terça-feira, 20 de setembro de 2011

Os LIVROS de Pedro Paixão e outras LEITURAS


Acabei de ler: “Perdido por Xangai”. Não concordo com esta opinião:
Melancolia e uma imensa solidão. Uma forma de existir crónica que vem do interior. Mesmo que no exterior esteja rodeado de gente, muita gente, o escritor nunca deixa de se sentir como que numa redoma suave ou avassaladora de tristeza. Ou então verdadeiramente deprimido. O equilíbrio entre os extremos permite a sobrevivência. Um dos extremos é inclusive bastante violento. Isto existe em todos os livros de Pedro Paixão. Sendo que é muito lido, porque (teoria minha) somos muitos os que nascemos com melancolia crónica e reconhecemos no escritor uma voz preciosa, a nossa voz literária. Um como nós que nos dá voz. Há várias formas de o descrever. Eu sou um desses. Aprendi a gerir a minha própria e doce melancolia. Nasceu e vive dentro de mim. Sempre. Sem intervalos. Só quem sente na pele sabe que não é um exagero. Geralmente somos pessoas calmas que se enervam por vezes tempestivamente em raras vezes. Claro que eu sinto alegria, mas em períodos escassos e curtos. Quando é exigido socialmente grandes doses de alegria em manifestação, entra-se em sofrimento quando o nosso stock finda e o resto é demonstrado em representação por causa da exigência social. E a representação é limitada. Depressa estamos com um sorriso amarelo e o outro questiona-nos porquê, interpretando-o como cinismo ou hipocrisia. Mas não, é o nosso power de alegria que esgotou há muito, e estamos num profundo esgotamento da aparência de alegria. Nasce-se assim. Em certas doses leves mas permanentes como no meu caso, consegue-se fugir aos químicos e com franqueza informar os nossos amigos e familiares que o mal não está neles mas em nós. No mais profundo de nós. Por isso, sempre regresso a Pedro Paixão, a outros escritores e poetas (Kafka, Raymond Carver, Cesare Pavese, por exemplo), a certos cantores (Leonard Cohen, Dylan, Tindersticks, certos fados, certas óperas) e cineastas (Woody Allen, Wes Anderson, Jim Jarmusch e outros, em filmes com o ritmo e o tom certo, etc). Todos estes artistas nos ensinam a viver com este mal de existência. Assumo o erro desta mistura espontânea e caótica destes exemplos. Existem outros que exemplificam melhor em melancolia e spleen.
Segundo certa colega, não se pode ler Pedro Paixão se não tivermos bem psicologicamente, entendo o que quer dizer com este desabafo, mas mesmo quem está de fora deste mundo de suave tristeza crónica regressa sempre ao escritor. Porque a nossa muito portuguesa melancolia, tem um prosador à altura. Pedro Paixão é o nosso Kafka, fala como nós e de nós. É profundo, numa prosa clara, reflexiva, culta e que não nos afasta como outros prosadores mais experimentalistas em que o objectivo é pôr-nos sempre fora do livro, como se o livro só aceitasse uns poucos iluminados com um raro dom em vias de extinção de serem seus leitores.
Em “Perdido por Xangai”, o escritor na sua voz própria, relata a sua viagem a esta estranha cidade duma estranha e diferente civilização que parecem e são o oposto de nós e parecem ser felizes em o viver, por centenas, senão milhares de anos. Disserta sobre o comunismo, sobre filosofias diversas e sobre os dias dos que chamamos de chineses que mais não são que um conjunto de povos numa China que não existe mas sim um conjunto de províncias aglomeradas numa espécie de Império, o Império do Meio.
Para mim que faço pausas na leitura entre livros de Pedro Paixão para que nunca me sature, o último livro lido é sempre o melhor e este não é excepção. Admiro a sua escrita limpa, perfeita. Frases bem escritas, quase aforismos. Há um imenso respeito pela nossa língua, pela nossa linguagem, pela nossa gramática.
Estranho a ausência de considerações, críticas literárias, opiniões acerca deste livro por exemplo, nos blogues, nos jornais, etc. A nossa crítica literária não gosta de Pedro Paixão, portanto. Mas os leitores gostam. E parece-me que são muitos. Mas não se fala do livro. Nos blogues de leituras, limitam-se a copiar o texto da contra capa. Sendo assim para que servem esses mesmos blogues? E porque são todos idênticos, por vezes copiando os textos uns aos outros. Veja-se a quantidade de textos acerca do livro, que começa assim: “Perdido por Xangai é a narração de uma viagem…” Aconselho como poupança de tempo precioso que leiam apenas um, os outros são iguais.
O livro “Perdido por Xangai” tem imensas fotos apanhando o espaço de duas páginas de cenas da vida quotidiana chinesa ou de pormenores, como um rosto, mãos (acho que não existe nenhuma foto de mãos) outros. Enriquece a leitura embora algumas fotos merecessem outro lugar mais digno no livro, em vez do seu lugar apenas decorativo, chamemos assim, espalhadas a eito pelo livro fora. Há imagens que parecem sufocadas e entaladas nas páginas. De toda a forma um conceito a explorar e penso que Pedro Paixão, também sendo fotógrafo (pena tive de não ver a exposição de fotografias com o título de recente livro: “Imagens Proibidas”, que saiu em simultâneo com o “… Xangai”), deve continuar esta ideia de livro com imagem e texto. Não o comparo a “Barely Legal” ou a “47W 17”, esses são livros de fotos com textos curtos, distintos deste último, que foi uma boa experiência, uma espécie de romance ilustrado e espero que repita.

