sexta-feira, 5 de agosto de 2011

AS AGONIAS e outros lamentos

Um
Se não contas nenhuma história, de que falas? Se contas uma história, onde estão os personagens? Quem são eles? São só personagens? Não são pessoas? Então porque achas que alguém te vai ler? Se for teu amigo, vai ler-te ou não, vai felicitar-te mas não vai continuar a ler-te, vai apenas continuar a ser teu amigo, não achas? Os melhores leitores são sempre as pessoas que não nos conhecem, porque os que nos conhecem, porque haverão de nos ler, se já nos conhecem, não é verdade? Porque haveremos de vender livros aos amigos se eles não nos leem?
Se não consegues fazer uma frase perfeita, porque não fazes duas quase perfeitas? Se escreves uma metáfora em dois segundos, porque achas que ela nunca foi escrita? Se te achas um génio da escrita, então não sabes que génio é alguém que é diferente e consegue fazer coisas que a grande maioria não consegue, e que surge só de vez em quando, assim de cem em cem anos? Se te achas um génio, não será isso, uma evidência que não o és? Vê a história, todos os Cristos que se diziam Cristos, nenhum deles era Cristo, e só houve um e nunca se identificou a si próprio mas foram os outros que o fizeram, não consegues tirar uma lição disto? Porque não vais para casa e escreves menos mas melhor? Se não sai nada de jeito porque insistes em ser poeta ou escritor? Ao menos, sê feliz.
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Dois (as agonias do sofrível)
Se tenho escrito textos verdadeiramente sofríveis, se tenho escrito exercícios que se “vendem” por poemas, se confesso aqui que tenho escrito labirintos de procura, apenas isso, então que fazer eu comigo mesmo? Como me posso deitar ao rio? Como poderei transformar isto em poema?
Morte, perda, chatices e palermices, sempre os mesmos temas. Pressa e obsessão. Quero lá saber! E se não for lido? Pelo menos tranquilo neste aspeto. Não esperar nada de ninguém, eu que escreva melhor! E mesmo que escreva bem, os assuntos, a história, o enredo ou as ideias podem não interessar a ninguém, o que é perfeitamente normal. Gosto de Pablo Neruda, mas posso estar meses ou anos sem o ler, o que é normal. Há alturas em que me irrita Neruda, noutras encanta-me. Porque haveria de esperar leituras, atenções, miminhos e o diabo a quatro.
Só houve um Tolstói e não é nenhum de nós. Nós só somos os que andamos por aqui, neste universo virtual a alimentar expectativas de que somos Proust ou Célines de bairro. Por falar em, será possível ler Céline noutra língua que não seja o francês? Se calhar não.
Sou um autodidacta. E não somos todos?
 
Três (as agonias dos autodidatas)
Autodidata é quem aprende por si próprio, o que pode ser uma possível definição da escrita literária. Técnica aprende-se academicamente mas saber escrever, no sentido de transformar em texto legível o verve e o mundo interior, a fantasia e todas as entranhas necessárias para a catarse e verdade, aqui somos todos autodidatas. No mundo virtual, todos se dizem autodidatas como que a desculpar a falta de algo. Afirmam que não cursaram Letras universitariamente, nem têm nenhum curso de Escrita Criativa, por exemplo. Mas amigos, se querem ser escritores ou poetas têm de forçosamente serem autodidatas. Intervenção divina, a tal inspiração mítica não existe.
Escrever é trabalho. Dá trabalho. Churchill quando no seu discurso motivador para o povo destroçado pelos bombardeios londrinos (penso que tenha sido nesta ocasião) quando falou em sangue, suor e lágrimas, esta podia ser uma bela definição do acto de escrever. Escrever é sofrimento, é doloroso, a menos que escrevam sempre de borboletas e margaridas e nunca do que sentem, do que os apoquenta, da alma de dentro e não da alma de fora, a bruxa das aparências. Mesmo que se crie um ambiente de fantasia, se essa for a nossa via criativa, nalguma vida real temos de nos basear.
Portanto, autodidatas sem remorso. O segredo para se escrever bem é fazê-lo muito até doer. E sobretudo e em primeiro lugar, ler e ler e ler e ler e ler até ao esgotamento. Se não, vão produzir túneis de vento que vos levarão a mais vento sem fim.
Fica a questão: pode um escritor de génio nascer nesta babel de autodidactas que é o espaço virtual da Internet, neste labirinto de bibliotecas sem fim que ficarão após o fim da raça humana para nada? Fica a questão a rodopiar pelo espaço sideral à espera de resposta.
 
Quatro (as agonias dos escritores de blogues)
Blogues, sites de poesia e de outras “literaturas”, grupos dentro de redes sociais, e milhentas de outras formas dedicadas à prática da escrita. Permite que pessoas de muitos ramos da grande árvore da sociedade possam ter uma pequena voz e obtenham leitores, afinidades, amizades, amantes, chatices, glórias à medida do universo e ego de cada um, e até uma espécie de show-room de capacidades literárias.
Surgem então novos “poetas” e “escritores” que trabalham febrilmente, e que têm outras profissões como professores, camionistas, donas de casa e empregados bancários. O “escritor” de blogue é um trabalhador da escrita, escreve e escreve e escreve até atingir o seu objectivo, a obra num ou outro livro. Trabalha muito para atingir a “excelência”. A gaveta deixa de ser o fim dos seus escritos. Mas em matéria de velocidade imposta pela Internet onde tudo se passa ao décimo de segundo, dizendo assim, várias armadilhas se impõem ao “escritor” de blogues. O ritmo de pequenos textos para “postar” nos “cadernos-de-apontamentos” ou “diários-virtuais” que podem ser os blogues não é bom para a “qualidade”. Mata a “qualidade”. Banaliza a poesia, por exemplo. Outra das armadilhas é o vício de sempre escrever mesmo que não se tenha nada para dizer de relevante. Perder tempo exagerado com futilidades é isso mesmo, perder tempo e fazer perder tempo. Veja-se por exemplo no Facebook, Twitter, etc. E o “escritor” de blogues cai no buraco que ele mesmo cavou, esvai-se a Literatura, fica o texto de blogue, apenas como um adereço efémero.
Florbela Espanca
         “Eu quero amar, amar perdidamente!
          Amar só por amar: Aqui ... além...
          Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
          Amar! Amar! E não amar ninguém!”
Afinal quem foste tu, Florbela Espanca?
Esta poetisa tornou-se uma espécie de sinónimo de poeta naif mas também uma espécie de estrela pop à nossa medida. A rainha do soneto. Do soneto de amor e da falta do objecto amado. A dor de corno doutros tempos. Às vezes, surgem comparações e referências geralmente pejorativas ou redutoras. Era uma desgraçadinha solitária que fazia poemas de amor para se entreter e com fome de amor. Seria assim Florbela Espanca?
Um modelo? É aqui que a metáfora mais facilmente se gasta. Quem lê e escreve poemas de amor em português, com pesquisa fácil a referência passa por Florbela Espanca. Quem não gosta, não lê e não escreve este género de poema, repudia, acha fácil e piroso e logo por associação classifica Florbela Espanca como a rainha do poema básico e pouco talentoso de rima gasta e farto de ingenuidade. O aluno decide espancar e desprezar o professor. Nada de novo.
É triste resumir um pilar da nossa poesia clássica a este patamar tão baixo e que pouco incentiva o seu estudo ou mera leitura para quem começa a interessar-se por exemplo por Poesia Universal, existindo tal pessoa.
Florbela Espanca não pretendia obsessivamente “amar perdidamente” como única actividade da sua pobre e infeliz vida. Representá-la como uma autora simplista, fácil ou menor revela desconhecimento, pesquisa fácil e preguiçosa. Excesso de Wikipédia.
Todos nós somos muitos. E os poetas mais ainda. Se Florbela Espanca é uma autora que nos permite uma iniciação na Poesia então começamos bem. Copiá-la é uma forma de aprendizagem como outra qualquer. Só fazer poemas “à maneira de” Florbela Espanca (tendo como base alguns sonetos), claro que é redutor e desinteressante, mas se é uma via para uma outra fase de criação, porque haveremos de estranhar? Cada qual escolhe o seu caminho.
Eu li Florbela Espanca e não morri. Nem me transformei numa menina nem me desapareceram todos os pêlos corporais nem a voz ficou efeminada. Nem sequer me fez apreciar muito o poema de amor. Nunca foi a minha mulher das escritas poéticas preferida, mas provavelmente fiz algum tipo de escala de entendimento passando por Florbela Espanca indo parar a outro poeta e obra e depois voltando ao mesmo sítio mais tarde e com outros olhos. Tudo padece de tempo e de ciclo. Vamos e voltamos a um autor para o compreender e sorver melhor.
Quem tem medo de Florbela Espanca?
Se alguém ama a poesia de Florbela Espanca, só posso felicitar e desejar boas leituras. Não me acho à altura de achar que seja um leitor menor de um autor menor. Como chegar a esta conclusão?
Há neste assunto uma grande infelicidade, não só a de Florbela Espanca mas também a minha. Caminhamos para onde? O acesso à informação afasta-nos do conhecimento? Deixamos de refletir, ponderar, escolher, separar o trigo do joio? Pode a poesia sobreviver ao tsunami virtual de tudo para todos, lixo incluído? Pelo menos leva-me a ser criterioso e fugir de certos submundos. Interessa-me a poesia pura e o livro como o é, fonte de conhecimento, influência e prazer. Não me interessa o fogo-de-artifício e a simples perda de tempo com postais ilustrados de metáfora gasta. Associar a poesia de Florbela Espanca a este mundo é um crime literário.
Desafios: Voltar a ler Florbela Espanca com a dignidade que merece. Mas em formato: book.

