
amantes de vento nos ângulos mais
inventivos do cimento artístico, nem
velhos que dançam rumbas e riem.
Aqui onde vivo primeiro vinha-se
de 4 X 4 apesar do bom piso e agora
anda-se a pé em cima de tábuas
rodadas e as ratazanas piam.
Os homens bebem em antigas tabernas
e as mulheres estendem roupa
alcoolizadas com o vento norte
das suas interiores impossibilidades.
Aqui onde as lágrimas se envenenam
até as crianças falam uma língua
surda, parece-me que composta de
megabytes de muita acumulação.
Ligam os televisores quando os pais
não estão e secam as vidas futuras,
cozendo os seus interiores em horas
passadas numa química dormência.
Juntei dinheiro para me derramar
neste paradísico subúrbio ao vapor
do rio entre uma fábrica de soda e
uma estrada de fuga e culpa.
Meto as mãos nas tintas e espalho-a
na tela dos dias como um cão dos
dias de chuva enquanto improviso
o meu solo na orquestra dos anos.
Comecei a trabalhar aos dezasseis anos,
não me pareceu cedo na altura mas
agora na linha ferroviária antevejo o
grande expresso assobiar só para mim.

Set. 11

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metáforas estúpidas

Os montes abrem-se em sol para ti
como se fossem sexo básico?
O rosto de mulher em dó maior
ou a imaginária gioconda?
É provável que mulher sejas a arte
do sangue da pele do ardente sorriso,
quero dizer que qualquer mulher é gioconda
e que gioconda pode ser qualquer mulher?
Os teus braços estendem-se em coro
e as tuas mãos poliram as colinas
e o teu ventre a parir os mares
tempestuosos num salgado abraço,
meu deus da tempestade, alguém
nasceu neste preciso momento?
Diz o poema que é provável que sejas mulher e
sejas arte de sangue e céu
e sejas o rosto dum povo amargo
pobre e triste e em contínua festança,
povo acalentado no teu regaço
e na protecção dos teus seios
é provável que sejas a arte
dos sempre esquecidos no fim
da linha no fim da linha verde,
de todos os teus campos interiores
ou que vivemos numa terra tão
bela quanto corrompida?
Todos os dias de todos os amplos
raios de sol que varrem os ângulos
da nossa existência de pulgas sós,
não sou eu e não és tu?
És arte de nudez e brilho eterno,
és festa de sentidos e regozijo,
ou será esta mátria uma fogosa ninfa?
De canção com coro arbóreo,
és arte da floresta dos nossos
interiores mais absolutos
mais densos e muito mais nós,
povo das cores e das flores,
ou não fossemos terra de mato e incêndio?
E tu mulher, és mulher e basta,
és poema e basta e é provável
que sejas mais e muito menos
de palavra solúvel em pó,
ou apenas uma curta e insuficiente
metáfora estúpida?
Para ti não tenho resposta
ou não fosse um acaso,
um engano e um mero percalço?



(Se tiver de rir de metáforas estúpidas, que ria das minhas. Tenho muito respeito pelos poetas e sua poesia. Dou-lhes importância e encaro-os com seriedade. Felizmente, para mim não.)

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como está calor


como está calor a janela da varanda fica um pouco aberta
e logo
os sons invadem o espaço
deixá-los
lembra outros tempos em que tinha de dormir à tarde e fingia fazê-lo
mas sorrateiro sempre ia buscar um livro para ler
e o sono não vinha
e os sons da rua ali a sussurrar-me confidências
nunca me incomodaram, o comboio á distância, os camiões de carga, as camionetas de passageiros, pessoas a falarem baixinho e o eco a potenciar os seus segredos, as motorizadas, um cão a ladrar
e o sono que não vem
deixá-lo
há um livro para ler, Sandokan ou Enid Blyton, e sempre um livro ou outro de outras estantes que não era para a minha idade, os meus preferidos
tudo servia
e depois o lanche
após o repouso
abro mais a janela, talvez mais recordações entrem

deixá-las


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