Set. 11

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Texto de Pedro Paixão (de: Noiva Judia)

Livro editado a partir do original de Carver, que seu editor cortou e cortou e publicou como o lemos em: De Que Falamos Quando Falamos de Amor, cá editado pela Teorema.
Anos depois a Quetzal edita o livro com todo o texto de Carver, menos minimalismo e todo o universo de Carver. Mais rico, mais melancólico e um crime literário cortar esta arte. Um esforço épico de Tess Gallagher, sua última mulher. Conforme mostra este belo artigo de Helena Vasconcelos:
 Devorei este livro assim como o tinha feito com a edição da Teorema cuja cola das páginas começou a perder funções. Este livro foi também um dos que serviram de base para o filme do mestre Robert Altman: “Short Cuts”, com um leque de actores fortíssimo (inclusive Tom Waits e o cantor country Lyle Lovett).
A luta da edição cortada pelo editor inicial e tudo o mais envolvido, está bem descrito neste artigo, por exemplo:
(Cada vez gosto menos de copiar noticias e referências na internet e principalmente em “locais” que exigem confirmação real (como?), o que não será o caso aqui do Telegraph, penso.)
Quem não conhece o universo Carver talvez estranhe este mundo centralizado no absurdo do dia a dia e da quantidade de álcool que se bebe em cada conto, mas ficará seduzido pela humanidade em redor do homem comum, uma espécie de Tchékov americano, comparação já muito batida. Para mim Carver é Carver. Um dos melhores contistas de sempre, melancólico, despojado, suburbano (no que isso significa numa certa sociedade americana) e genial (porque não).
E este: O Que Sabemos do Amor, livro belo editado pela Quetzal (em seguida saiu: Catedral), traduzido por João Tordo, com interessantes notas explicativas no final do livro, só merece uma coisa. Ser lido e relido sem moderação, perdão com moderação ou então não conduza entretanto.

Ago. 11

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Cormac McCarthy - Este País Não é para Velhos