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Seis (as agonias do acordo ortográfico)
Acordo ortográfico. Que poderei fazer senão absorvê-lo como um desafio e tentar que não me aniquile o verbo. Analisando com o pormenor possível o acordo ortográfico, não me parece tão escandaloso como foi anunciado. Será infrutífero porque a língua se desenvolve de forma rica e sem que se possa encaixar, fechar em compartimentos estanques que é cada cultura de cada país ou região que a utiliza? Independentemente da nossa opinião sobre o acordo, será a própria Língua Portuguesa viva e em crescendo, aliás como qualquer Língua viva que irá fazer com que o acordo seja ultrapassado por si só? A Literatura de Portugal, Brasil, Africa e toda a comunidade lusófona mundial tem os seus ritmos e energias próprias. Há muito que se deixou de escrever de forma politicamente correta, a linguagem, dialetos, a gíria, o calão, a forma de falar da rua, dos bairros, a influência anglo-saxônica de termos que se misturam no português, tudo isto entra na prosa e poesia e altera toda uma noção de linguagem escolarizada ou académica. E agora? Saltarão da campa autores por isso? Que campanhas futuras irão espartilhar o dizer e o escrever? E o papel da vida e da sua louca improvisação? Escrever bem, falar bem mistura-se com escrever mal e falar pior. Novas palavras surgem, novos verbos, novas conexões e misturas e sem que as diversas comissões, universidades, políticas possam fazer algo. O acordo irá dissolver-se no espaço e no tempo e novos acordos surgirão.
Irá a poesia ser actualizada ou atualizada? Penso que irá sobreviver mais forte do que nunca.
 
Sete (a agonia dos comentários)
A agonia dos comentários. Tenho feito um esforço em ser claro e em usar uma linguagem direta e simples. Minimalista se necessário. Se tiver que descrever uma situação em que um homem ficou parado a olhar para uma árvore, escreverei exatamente isso mesmo: um homem ficou parado a olhar uma árvore.
Há palavras fáceis que nos ocorrem na ausência de outras mas que são tão abrangentes que poderão significar nada. Maravilhoso é uma delas. Escrever que um poema é maravilhoso pode significar que não lemos o poema ou que não lhe demos a devida atenção. Comentar que é maravilhoso é uma fuga rápida ao assunto. Prestemos atenção ao significado do adjetivo: maravilhoso. Usando a definição da palavra segundo vários dicionários, maravilhoso pode ser admirável, assombroso, espantoso, estupendo, excelente, excelso, formidável, inaudito, magnificente, magnífico, portentoso, sublime, surpreendente. Que poema poderá encaixar neste adjetivo tão generoso? Um poema épico talvez. Gastar a palavra mesmo com boas intenções enfraquece-a e ela morre. E passa a significar: vulgar, básico, simplório, destes-há-muitos-e-nenhum-presta (se nos referirmos a um poema que acabamos de ler ou não), etc. Se se quer ser escritor ou poeta, bailemos com as palavras, façamos amor apaixonadamente com elas mas nunca as sovemos vulgarizando-as. Assim estaríamos a assassinar a Língua e não a desenvolver ou enriquecer a matéria dos nossos sonhos, a cultura que nos calhou na rifa, porque nascemos aqui e assim falamos e vivemos. Claro que sempre podemos escrever ou falar outra ou noutra língua, escolher outras culturas, mas se não o fazemos, cuidemos bem da nossa.
Não é que ficou um texto “bonito” (o contrário de feio, belo, agradável, bom, honesto, livre, amoroso, etc).
Oito
Não está na moda por causa da pança. A invenção egípcia, a cerveja. Aqui neste país cheio de problemas, cheio de cinzento pessimismo e depressão temos boas cervejas. Mas, também temos a cervejinha, vai uma cervejinha?, cervejinha não presta, amigos. Cerveja sabe bem não só gelada mas saborosa e viva, bem destilada, bem tirada, servida em caneca com muita espuma e muita conversa. As minis, duas gotinhas de cerveja para serem servidas geladas até ao fim, é uma ideia falhada. As médias, uma terça parte dum litro é o mínimo que se pode exigir. Directamente da garrafa, junto a uma roulotte com uma bifana gordurosa, pelo frio da madrugada, com gente de trabalho que fala de futebol e nos mostram as fotos dos filhos e conduzem camiões de mercadorias por horas até entontecer, gente de trabalho, gente do povo, a cerveja sabe a néctar que até os deuses do desconforto apreciam. Mas a cerveja, bebida social, deve ser bebida em grandes canecas espumosas e frescas, que vão perdendo frio mas não sabor e no fim, não é pecado deve-se deixar dois dedos por beber. Na Áustria pelos finais de tarde, até senhoras dos seus cinquenta anos e mais saboreiam o liquido retemperador sem preconceitos e escândalos. Por cá, seriam umas bêbedas. Por isso é que o meu país é o mundo inteiro. E sempre ofereço uma cerveja-inteira-conversa-e-amizade-e-tempo e nunca uma miserável e envergonhada cervejinha. O nosso sorriso deve ser inteiro. Que vivam as pints de Guiness da amizade, as Grolsch das gargalhadas desbragadas, as Skol da poesia, as Heineiken de prados verdes, as Boémia sagradas, as Tuborg com chifres de longevidade, ou qualquer Warsteiner de olhos azuis de mundo feito. A cerveja é igual à amizade, serve-se sempre com música de anjos madrugadores. Será que sem cerveja haveria Dylan Thomas?
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Nove (as agonias do minimalismo)
Minimalismo? Ninguém é António Lobo Antunes (a não ser ele ou nem ele), que pode e sabe-o fazer como ninguém ou quase ninguém, uma prosa cerebral em que se desliga da história.
Minimalismo? Borges é genial, Agatha Christie também é genial, nenhum dos dois conseguia fazer o que o outro fez. Com um aprendemos a pensar, com outro aprendemos a… pensar, e não só. De forma diferente.
Na prosa, é preciso enredo, objetivo, personagens credíveis = gente, cativar o leitor, e ideias brilhantes ou demasiado simples, tanto faz. Só prosa a falar de nosso particular umbigo, é pouco para interessar o outro, o que lê; a menos que tenhamos uma vida única, aventurosa, espalhafatosa e fora do comum. A menos que sejamos Raymond Carver que falava de coisas normais, por isso foi encaixado num certo minimalismo, porque não dourava a pílula, contava exatamente o que havia sucedido a alguém. Mostrando que no dia-a-dia, como pessoas normais, existem muitas histórias para contar.
Portanto, escritores e também poetas, porque não contam as histórias do Outro e porque não deixam de ser egotistas e narcisistas a ponto de pensar que tudo gira em vossa volta e são o centro de qualquer coisa desmedida que só vocês criaram? O Autor deve e pode ser a voz do Outro. Neste preciso momento, vivos existem 6 mil milhões de Outros e as suas histórias. À espera de Autores que se interessem.
 