Tive de distanciar-me do filme dos irmãos Cohen para ler o livro. Fiz bem, mesmo assim vem sempre à mente a imagem de certos actores quando lemos certas passagens mais marcantes. Mas lido bem com isso. Mesmo gostando imenso do filme. Mas a obra literária dá-nos outro lastro de apreciação.
Como é habitual em Cormac Maccarthy a paisagem é uma das personagens mais importantes e é bem cuidada pelo autor. Como que respeitada. As personagens humanas são pessoas. Credíveis histórias de loosers e exemplares comuns com todas as contradições. Os trechos na primeira pessoa do xerife Bell (no filme de Joel e Ethan Coen, protagonizado por Tommy Lee Jones, um dos seus melhores papéis), as descrições de ambiente e da paisagem e os portentosos e realistas diálogos, são alguns dos pontos altos do livro e também do que mais apreciei.
Há também uma profunda reflexão sobre o presente e principalmente o futuro duma enorme e bela nação cujas fundações foram sempre tendo uma forte relação com a violência e as armas. Neste caso, no enredo do livro à volta do flagelo sem solução que é o tráfico de droga. O escritor não apresenta uma esperança optimista para uma qualquer solução mas apenas um forte e contundente lamento sobre como lidar com tanta morte, perversidade, insanidade e horror. Talvez este livro (e não só) nos prepare para o embate frio de “A Estrada”. Cormac Maccarthy é de facto um dos maiores escritores deste tempo. Mostra-nos num fresco despojado e límpido um pouco daquilo que iremos viver dentro em breve se não contermos o monstro que habita em nós. Resta-nos a humanidade interior e a vontade de querer ser melhor para o outro antes que tudo estoure. Ou já aconteceu?
Vale a pena ler e reler esta espantosa obra.

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Biblioteca - Zoran Zivkovic



Zoran Zivkovic nasceu em 1948 na cidade de Belgrado. Formou-se em Teoria da Literatura. Em 2003 ganha o World Fantasy Award para melhor novela, neste caso o livro: “Biblioteca”. Esteve recentemente em Portugal. Este livro, com menos de 100 páginas, lançado pela Cavalo de Ferro, lembra Borges logo de início. Obra dividida em 6 partes, cada uma representando uma biblioteca: virtual, particular, nocturna, infernal, mínima e requintada. Gostei particularmente da “biblioteca” nocturna.
O autor é o narrador que se perde nas suas bibliotecas. A primeira, virtual. Através de um e-mail misterioso, a sugestão de uma biblioteca onde tudo consta, onde ele próprio existe mas com pormenores de vida pouco semelhantes. Uma outra “biblioteca” particular a partir de livros que chegam à caixa do correio sem parar, criando ao narrador-personagem um caos de arrumação. A versão nocturna composta por livros a serem reescritos ao momento, com todas as vidas inclusive a do narrador. Um inferno-biblioteca para castigo dos que padecem de falta de leitura. Um livro-biblioteca com conteúdo diferente sempre que se abre o livro, vez após vez. Um incomum livro de bolso indestrutível que sempre surge na estante do personagem-autor-narrador e que Zoran decide dar um fim que o satisfaz, após várias tentativas infrutíferas. Uma reflexão imaginativa sobre o mundo dos livros e o prazer, dor e influência que dão  aos seus leitores. Livro que se lê rapidamente e com um gozo único.
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Eu sou a Lenda - Richard Mathenson




Já lá vai o tempo em que me interessava pelas leituras de material fantástico e de ficção científica. Saudosos os exemplares da colecção Livros do Brasil de bolso, dedicada á ficção científica. No entanto, um desses livros que se trocavam com os amigos para ler o máximo de livros possíveis, nunca o li, houve ideias de o fazer mas nunca a oportunidade. Refiro-me a: Eu sou a Lenda, de Richard Matheson.


Richard Burton Matheson, nasceu em 1926, New Jersey. Escritor de literatura fantástica, ficção cientifica entre outros géneros, escreveu por exemplo: Duel, conto de que Spielberg se baseou para argumento do seu 1º filme comercial, o tal da perseguição do camião tresloucado. Escreve também para TV e cinema. Em 1954, escreve: I Am the Legend. Este livro já havia sido base para filme com Charlton Heston e mais recentemente com Will Smith, numa variação da história da novela.