Dez (as agonias do bairro dos olivais)
Marracuene é uma vila moçambicana, sede do distrito do mesmo nome na província de Maputo. Encontra-se situada na margem direita do rio Incomati. Durante o período colonial, Marracuene foi conhecida pelo nome de Vila Luísa. Foi nesta localidade que se travou, a 2 de Fevereiro de 1895, uma batalha, que ficou conhecida como Gwaza Muthine, entre as forças rongas comandadas pelo jovem príncipe Zixaxa e forças portuguesas comandadas pelo major Alfredo Augusto Caldas Xavier. O distrito de Marracuene está situado na província de Maputo, em Moçambique. A sua sede é a vila de Marracuene. Tem limite, a norte com o distrito de Manhiça, a oeste com o distrito de Moamba e com o município da Matola, a sul com o município de Maputo (ou província de Maputo Cidade) e a leste com o Oceano Índico. É também o nome duma rua no bairro dos Olivais, em Lisboa, aí vivi de 1970 a 1995. Quase todo o bairro tem ruas com nomes de terras de Ultramar.
A história do bairro:
http://www.spacioshopping.pt/cultura/
 O texto do link é baseado no livro “Olivais, Retrato de um bairro” de Helena Torres e Catarina Portas, edição Liscenter, 1995. Informação retirada do site do centro comercial Spacio, ex-Shopping Center Olivais, inaugurado em 1995.
Foi neste bairro que tive as “visões” poéticas que transpus para textos no Luso Poemas, no World Art Friends, nos blogues: Tijolos de Verde Rude, Histórias do Deserto, bem como nos dois livros publicados. Obsessões e recordações como carochas VW, nevoeiros, bancos frios de Janeiro, árvores, relvas, Blues e deambulação, Rock N’ Roll e perdição, muita poesia, livros esquecidos pelos cantos, a amizade, o céu azul, as oliveiras, os velhos e os cães, os gatos e o Jazz, algures numa parede de tijolo sujo ainda lá estão os manos Ramones de olhos perdidos a observar o trânsito composto de autocarros verdes de dois andares com porta aberta atrás e Ford Capri ferrugentos.
O bairro? Parte caiu e apodreceu, outra parte é fina e para classe média-alta mas em certas noites e madrugadas ainda se ouve aves noturnas e se visualiza velhas sombras que se reconhecem e se abraçam. O bairro resiste e adapta-se. Faltam as histórias que devem ser contadas.

Onze (carta para Herberto Helder)
Bom dia, Sr. Herberto Helder.
Para mim, o senhor é o melhor poeta português. Como comentar é explicar, criticar ou interpretar e eu sou um autodidata na matéria, apenas comento o que gostei e o que não gostei.
Faço-o para toda a sua poesia, gosto da riqueza dos seus poemas, têm várias leituras, chegam a ser labirínticas e acredito que até daqui a cem anos iremos estudar a sua maravilhosa escrita.
O que não gosto: da sua reclusão, não dá entrevistas, não explica, não fala, não conta o que lê, aonde vai beber o café, com quem se relaciona e a sua escrita é difícil, exigente e demasiado surrealista, eu sei pertence a uma geração, mas agora vemo-nos gregos para nos orientar na sua poesia rica, brilhante e única. Acredito que o surrealismo não vai voltar, que agora as coisas estão a mudar tão rápido e de forma tão abrupta e radical, que a poesia tem de se adaptar, tem agora de ser clara nas ideias para que tenha um papel na vida e não seja apenas decorativa. Que ela seja a obra de arte e não a moldura. Arte pura, é a sua obra, sem dúvida.
Apenas um sincero comentário, aproveito por o felicitar pelos seus 80 anos e espero que esteja bem. Querido poeta, é um privilégio falar a mesma língua que o senhor. Obrigado.
Despeço-me e aguardo com prazer e expectativa mais poemas.
Deste leitor e amigo,
Carlos Teixeira Luís.
 
Onze
Não interessa quem escreve, seja consagrado ou não, não interessa quem comenta, seja autodidacta ou não, TODOS podem trocar ideias. Na partilha nasce a luz do conhecimento. Ninguém deve encolerizar-se se alguém detestou o que escrevemos e ninguém deve ir ao céu da glória só porque alguém diz gostar do que escrevemos. Encontrar alguém que gosta do que escrevemos não faz de nós génios, nem Shakespeare nem Luiz Vaz de Camões. Já foram inventados.
Errar é a essência da arte. Ao trabalho, escrevinhadores!

Doze (a agonia das prosas poéticas)
As prosas poéticas.
Prosa de definição simples é uma expressão linguística escrita ou falada que não seja poesia. Nada mais do que isto. No fundo, a prosa surge da conversa. O nosso discurso falado é sempre em prosa. A prosa fora outros sentidos mais ricos, pode ser conversa informal. Faz sentido, antes da palavra escrita já havia a fala bem desenvolvida. E a escrita é uma reprodução do que se fala. Assim começou.
A Poesia no sentido mais básico e imediato é arte de fazer versos, o que desperta o senso do belo, e podemos ir por aí em dissertações. A Literatura começou aqui.
O que é então a prosa poética? Fruto do desenvolvimento da linguagem escrita. Por culpa de Baudelaire, Rimbaud ou Mallarmé, todos eles poetas que romperam regras e desenvolveram a sua criatividade numa outra forma, a prosa e o discurso continuado não deixando de ser poético e não apenas descritivo ou narrativo. Diga-se que a poesia já andava sufocada e espartilhada em segmentos estanques: sonetos, redondilhas, quadras, poema livre (mas pouco). Obrigado Rimbaud e companhia.
É então a prosa poética uma espécie de saudável contradição ou outra coisa, que os génios criadores tornarão. É o que queiramos fazer dela e não apenas uma forma ou uma técnica.
No século XX quando a Literatura avançou como nunca, diversos escritores optaram por esta liberdade criativa e foram longe. Por exemplo, o Ulisses de James Joyce, quebra-cabeças para tradutores e mel para o nosso palato, o escritor opta por usar de forma riquíssima a prosa poética e por isso é considerado um texto difícil por causa dos seus multi-sentidos que (obra do catano) não se esgotam. Leia-se a escrita de Samuel Beckett, pura prosa poética mesmo os textos para teatro como as famosas peças: À Espera de Godot (o desgraçado que nunca aparece) e Dias Felizes (neste caso os desgraçados atores vivem a peça enterrados até à cintura onde dissertam), este discurso, amigos, é mais uma vez pura prosa poética (bem, digo eu, com toda a liberdade). Apenas dois exemplos, estes considerados de uma certa elite e de vanguarda (ainda hoje), o que é uma noção de treta de quem se quer armar ao pingarelho.
Bem, há vastos e muitos exemplos de boa prosa poética. Ás vezes chama-se prosa poética quando não o é. Mais valia não chamar nada. O criador do mundo escrito deve esquecer os rótulos, esses existem para os livreiros saberem orientar-se nas lojas, livrarias ou não. Deve preocupar-se com simplesmente escrever. Alguma forma surgirá e essa não programada nem provocada poderá chamá-la sua. Fará isto sentido, que raio?