Conta a história de Neville, o último homem vivo na Terra. Uma estranha bactéria transformou a humanidade numa espécie de vampiros mortos-vivos. Neville sobrevive, imune, passando seus dias à procura de alimentos, combustível e protegendo-se todas as noites dos ataques das tais figuras. Recorda os dias de vida normal para conservar alguma sanidade mental, sentindo que é uma linha ténue que por vezes é ultrapassada. Mais para o fim do relato após cerca de três anos, uma outra sociedade descobre-o e depressa se chega a um final dramático. Boa reflexão para uma possibilidade de caos social futuro. A ficção científica tem este valor: E se acontecesse assim? Como seria? Muitas das sagas e estórias fantásticas que se tornaram mitos partiram desta premissa e existem excelentes obras da mais pura ficção científica ou não, que nos assustam, provocam a nossa imaginação e de vez em vez, uma certa reflexão acerca do futuro ou apenas para entretenimento. Considero esta história do mestre Matheson algures no meio. Nesta edição promovida pelo Grupo Impresa ao preço da chuva junto com uma publicação jornalística do grupo a capa trás foto do filme de 2007, realizado por Francis Lawrence, e com Will Smith como Neville. O filme a vender o livro. No fim do livro, três histórias para assustar ou para deixar sensação amarga após leitura. O autor sabe fazê-lo como ninguém.
(29 Jun. 2011)

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"De Frente para o Mar" - Vários Autores


Com a organização de David Rodrigues, 10 autores mostram os seus haikus, debaixo do tema, o mar. A edição deste livro foi patrocinada por: Associação de Amizade Portugal – Japão (após concurso literário), Toyota Caetano Portugal, S.A., Mazda e foi editada pela editora Palimage.
Os autores: Albano Martins, Casimiro de Brito, David Rodrigues, Dinis Lapa, Lécio Ferreira, Leonilda Alfarrobinha, Liberto Cruz, Lucília Saraiva, Luís Domingos e Yvette Centeno.
David Rodrigues, professor universitário, ama os haikus e gere o blogue: Haiku Portugal.
Exemplos de haikus, retirado do livro:

As gaivotas
calam-se
perante o silêncio.
(Dinis Lapa)

luar no Tejo –
sem vento
a água treme
(David Rodrigues)

Apreciei a beleza e a liberdade. A composição e as imagens. Sacia este livro. Para reler com todo o vagar. De frente para o mar.

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Sara Timóteo - Deixai-me Cantar a Floresta



Sara Timóteo, nascida em 1979, escreveu o seu primeiro livro de poesia: Deixai-me Cantar a Floresta, editado pela Papiro Editora e lançado em Janeiro de 2011. Mora na Póvoa de Santa Iria, terra de antigos pescadores do rio Tejo, agora cidade repleta de gente e movimento, frenesim de vida. Aqui, nesta terra de características ribatejanas, não existe a floresta da alma de mitos antigos de que a poeta fala. Excepto no reduto verde e histórico da Quinta da Piedade, terras à volta do velho palácio, cedidas ao longo do tempo à voracidade citadina que tudo consome. Nesta velha quinta aberta aos transeuntes ainda se pode respirar algum ar de sossego e silêncio. Sombras e cantos com estórias por contar, sinais e ruínas, testemunhos de outras eras. Na sombra destas poucas árvores antigas a poesia brotou da alma aberta ao ritmo e respiração das antigas florestas para o livro pelas mãos da autora. Uma poesia com grau elevado de maturidade, com discurso vivo, metafórico, de procura e viagem.

“ Não existe qualquer espécie de paz
no outro lado do espelho

apenas me encontro
iludida
e sem respostas (…)”
(Poema: “Alice”, pág. 31)

Um lamento da passagem trituradora dos tempos, insaciáveis e frios.

“ (…) já os bichos
se entretêm
a comer o tempo (…) ”
(Poema: “Segredamos”, págs. 20/21)

Li esta poesia saltitando entre poemas e depois sequencialmente como que apreciando um único e longo poema, com imenso prazer. Como leitor de poemas, poetas e poesia, pressinto Deus em cada pétala, não fui atropelado pela linha pagã e em evocação de antigos mitos nestes poemas. Desde a capa que retrata em cores outonais um bosque e o seu reflexo no pormenor dum lago ou rio, o livro é uma folha desgarrada da mãe-árvore à solta de mão em mão semeando poemas que ficam na memória diluindo-se nos pensamentos e nas sinapses criadoras de cada mente. Que faça o seu caminho. 

20 Abril 2011

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JLBG

Chovia como nunca. Bebeu o seu chá enquanto observava o recreio da escola do alto do seu décimo primeiro andar. Vazio. Voltou ao seu maple envelhecido. O resto da tarde foi passada mergulhada nas metáforas spleen do poeta. Como um vício.

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Manuela Fonseca - Poesia sem Remetente

Este livro tem ternura, coragem, alma, vida, fogo secreto, sorrisos rasteiros, solidões, pensamentos irrequietos, mãos, castigo, muro da alma, paz dos dedos, repulsa, procura, verbos imperfeitos, pizza e maças, noite, conversa, lágrima, Eu, Invernos, primaveras, horas escondidas, sinais do corpo, gestos, neblina, horizonte ausente, fugir, alcatrão, planos de ruína, espelho, vertigem, memória, eucalipto, gargalhada submissa, mãe, liberdade, quarto esculpido, luares, prenúncios, travesseiro, lamentos, suor, noites de mágoa, nobre, velha gaveta, boémia, provocação, desalinho, euforia repetida, loucura, decência, trato íntimo, interrogação, fina-flor, alienação, andaimes, telas, vozes, morte, orgulho, ódio, retalhos, mentiras, disciplina, perdão, cão, grito, mar, farol, Ser, herança, fados, medo, esperança, fatalidades, crepúsculo, brilho, prazer de olhar, lágrimas de gaivotas, Terra, cataratas, cânticos, poetas, lua, árvores, artérias, vinhas, pavores, cravos, pão, carne negra, fome, valsa, indiferença, gesto, canto, escuro, mel, trigo, abutres atentos, vazio, sete, raiva, sal, vaidades, cabelo, risos nocivos, cinismo, vergonha, silêncio, andar lento, Dezembro, saudade, solidão, silêncio, nostalgia, prepotência, escombros, longe, vestido verde, Sim, mundo, flores, artérias e carnes, anseio escondido, ondas, anos, croché, andorinha, melros, rosto, vagar, vergonha, olhar, força das mãos e vendaval inútil.
Esta poesia tem o coração da poeta e penso que chega para nos embriagar de ternura.

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Uma longa viagem com António Lobo Antunes - João Céu e Silva



Considero este livro, uma longa e brilhante entrevista de João Céu e Silva, jornalista do Diário de Noticias, a um dos melhores se não o melhor escritor português em vida. Queremos saber como é o dia-a-dia do escritor e como pensa acerca disto e aquilo. A longa entrevista ou o agrupamento das entrevistas ao longo de meses, quer na garagem onde terminava o livro: Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, quer em sua casa, no café habitual começam num grande distanciamento do escritor e ganham uma grande proximidade e cumplicidade entre os dois, entrevistado e entrevistador. Começam assim de facto, mas terminam a conversar como dois amigos. Lê-se com todo o gozo essa transformação ao longo de todo o livro. Quinhentas páginas de diálogos, sobre milhentos temas e muitas surpresas que não associaríamos a uma figura da escrita como António Lobo Antunes. Como encara o sucesso dos seus livros, os prémios, a violência dos anos de tropa em África, as agonias que sente ao puxar para fora todos os livros que escreveu, reconhecendo que essa dificuldade se torna cada vez mais complexa, quando será o último?, os medos, as alegrias, a doença que o assolou e o pânico de que volte, o amor da sua falecida mulher, a família, o Estado Português, os escritores que admira, as suas influências e tudo mais a descobrir por cada leitor.
Desatei a aconselhar a leitura deste livro assim que o acabei. Um excelente princípio para se iniciar um raide de leitura pela sua obra, se formos do género de leitores que ainda só conhecemos o autor por causa das suas crónicas.  

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Miguel Manso não é só poeta

Há coisas que ficam na moda e ninguém sabe quanto tempo. Uma delas é afirmar que se gosta de Miguel Manso e da sua poesia, mesmo que não se tenha lido um livro sequer dele. Mas mesmo que se tenha lido um poema ou outro e se confie no que escreve certa imprensa, Miguel Manso é uma espécie de next-big-thing da poesia actual.

Eu quero lá saber o que se diz e não diz, mas gosto da poesia de Miguel Manso. Os seus poemas são estranhos e belos, amalucados e brilhantes.