Treze (as agonias dos velhos e dos novos)
“para encontrar o azul eu uso pássaros” – Manoel de Barros
“estou vivo e escrevo sol” – António Ramos Rosa
“… do corpo. Mas que é o corpo?” – Ferreira Gullar
“Falemos de casas, da morte. Casas são rosas para cheirar muito cedo…” – Herberto Hélder
Ah, os velhos e os novos. Gosto da poesia dos velhos. A poesia é irmã dos anos posteriores. A arte do “indizível” (F.Gullar) precisa de anos para ser ela própria. É preciso raspar entre as pinceladas porque o mundo virtual é uma tela de Pollock em que todos derramam tinta de palavras provocando o caos entre o bom, o mau e os seus extremos.
Dos melhores poetas por cá, que fazem poesia em português vivo, todos têm idade e ainda verve o que mostra à malta nova como se faz. Os novatos (vão viver, vá) preocupam-se com a forma, excessivamente, penso… A que idade é que me refiro com novos ou velhos? Com que idade é que a poesia pode ser considerada madura? Com que idade, alguém pode ser considerado maduro? Com que idade é que alguém que se consiga expressar consegue ela própria expressar em versos a noção do belo e do divino? Com que idade um homem ou mulher consegue por si só domar o mundo e dizer não?
Vejam a idade destes 4 exemplos de poetas em orgulhoso português, que escolhi baseando-me em gosto puramente pessoal, haverá mais mas só tenho uma vida. Nenhum puto de trinta ou quarenta anos, ou menos, diplomado em Letras do além ou alguma cabeça de gel e brinco no lóbulo faz melhor. Têm a favor (os velhotes) a cabra da vida que em muitos casos não os estimou, se calhar por isso a sua poesia é cortada a diamante.
Só temos é de não desperdiçar nada e aproveitar todas as lições de azul ou de morte que os Mestres nos possam ensinar.
Bem, mera opinião…

Catorze (sei lá que mais)
Encontro-me com tanto medo, nem sequer é por mim, para mim e de mim, com o coração tão apertado, tão deprimido e sem falta de alegria (já não a sinto, faz anos) embora com aquela arte de fingir na presença dos que nos são preciosos para que eles não sofram (mas é impossível mentir às crianças: - Pai, estás triste? – Não, filha, não…), tão sufocado e stressado que encontro nestes textos uma espécie de alivio… que dura segundos, enquanto são escritos, talvez. Vai-se desenrolando o que se gosta e o que não se gosta, o que achamos e o que não achamos apenas para desviar a tempestade um pouco para a direita, um pouco para a esquerda, sabendo que não a podemos evitar. Por isso faço poemas.
Quinze (as agonias das teorias)
uma teoria acerca do motivo de muita gente querer sair. e depois não saem. tento chegar à realidade mais do que ter uma teoria. querem mesmo sair em determinado ponto. mas o fuso das utopias dá-lhes algo que também não querem perder. o desconhecido inventa uma entidade. uma identificação e escreve debaixo desse personagem e recebe apreço. ou pontapés, leituras ou é ignorado, e isso vicia. alimenta a questão interior: e se eu for um novo dostoiévsky. o velho faleceu numa estante de pó. verdade verdadinha só se sabe se se publicar em brisa temporal. ou não. se o leitor achar que depende. da escrita dos tempos. pode demorar anos a ser reconhecido ou então muitos anos a ser eternidade. em reais imaginários com obra escrita e trabalho. meia dúzia de lamentos A4 faz do desconhecido embriagado um ninguém um hemingway um michael chambon. é o homem induzido em erro que escreve que a vida mudou. depois de conhecer e ler a vida semelhante ao ego dum morto. desgraçado o autor é capaz de acreditar no pormenor do adeus e da despedida a fórmula que atrai a detenção e os subsequentes erros. morrerei então!
o exagero enjoa. perde força. perde credibilidade. a preferir o oposto. inventar novas fórmulas do prazer de inventar. sem os medos do circo do ridículo e do absurdo. então, fui embora e não regresso. para já.
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Dezasseis (as agonias das senhoras que escrevem)
senhoras com certa idade que escrevem os seus textos e poemas. “senhoras” com apetência por poetas como Florbela Espanca e comentários emotivos e carinhosos. “senhoras” que se reconhecem umas às outras pelas situações de vida semelhantes como os divórcios, os filhos criados, a viuvez, os estados de alma, os gostos comuns, as menopausas, as tragédias vividas, a solidão, o tempo livre, os mesmos medos, as psicoses, as depressões, e mais que os dias trazem. juntam-se aos grupos, confidenciando, trocando poemas, e atos de reconhecimento e de amizades, e quiçá mais. mesmo sem vocação ou interesse pelo risco e experimentação nos textos que escrevem. optam por uma fórmula confortável. não são Hilda Hist a cáustica. não são a Adília dos gatos e das baratas e do humor puto da vida. misturam a auto-ajuda de raiz esotérica com poemas doces com edulcorantes. a idade afasta os galifões das hormonas. a poesia serve os seus objetivos. a poesia essa cabra de cornos afiados no entanto coaduna-se com a ponderação e a contemplação e também com a raiva e revolta e por ai fora. lixada essa mulher intemporal e irascível que é a poesia mas é também uma casa de muitas portas aberta noite e dia, século após século a todos, a todos, de crianças a velhos, desde que estejam vivos ou mortos, tanto faz. a idade na poesia só traz virtudes e não o contrário. as senhoras de idade nunca me incomodaram. não gosto de lamechices, lágrima fácil, a desgraça do mundo (a real e as outras) para atrair ao poema sem conteúdo, a foto do google com uma mulher nua a segurar uma lua envolta numa nuvem, simplesmente detesto isso, é um sinal de fuga do texto que se segue, mas se for uma via para a criatividade de alguém, em que é que isso me incomoda. nada. o espantoso Neruda tem poemas de amor que me chateiam. não os volto a ler. tem outros que me agradam. sem problemas. apreciar a obra e não perseguir o autor. depois de ler o Howl, o que fariam se encontrassem o Ginsberg na rua, eu acho que lhe dava com um barrote na cabeça, mas a obra é a obra. que as senhoras se juntem à hora do chá e façam tricô e partilhem os seus poemas e que sejam felizes. poetas ou não. não tarda muito serei eu um senhor de idade, meio careca, curvo, desdentado, de bengala e livrito de poetas agrestes debaixo do braço. na fila da caixa geral de depósitos para receber a reforma e demorando muito a fazer tudo. então um puto qualquer fará um poema contra os senhores de idade que escrevem no céu virtual poemas que não são poemas e prosas que são lixo. é a vida.
 