Como por exemplo:



“MEDITAÇÃO
o amor é como o trigo
a alguns já lhes chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão

esses sabem-no pela televisão

PROVISÃO DE HÁFIZ
os nomes
os navios
as águas

estão a sentir?


FOTO DE BREVE EXPOSIÇÃO
repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe

CADERNO DA BIBLIOTECA
ser poeta sei agora
é mais do que usar amiúde
a palavra fímbria”

(do livro: Quando Escreve Descalça-se,  editado pela Trama)



Além disso o poeta desenha e pinta. Alguns exemplos podem ser espiados no seguinte blogue:


Coisas destas não se podem desperdiçar, não acham?


Ago. 11


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3 Blogues


Dois autores, carregados de simplicidade, honestidade e humildade. António MR Martins e Vera Sousa Silva.
António MR Martins escreve com pés de lã na alma, é um autor gentil, acaricia as palavras, apaparica-as, adormece-as com jeito, sopra-lhes energia e suavidade. Há autores que apercebemos melancolia, fogo, beleza, em António existe a gentileza subtil que povoa os seus escritos.
Vera Sousa Silva encara a escrita como instrumento para arrebatar sentimentos e emoções. Uma escrita talhada a cores fortes, por vezes vêm-me à mente as pinturas de Frida Kahlo, as suas cores garridas e todo a carne dilacerada, ofendida, rasgada, abala-nos e chuta-nos esta arte.
Junto-os como agradecimento pelo lançamento de “Histórias do Deserto” em 8 de Maio de 2009. Os dois puxaram pelo livro e autor a um nível que não mereço. Os seus blogues são um registo de textos, amizade e de grande humanidade.


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Lavorare Stanca de Tatiana Faia



Subtil e perfeito. Nunca um título de blogue me agradou tanto. Sou leitor da arte de Cesare Pavese, nomeadamente da sua grande obra: Trabalhar Cansa (Lavorare Stanca), editado pela Cotovia, numa bela edição bilingue. Este blogue não se resume à escrita de Pavese. Tem beleza, fotográfica, cinematográfica e das palavras belas. Tatiana Faia, uma das autoras do blogue, é escritora. E gosto da sua escrita, delicada e sem lugares comuns. Passem por lá e sabore-leiam…
http://trabalharcansa09.blogspot.com/

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Dizer do Pó - Xavier Zarco

“Se acordares e a casa for o mundo
e o sebastião alba atravessar
a avenida da noite ou de um verso
a casa é o poema onde o poeta
à entrada se descalça…”

(Xavier Zarco “Dizer do Pó” - Prémio Poesia - XII Concurso Literário “Manuel Maria Barbosa du Bocage”)

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Domingos da Mota - “Bolsa de Valores e Outros Poemas”

“Outra vez um nome:
rosto aceso, altivo,
com os olhos
pensativos, desfocados:

desvenda, abre sulcos
fatigados – de súbito
mais chão, rugoso, acídulo
Recorda, lembra

O mosto, o vinho,
o trigo, os dias
luminosos, demorados

(E os ossos a latir,
destemperados, laceram
o fulgor do lume vivo)"

(Domingos da Mota - “Bolsa de Valores e Outros Poemas” - Temas Originais)
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Este livro foi editado pela Temas Originais, em 2010. Tem na capa, onde predomina o branco como é hábito nesta editora, um pormenor de um quadro de Paulo Themudo.
Domingos da Mota têm publicado os seus escritos, em blogues  e noutros locais virtuais. Eu aprecio a sua escrita. Ao ler o livro e nas seguintes releituras dos textos, reconheci alguns dos escritos poéticos, facto que lhes acrescenta valor, porque lembrarmos um texto é uma evidência da sua força. É imprevisível o efeito e trajeto desta arte em nós.
Um dos aspetos que primeiro me fez apreciar a escrita de Domingos da Mota é a sua madureza e reflexão. De vez em quando opta pela rima, penso que beneficia o texto principalmente quando não o faz, mas é uma mera opinião dentro do gosto que tenho pelo escrito poético livre. Há caminhos já trilhados mas tem textos em que se reconhece a sua “voz”. Como: “O Grito – 1893 – Eduard Munch” com “cores que alucinam a pintura”, “Aguarela”, “A traço grosso”, “Pintura quase abstracta”, “Natureza morta com flores”, textos de raiz pictórica, e mais reflexivos: “Introdução à Filosofia”, donde se questiona: “o que é um nome?...”, “Arte poética”, “Filosofemas”, “Tocata”, “Princípio da incerteza”, outros dedicados ao amor Eros e derivados: “Sublevação”, “Icebergue talvez”, “A contra-pêlo”, “Pizicato”, “Natureza viva com cerejas”, “Dinâmica dos fluidos”, “Eros”, “Ensaio sobre o amor”, exemplos em sequência unida: “Geografia mínima”, “Fotopsicografia”, “Filosofia”, "Poema da interrogação” e “Ensaio sobre o esquecimento”, este conjunto com que termina a parte: “Bolsa de Valores”, nota-se a tal “voz” do autor. Desta parte, eu destaco os meus preferidos: “Bolsa de Valores” e “Elegia em Dó Menor”, este último um dos melhores textos do livro.
Da parte: “Outros Poemas”, não retiro nem um (era o que faltava!), aprecio particularmente os: “Rumor”, “Avarento” (um texto curto, uma das vias que o autor pode seguir, este caso é perfeito, não se tira nada, não se acrescenta nada), e achei interessante o texto: “Tripalium” o famoso objeto de tortura e a sua atualização moderna, dos quais somos vítimas. Gostei da catarse, chamo-lhe assim não só deste último, como dos seguintes exemplos: “Prosa para 2006”, “Prosa para 2008” e “Poema para 2009”.
Pontos fortes, maturidade e discurso poético enriquecido em cascos de sensibilidade. Pontos fracos, medo de arriscar. Como exemplo a escrita de Ferreira Gullar. De que tanto se fala agora, aproveitemos isso enquanto dura. Gullar espalha as palavras pelo espaço vazio do branco do papel de forma livre, nada o para, consegue ser surrealista quanto baste, autobiográfico, experimentalista, faz critica e análise social e politica, derrama o coração, tudo no mesmo texto poético, os limites é o próprio criador que se lhes impõe. Aprendamos com os mestres.
Esta “bolsa de valores”, acho-a carregada de pérolas. A guardar. A ler.
(Jan. 11)

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Horas Extraordinárias (blogue de Maria Rosário Pedreira)

Blogue de Maria de Rosário Pedreira, editora do Grupo Leya, poeta e escritora. Sobre livros e editores. A sua lucidez e amor pelos livros faz da leitura deste blogue com muitas visitas, um prazer que não se prescinde.
Dou um exemplo, um dos últimos textos, sobre a reedição do primeiro livro de João Tordo, autor que Maria do Rosário Pedreira tem acompanhado desde sempre, ainda noutra editora. Uma capa, atrevo-me a dizer, de concepção brilhante.
Blogue didáctico e útil.

(Fev. 11)

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Uma Casa em Beirute (blogue de Sylvia Beirute)

Há bons locais de passagem. Geralmente têm bancos velhos de jardim. De madeira a descascar a tinta. Perto de candeeiros de metal ferrugento com luz embaciada. Por vezes velhas senhoras com os sonhos guardados em sacos de plástico sentam-se e falam consigo mesmas. Fintam os dias sós com sorrisos pintados e recordações de vento. Nas relvas descalças um cão salta com uma garrafa na boca. Uma bola sem criança e uma mulher encostada a uma raiz a ler um grosso livro. De que poeta? Terá uma casa em Beirute?
As nuvens acinzentam o parque mas a chuva não assusta as almas secas no passeio da cidade velha. Há bons lugares de passagem. Que chova o que tiver de chover.
Gosto da poesia e do blogue: http://sylviabeirute.blogspot.com/

(Jan. 11)

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Um poema de Graça Pires

Gosto de objetos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos prendem como se fossemos árvores.
Preciso e exacto será também o momento
em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