Dezassete (ó poema)
“Assim como a poesia não é para um par de sapatos, assim Fernando Pessoa não é para todos os dias. Não consta, porém que Pessoa haja querido monopolizar os dias. Se déssemos a Pessoa os dias que ele tem, faríamos como ele -  e até podíamos, como ele, ser grandes, com muitos dias para ele e para muitos de nós, seus iguais num desastre.”
(
" as mãos na água a cabeça no mar" - Mário Cesariny)
Se eu escrever um bom poema, feliz sou, mas se eu escrever em toda a minha vida um bom poema, quanto tempo devo exigir de atenção do outro para que me possa ler? Nada.
Se o outro me ler, se o outro me der um minuto de atenção e se realmente ler o poema e possa tirar alguma coisa para si, mesmo que seja uma única vez em toda a sua vida, valeu a pena.
Não espero mais.
Dezoito
tu que escreves
nunca deixes que te tirem o prazer que te dá escrever
e sim
deves partilhar o que escreves
e sim
não deites nada fora
esquece os urubus, os animais necrófagos
eles só querem que caias e que morras
para se alimentarem da tua carne
são assim os urubus e os condores
nunca foram outra coisa
esperam a morte e alimentam-se dela
fazem uma função de limpeza sem consciência
mas tu escreves
bom ou mau
não é a tua vida?
então é sempre bom
goza a tua vida e sê feliz
nunca esperes que um urubu aprecie o que fazes
em vida
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Dezanove (a agonia dos poemas de amor)
milhentas poesias de amor e miríades de poesias eróticas. poemas sem vergonha ou pudor, poemas sem tabus, poemas impopulares e contrários. poemas de análise sociológica. de luta politica. do século XXI e em diante. tudo se fez e em demasia.
a facilidade com que fazemos com arte poética um poema de amor, usando uma metáfora conhecida e a facilidade em usar linguagem poética num poema erótico mesmo com a fronteira do mau gosto como linha invisível e depressa passando-se para lá e depressa estragando o que já não era poema. “Amo-te, tu és o meu sol, a minha lagoa azul…”, fica bem, vulgar, batido, soa a cliché. fica bem, se introduzirmos sexo no poema “sacio-me e bebo dos teus seios e irrompo-me como um vulcão incandescente…”, fica bem no poema a beleza sem subtileza e com paixão. o poema de non sense, o poema de gosto atroz. a descrição do ato amoroso com a ajuda das metáforas que os poetas trabalharam para nos servir. por décadas as mesmas: céu, sol, mar, tempestade, horizonte, eternidade, fogo, gelo…, a poesia de inventar metáforas. o desconhecimento do mau e do escasso. ler Shakespeare e os seus sonetos que chegam para uma vida. a boa poesia erótica. Barbosa du Bocage, Natália Correia, Casimiro de Brito, David Mourão-Ferrreira e outros. um legado fértil e virtuoso. ler e estudar os mestres.  
pessoalmente optei por não me aventurar por esta via, só quando o poema manda.   poesia de amor, tem direção personalizada. dou-os por inteiro. foram os meus primeiros livros. cadernos escolhidos pela capa artística. copiar os poemas, já feitos e espalhados em folhas, dar-lhes um sentido sequencial, dedicá-los, datar e assinar no fim. edição única para uma só leitora. talvez um dia sairão para o mundo exterior, mas já não me pertencem.
Vinte (a agonia da metáfora)
Assim como o deserto, o nevoeiro é um tema recorrente na minha escrita. Uso estes termos como metáfora e abuso deles. Tudo tem a ver com tudo. No meu livro: “Tijolos de Verde Rude” (Corpos Editora), o último texto tem o título: “nevoeiros”, é uma espécie de conto meio surrealista, um enredo como que sonhado e visionado através dum nevoeiro onde não se discerne bem todos os pormenores. Mergulhar no nevoeiro não vendo o que está para lá, assim desapareceu Dom Sebastião no norte de Africa, conta a lenda, creio que tenha morrido na batalha com os mouros e tenham esquecido o corpo no deserto quando a neblina ou tempestade de areia passou, mas esses atos nunca constam na História. O deserto, a metáfora. Utilizei-a como recurso em todos os textos no meu segundo livro: “Histórias do Deserto” (Atelier de Produção Editorial – Quasi Edições) mas a mistura e tentar alargar os sentidos do tema fez com que o livro ficasse desequilibrado e não gostei o facto de porem dois poemas na mesma página e terem deixado passar uma gralha ou outra. A editora abre falência e perco a oportunidade de corrigir as falhas numa hipotética segunda edição. Zangado deixo de o promover, fica só para amigos que saltam estes pormenores que o autor tanto dramatiza. De toda a forma estas obsessões metafóricas ficaram aquém do que queria transmitir. Por isso continuo a escrever e regressarei aos nevoeiros, espero não me perder na névoa e regressarei às travessias do deserto que também espero que não durem quarenta anos perdido no meio dum povo à procura da terra prometida, sei lá se vou viver isso mais, é muito provável que não e que não me engane com nenhuma miragem pois bem sei que elas são frequentes.
Partilho isto convosco, ciente que pode muito bem não interessar a ninguém.
Não é verdade?
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Vinte e Um (as agonias da catarse)
Sempre apreciei quando o artista põe tudo de si na sua obra. As vísceras e os medos. Todo o leque de sentimentos e emoções. Derrama todo o sangue e abre todo o coração. Quando isso sucede é sempre um momento único. O sofrimento do artista simboliza o nosso próprio sofrimento de quem aprecia a obra de arte.
Foi isso que em adolescente me levou a ouvir Doors e as deambulações niilistas de James Douglas Morrison, cujos livros li todos e várias vezes, Janis Joplin, Bob Dylan, mais tarde Tom Waits, e em todas as variantes de rock n’ roll (são imensos os exemplos de catarse: Cat Power, Iggy Pop e os The Stooges, Nick Cave, etc…). As pinturas de Frida Kahlo, a poesia de Al Berto, Adilia Lopes, a obra de Louis Ferdinand Céline: “Viagem ao Fim da Noite”, os romances policiais de James Ellroy, a sua autobiografia: “O meu Quarto Escuro”, “Os ùltimos dias dum condenado” de Vitor Hugo, “De Profundis” de Óscar Wilde, “Poema Sujo” de Ferreira Gullar, sei lá que mais. Ir ao inferno profundo do autor pode significar ir ao nosso próprio inferno. Leia-se a dor que deve ter tido a escrever muitas obras, o caso de António Lobo Antunes.
Prezo este trabalho. Nunca analisarei, ou lerei um só poema que seja mesmo que ache mau sem levar em conta este aspecto. Sei lá o que sofreu o seu autor por aquelas palavras. Também eu sei que na maior parte das vezes um poema irrompe com dor, muita dor.
Escrevo intuitivamente o mais possível e por exemplo agora as memórias surgem e estão a surgir e custam a sair, vêm cobertas de lâminas que cortam à sua passagem.
Não vos acontece o mesmo?
 