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DIA MUNDIAL DA POESIA

19 de Março, às 15.30h.
IV Encontro de Poetas do Concelho de Vila Franca de Xira, com Carlos Palma (Alverca), Sara Timóteo (Póvoa de Santa Iria), Pedro Higino Delgado (Vialonga) e Carlos Teixeira Luís (Póvoa de Santa Iria).
O Encontro terminará com a actuação de um grupo coral do concelho.
Biblioteca Municipal de Quinta da Piedade (Póv...oa de Santa Iria).
http://www.bmvfx.net/index.php?option=com_content&view=article&id=487&Itemid=74

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3 Autores

Sobre Pedro Paixão: (a sua opinião sobre o que faz um escritor ser um escritor, sobre o que faz um escritor conseguir atingir o leitor com eficácia e saber, sobre o que é necessário para um aspirante a escritor e existem imensos e desesperados conseguir se impor como autor)


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Sobre António Barahona: (como um poeta de excepção se mantêm à margem levantando a questão se a marginalidade e um pouco do esquecimento é essencial para se construir uma obra depurada e refinada?)


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Sobre Raymond Carver: (não há muito sobre este autor em português a não ser os fait divers habituais, não se estuda este autor, não se lê com cuidado e ponderação mas fala-se muito em Raymond Carver e existe a sua influência entranhada na escrita de muitos autores contemporâneos, o que levanta a questão de Carver ser um autor lido com a atenção necessária apenas por quem escreve?)   



Set.11

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O blogue do poeta António Cícero

Ando maravilhado com esta poesia. Ando maravilhado com esta poesia.

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Este poeta e letrista encontra-se por aqui:

(Ago. 11)

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Pollock & Kerouac

Um excelente artigo acerca de Jackson Pollock e Jack Kerouac. Haverá semelhanças de técnica entre as duas artes destes dois homens atormentados que deixaram ambos uma obra invulgar, genial e de influência futura? Da autoria de Helena Vasconcelos que também escreve para o Ípsilon, suplemento de sexta –feira do jornal Público.

Ago. 11

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Sugestões para HOJE


Podia ser, ler: O Estrangeiro de Albert Camus, história do homem que não chorou a morte de sua mãe. Queriam um livro de Camus que fosse só isto? Em que mundo vivem? Um livro pequeno que nos faz bem ou não. Só se sabe depois de ler. Pode-se deixar ficar a introdução e crítica de Jean-Paul Sartre para amanhã. Como se sabe, Sartre era um chato.

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Falemos de Casas - Herberto Hélder


"Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
                     - Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
                                                      ardendo devagar.
Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
                         - E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
                                                               de beleza."

Herberto Helder, A Colher na Boca. Lisboa, Ática, 1961. p. 13-15.
- Ou o Poema Contínuo. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004. p. 9-12.
(e também no: "Ofício Cantante" (Assirio & Alvim)

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‎"para encontrar azul, eu uso pássaros" - Manoel de Barros

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‎"e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol"
(António Ramos Rosa)


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‎"e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos" - Federico Garcia Lorca

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‎"a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde"
António Ramos Rosa


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Estou Vivo e Escrevo Sol - António Ramos Rosa

Para hoje, um poema de 66:

"Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde"


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"Arvoredos" de Antónia Ruivo (blogue: Por entre os fios de neve)
Arvoredos

"Alentejo planta arvoredos
De cajado e saco roto
No salto de um gafanhoto
No andar de um vagabundo
Tenta espalhar num segundo
Uma teia feita de enredos

Num campo que acorda verde
Desponta uma oliveira
Mais á frente uma azinheira
Por onde a memória se perde
No fundo de um qualquer monte
Um cruzeiro que desponta
Sua cruz é fria e conta
As fagulhas que atormentaram
As almas que por ali passaram
Em noite de lua cheia
O pensamento vagueia
Com almas do outro mundo
Vagueiam, são vagabundos
Andando de boca em boca
Tanta lenda gente louca
Que palmilha esta terra

Alentejo planta arvoredos
Sussurrando os seus segredos
De heróis nos seus degredos

Alentejo terra de anais
Enfeita-se nos madrigais
Das gentes como os demais..................."
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