Vinte e Dois (as agonias e uma só vida)
uma vida invulgar. parece que tenho vivido várias vidas. com vários nomes. não tenho signo. não celebro aniversário, só vivo. nem sequer bebo e tanto que já bebi. nunca festejei o natal, já faltei a 44 natais. nunca fiz uma árvore de natal. sou zero
por cento católico. sou apenas cristão de comportamento e principio. não conto os últimos segundos do ano. não sou supersticioso em nada. aboli os espíritos e expulsei-os de casa. não brindo aos deuses e o azar e a sorte são apenas duas faces do acaso imprevisto da vida. não fumo e hoje pouco sei como se faz. conduzo devagar e leio compulsivamente. ainda amo a mulher da minha mocidade. fui e sou
pai tardiamente, como dizem. já vou no segundo voto de pobreza, que me custa caro. hoje envio caixas e imprimo faturas e guias de remessa. trato bem as mulheres da limpeza, os moços das transportadoras e os vagabundos que pedem
dinheiro. dou-lhes pão, sopa, roupa e algumas vezes algum dinheiro. ficam amigos o que é estranho. tenho o coração mole. gosto de oferecer coisas, livros que já li, discos que já ouvi e noto que o outro fica embaraçado: - não faço anos hoje. no trabalho chamam-me poeta como quem chama louco. ouço dylan e a voz rouca sabe-me bem, também os dias o são, roucos e duros. sou distraído e incorrigível.
gosto de gatos e tenho alergia aos mesmos. escrevo isto embalado na minha crónica melancolia. respiro mal e durmo pouco, morrerei cedo. meço os meus dias de vida pelos dias de vida vividos do meu falecido pai em comparação. sei quantos foram. tenho os cabelos brancos em sua imitação. e ralado com ar envelhecido que me dá. há quem os pinte, há quem se refira a eles como charme, acho tudo isso estranho. gosto de queijo e de tinto e de acordar cedo e o que isso interessa. gosto das madrugadas, do frio, do vazio da cidade, perder essas horas é perder vida diariamente. não incomodo ninguém com as minhas maiúsculas.
II
não votem em mim mas votem, apetece-me dizer por estes dias. ou melhor não votem sejam melhores que o voto, talvez me apeteça mais dizer isto se me entrevistassem e aparecesse na televisão. já fui ministro religioso e parei. ainda durou muitos anos. deixei de estudar para este serviço e acho que vinte anos depois esgotei tudo o tinha de dar e decidi parar. para reflectir e recuperar um pouco do eu perdido. muitos irmãos espirituais deixaram de me falar. acho que Deus entenderá. editei dois livros de poemas e pequenas prosas pouco depois. disseram-me que não é assim que se faz. mas eu faço assim como faço. nada em mim tem um cronograma estabelecido. a vida não é como devia ser. é cruel e pouco justa. não incomodo ninguém com as minhas maiúsculas.
III
ler o corão não me faz muçulmano. descobri que é um livro imenso e dividido em versículos pequenos para ser decorado. uma lição de literatura. ler a bíblia não me faz cristão ou mesmo judeu. a menos que seja uma pessoa diferente. ler o lusíadas
não me fez poeta nem marinheiro. gosto da conversa simples do homem de rosto
tisnado. haverá uma poesia assim? gosto do simples, do puro e do rude com jeito.
não tenho mais vidas, só estas e assim. não incomodo ninguém com as minhas maiúsculas.
Vinte e Três (os escritores que bebem)
porque leio os escritores e poetas que bebem
se não bebo
Hemingway que entre o enredo e diálogos perfeitos sempre descreve com pormenor a bebida que se bebe e como se bebe
Raymond Chandler que sempre termina o dia do seu detetive após mais uma sova com um retemperador copo de bourbon
Bukowski entre seis linhas uma bebida uma média invejável
Malcom Lowry enquanto o povo festeja os mortos debaixo do vulcão, ele embebeda o cônsul atormentado
Raymond Carver nunca escreveu um conto em que ninguém bebesse, querem apostar
Jack Kerouac que partilha uma garrafa de Wild Turkey na carlinga duma camioneta com um trabalhador mexicano, enquanto deambula de costa a costa
e podia continuar com imenso prazer
mas também só trouxe os nomes dos lugares comuns
e o que me leva a ler estas esponjas
- a sua literatura impar
a bebedeira não lhes estragou o talento
apenas a vida e a saúde
e agora a imortalidade continua a embebeda-los sem emenda
porque ouço os cantores roucos
todos eles
todos os loosers e crooners de vida desfeita
porque li todas as obras que apanhei de gente sem eira nem beira
porque li e leio todos os John Steinbecks e as suas atualizações
todos os Bret Easton Ellis até o gajo escrever um livro sobre um psicopata
enfim porque leio
quero saber
ler levou-me a escrever e o que sei
é que continuo
continuo
continuo.
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Vinte e Quatro
A mulher não precisa de ser poeta. Já é mulher. Neste Portugal já aguenta às suas costas o preço elevado e em sangue da civilização. Mesmo assim, algumas são - as poetas - que deixam no poema o registo da vida derramada no solo seco e por lavrar do futuro.
Eu gosto de as ler.
 
Vinte e Cinco (as agonias da espiritualidade)
“O mundo mudou muito.” – dizia numa expressão repetida certa comentarista na rádio. Esta expressão é de todos. E é uma realidade.
Não faz sentido a figura poética e romântica do poeta que vive nas margens do rio límpido do campo cantando os seus poemas às meninas encantadas e sem nada que fazer. A figura romântica do poeta ocioso e amante se existiu há muito que terminou. A figura do poeta intelectual de vanguarda filosófica que intervêm na sociedade ainda existe mas tem de ocupar o seu lugar junto com outros poetas que fazem parte de todas as secções da sociedade e não apenas classes sociais.
Se o mundo mudou e a poesia não, então para que serve?
O poeta hoje além do académico é também o homem que entrega as pizzas, nos despeja o lixo e a senhora que faz a limpeza no escritório e que nasceu noutro pais.
Junto com o nosso vizinho do lado, o medico que nos vê os dentes, o ministro que nos governa e o músico de rua que toca um blues por algumas moedas.
Que aspeto tem o poeta, todas as aparências possíveis e não apenas a imagem extravagante ou lunática que em tempos se associava.
Embora nem todos tenham encaixado esta realidade, ela tem sido bem absorvida e naturalmente vivida em meios de desenvolvimento cultural.
Mas as espiritualidades não mudaram tanto. São aliás sempre as mesmas. O que há algo de novo é uma sopa com todos os ingredientes de nome: esoterismo. Em que tudo se mistura.
Só com fortes contradições. Cristianismo com xintoismo, judaísmo com budismo, e por ai fora, uma fusão que não beneficia a verdade das coisas. Misturar verdades com doutrinas tradicionais que na prática não passam de conjeturas e opções que se tomam sem tomar em conta a Razão e a Evidência, gera confusão. De repente, esoterismo, a mistura passou a ser religião ou vivida como se o fosse. E este facto vem para a poesia, como não poderia deixar de ser. Mas tentem fazer sopa com doses cavalares de açúcar e sal, picantes e sabores a mel, misturem e misturem e o que dá. Palavras sem fim e perdão, sem significado. No mesmo poema que se quer laico ou não, por opção defendida pelo autor, doses de superstição e truques para proteção e atração de sorte aos espíritos. Porque pede ajuda a Deus um ateu? Como pode um crente e associado religioso defender o agnosticismo e apedrejar outros crentes? E porque misturamos tudo no poema? Para atrair todo o tipo de leitor, os laicos e os religiosos e os assim-assim? Ficam poemas densos sem dúvida mas totalmente desprovidos de bom senso, ou de poética sem tino, ao menos que assumam o non sense que é uma escola como outra qualquer.
Trata-se de um protesto por falta de equilíbrio no uso da espiritualidade no poema. Há algo universal e intemporal relacionado com a religião e a espiritualidade: somos seres espirituais, com uma inclinação para o divino. É um facto. E devemos respeitar o outro no uso da sua própria procura de resposta e faço-o rigorosamente, mas a Verdade é a Verdade. Hoje temos conhecimento de muito, nunca de tudo (o mais perigoso dogma, a utopia perfeita) e é possível ser-se razoável nas respostas possíveis de temas tão velhos como a humanidade como a existência de Deus e o inicio do universo, ou quem somos, para onde vamos, etcetera. Refletir é bom.
A espiritualidade é um campo fértil para a poesia. Mas se optarmos pela mistura cega a eito o poema sofre. Poucos conseguem um bom e saudável equilíbrio. Mesmo nos consagrados. Estudem-nos.
Dou vários exemplos: Pablo Neruda (não, não é só critica social e politica e poemas de amor), Cecília Meireles, Adélia Prado, Daniel Faria, José Tolentino Mendonça, e muito mais, apenas uma escolha rápida de quem escreve em português.
Mais uma vez, um mero ponto de vista e uma partilha.
Assumo toda e qualquer contradição e ideia irrealizável que venha a existir nas minhas palavras e saibam que sempre me refiro ao geral e nunca ao particular.
Sou um leitor atento e entusiasmado de poesia apenas.
Vinte e seis
 “… as coisas vêm vão / e são tão vãs… “ (Ruy Belo)
O preconceito é um juízo concebido antes da consciência real do facto. Quando o assunto é esoterismo por exemplo, não formulo conceito. Mas tomo posição.
O que é de facto, o esoterismo?
A que fim se propõe?
Que relação têm o esoterismo com o ocultismo? 
Porque o esoterismo não é para todos e se declara como uma espécie de clube privado?
Sendo o oculto o lado negro das coisas e a sombra a ausência de luz e a luz o sinónimo do conhecimento e da verdade, será que é apenas o apelo ao desconhecido que nos atrai?
No esoterismo existe uma junção de oriente e ocidente fazendo com que doutrinas em si contraditórias se juntem, qual é o objetivo e o que produz?
O esoterismo não sendo uma religião e uma religião é um conjunto de princípios e hábitos que se querem de proveniência divina ou mística e que se traduzem como modo de vida, então o esoterismo é o quê? 
Por fim, todos os praticantes se o são ou defensores da filosofia esotérica se o é também, qual a sua influência na sociedade?
A resposta franca e aberta a estas questões, irá contribuir para trazer alguma luz ou esclarecimento ao assunto? Luz, clareza, entendimento, o que contradiz a própria noção de oculto ou mesmo de esoterismo. O que me levou à minha tomada de posição. Portanto, 0% de esoterismo, de ocultismo, de conceitos que se sabe comprovando que não existem ou são vagos, de superstição, de ritualismos, de fronteiras que se interpõem e dividem a sociedade, de clubes privados, de maçonarias, de espiritismo e outras portas fechadas para alguns que só se abrem em determinadas circunstâncias especiais que não são claras.
Às claras, descobre-se o que está por detrás da sombra. Assim lidamos com os nossos medos e obsessões olhos nos olhos. Sem superstição e métodos mágicos. Mas sim com sobriedade e pleno raciocínio. Na minha limitada e autodidata poesia não há esoterismo. É uma opção consciente.
O outro que siga o seu caminho. Sem preconceito.
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Vinte e Sete (a última das grandes agonias)
a minha vulgaridade assusta-me. é só isto? e se for? não chega e é pouco. nunca se alcança. a reposta é sempre lenta e fragmentada. porque escrevo e para que serve. não faço a mínima ideia. para calar a tristeza crónica, a melancolia do fim da rua, ou apenas por hábito. escrever num quarto bafiento sempre de janela aberta quando chove até os nós dos dedos enrijarem por causa do frio. escrever no canto estridente do centro comercial com transeuntes a olharem por cima do ombro. escrever no comboio em cadernos com nódoas de gordura que gotejam da sandes de atum e maionese. escrever sempre da meia noite à uma da manhã por anos a fio colecionando papos debaixo dos olhos.
escrever é uma agonia.
(num dia destes – fazia frio)
Vinte e Oito (e agora, voz?)
ouvi uma voz que me disse em voz baixa: essa coisa que escreveste, põe no poema. não entendeste? transforma isso em poema. vai e faz um poema com isso tudo.
as vozes vêm sempre de nós e eu respondi-lhe: tomara eu.

(Ago.11)
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Outros Lamentos:
E agora, algo de diferente. Talvez algo tenha de terminar para outra coisa começar, no entanto fundindo-se e tornando tudo mais rico. Bem, isso é universal, não acham?

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Preciosas sugestões para se escrever bons haikus

Do blogue: Haiku Portugal, de David Rodrigues, saiu este texto acerca de José Marins, um excelente haicaista, como é chamado no Brasil e que vive em Curitiba, terra de Paulo Leminski, com instruções acerca da escrita dos haikus.

"José Marins é um dos estudiosos de poesia haiku mais dedicados e competentes. Ombeia com os grandes especialistas internacionais do tema.
José Marins (de Curitiba, Brasil) acaba de divulgar um texto que certamente será precioso para quem queira compreender e iniciar-se no haiku.
E aqui fica com o cumprimento e uma homenagem ao sutor:


Breve poética da leitura de haicai
Quem se interessa pelo haicai descobre que é um poema dedicado à natureza, ao meio ambiente (para usar uma expressão da atualidade).
O leitor de livros de haicai exigente procura saber mais do pequeno poema, conhece dele a estrutura (redondilhas menores e maior), a ausência de rimas, mas conta os sons na métrica, dispensa o título, privilegia a linguagem simples.
Nota que o poema traz um efeito, um sentido no leitor, nas leituras sugeridas, seja uma cena, uma ação, um gesto, um canto de pássaro, o zinir do vento, o prateado do orvalho.
O haicai é um diálogo.
O poeta já se foi e deixou um bilhete, o poema, aos olhos do leitor.
Captar o sentido que nem sempre está explícito, porque pode estar sugerido, é o deleite de sua leitura.
O poeminha não é feito de mínimo para alcançar o máximo. A pequenez de seus três versos busca a brevidade do instantâneo, o sucinto, o essencial. Ele não busca o máximo de sentidos, mas tão somente um número limitado de efeitos de si para quem o lê. Às vezes apenas aponta para um cisco na cena. Os grãos amarelos de pólen nas patas pretas da abelha.
A fulgor do haicai, que pode durar séculos, é a de uma estrela cadente, o piscar do pirilampo na escuridão, o som da rã ao mergulhar.
Quem quiser polissemia de palavras, múltiplos significados metafóricos, infinitas leituras, deve buscar outro tipo de poema. O haicai não existe para significar issos e aquilos, não há interpretação para se fazer, nem sentidos ocultos. O que temos para ler do poeminha está nele, brilhando como uma gota de orvalho que de súbito escorrega de cima de uma folha.
Se tivéssemos que conhecer todos os contextos, as cenas haicaísticas, os momentos, dos quais se capturaram os haicais, não poderíamos ser seus leitores.
O pertencimento a uma estação ou a outra é dado pelo kigo. O termo sazonal que nada explica, mas situa a vivência do poeta e a ecologia do poema. Mas ninguém é obrigado a saber a lista de termos de estação para ler haicai.
Um chavão entre os poetas do haicai, que soa como advertência, é: o haicai que precisa de explicação, não é um bom haicai.
Porém, confesso: como leitor eu gosto de explicações e histórias a respeito de haicais.
Assim, por exemplo, quando leio este haicai de Bashô:
-
vai-se a primavera –
os pássaros lamentam-se,
os peixes choram
-
O poema tem o suficiente, funciona sozinho e sustenta a minha leitura.
Mas é inegável haver nele uma atmosfera dramática. Seria o exagero uma antevisão do inverno que se avizinha?
Um tradutor espanhol (Fuente) escreveu: “O final da primavera entristece Bashô, que sente as aves e os peixes participarem de seu sentimento.” Pode ser.
Entretanto, este poema inaugura aquela que é considerada a mais importante viagem deste poeta peregrino. Quando está prestes a partir, ele sente tristeza e apreensão. Os amigos o acompanham em barcos até o início do caminho por terra. Ali ele se despede com “lágrimas de adeus”. Depois de anotar o poema, Bashô escreve no diário: “Este poema foi o primeiro de minha viagem. Pareceu-me que eu não avançava ao caminhar. Tampouco as pessoas que tinha ido se despedir de mim se afastavam, (...)”
Querer que o haicai seja outra coisa que não ele mesmo, com suas características técnicas e artísticas, é a pior forma de leitura que se faz, infelizmente do poema. Compará-lo, por exemplo, à arte plástica para dizer que o haicai é muito “figurativo” e pouco “abstrato”, é uma forma de ignorar a riqueza de sua linguagem. Ou não teríamos um haicai, por exemplo, como este de Bashô:
-
escurece o mar –
a voz dos patos selvagens
vagamente branca
-
Aqui o poeta contrasta o escuro do mar com o branco dos gritos dos patos, ou seja, utiliza da sinestesia, um recurso sofisticado da linguagem.
Não estou dizendo que o haicai tenha que ter sofisticação. Sua afirmação como poema específico na poesia universal é secularmente definida. Sua linguagem continua sendo simples, nossas leituras é que precisam ser aprimoradas.
-
noite de invernia –
o silêncio por pouco
sem o som do rio
-
josé marins

A seguir a estas últimas leituras apetece-me poesia, excelente poesia. Daquela que não se vende. Há poesia que se vende? Há. Sobretudo de poetas mortos. Pablo Neruda vende como melões, por exemplo. Acerca de poesia e do comércio da mesma, Carlito Azevedo (poeta brasileiro, editado pela Cotovia) afirma o seguinte nesta entrevista:
Como se não soubéssemos o que o prezado poeta afirma. Mas haverá almas-de-marketing que acabarão por transformar a poesia em produto comercializável e rentabilizável. Será tudo uma questão de tempo. Ainda transformarão Portugal num país exportador de poetas e de poesia. Será uma poesia de postal, aforismo e leve. Para se vender terá de ser assim. A não ser que um dos nossos poetas ganhe um Nobel.
Vender poesia. Parece ser um problema de quem edita livros. E os poetas (sem ser Carlito Azevedo) que acham disto?
Que pensaria Fernando Pessoa do que fizeram à sua poesia, aos seus aforismos que começaram a aparecer em todo o lado e que fez vender a sua poesia? Foi uma forma de o dar a ler mundo afora.
De toda a forma, gosto da frase que se ouve quando levamos um original a um editor: - Um original de poesia? Isso não se vende. Da próxima vez, traga um romance.
Acho estas frases um forte incentivo a que se escreva aquilo que nos der na real gana. Como poesia. Amalucada, polémica, inventiva, desbragada, assanhada, leve ou pesada como montes, curta e longa como continentes, estúpida e reflexiva, doida sem remédio, clássica ou do século 22, espontânea ou tecida curva a curva. Mas que seja poesia, à laia de Byron de Camões ou de Ferlinghetti. Tanto faz.  

Set. 11

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Uma Biblioteca em cada esquina

Havia uma piada num dos episódios da série: “Seinfeld” em que o próprio era questionado por dar um livro e não o guardar. Porquê guardar um livro se já o lemos? O personagem justificou-se que não fazia qualquer sentido guardar um livro e que era uma mania, pois já o havíamos lido e provavelmente não o iriamos ler de novo.
Porque guardamos os livros? Para os ler de novo.
Porque guardamos os livros? Para os partilhar. Ou com o senso de posse que nos acompanha desde sempre. Para dizermos que o livro é nosso. Como uma propriedade.
Mas e se víssemos o livro não como um objecto que nos pertence mas a toda a gente? Eu tenho os meus livros e os dos outros e os outros têm os meus livros. Os livros são de todos e não propriedade pessoal de ninguém. O que parece uma ideologia política podia ser um princípio de partilha pura. Em vez de arrumarmos os livros nas 4 paredes da nossa casa, arrumaríamos nos bancos de jardim, nos assentos do metropolitano, no médico, nas escolas, nas firmas. E quando quiséssemos ler, era só esticar o braço ao livro mais próximo. Este jeito de se perder livros podia ter um fundo temático, deixar os poetas nos jardins, os romances nos transportes, a economia nos bancos e o resto em sítios adequados e associados de alguma forma com a leitura.
- Tu que estás a ler? Eu acabei este. Toma. E obrigado. Quando acabar volto a deixá-lo aqui para o caso de quereres voltar a ler. Aceitas um café?
Mas não, entupidos com o nosso egotista senso de posse, doentio e autista, queremos guardar os livros lá em casa. Fechados. A ganhar pó. E a exibir a cheia vaidade de que os lemos mesmo que não seja totalmente verdade.
Como qualquer ideia, pode ser boa e má ao mesmo tempo.

Set. 11

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Os poetas são pedintes

novos pedintes. Ninguém publica os novos poetas. Portanto, os novos poetas editam por si, em edições de autor baratas e leves. Para venderem os seus livros, os novos poetas montam napas no chão e expõem os livros a eito. Discutem o preço com os promissores compradores. Chamam a atenção de novos e de distraídos compradores. Divulgam a megafone a sua poesia. Várias vozes sobrepõem-se nas feiras improvisadas nas ruas, nas calçadas, nos largos e à beira mar. Aprendem a enrolar os livros nas mantas e a fugir estrada fora, quando chega a polícia. De vez em quando, são agarrados e têm trinta dias para pagar multas por não terem licença para vender produtos. Não existe nenhuma lei para a venda ambulante da poesia. Sempre estarão fora da lei. O que acrescenta um certo romantismo. Mas há dias felizes para os novos poetas. Há dias em que os poetas regressam a casa com vinte euros no bolso e que lhes deu para comprar papa láctea para os filhos e esparguete e salsichas para o jantar. A nova poesia quer-se acerca do dia-a-dia mas por vezes também é fortemente metafórica.

Nov. 11

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Sílabas, rostos e arredores

Uma espécie de haicai de Lisboa, com cinco versos vezes três mais sete versos vezes três e mais cinco versos vezes três, dá um sub-total de dezassete versos e vezes três dará um total de cinquenta e um versos. No inicio, nove versos vezes três e no final seis versos vezes três. Completo o haicai de Lisboa.
(Sem data)
No poema as ruas e os rostos. Só os rostos. Porque os rostos são pernas e corações. Às vezes, lágrimas e nervos. Esqueleto e sombra de braço encolhido. Rostos de esquinas, de subidas íngremes que se deitam por séculos em gavetos apertados. Nalguns deles passa o eléctrico. Vejo-o duma pequena esplanada bebendo um maduro, como num carrossel de máscaras. Entre abanões e cheiro metálico o eléctrico entre no largo. Graça. Atravessam mulheres, um velho reboca uma criança com um chupa do tamanho do seu rosto mas sem o sorriso. Os rostos. O meu passeio. Um poema pelas ruas a cair. Com uma montanha de sílabas todas encavalitadas com cio. De língua de fora, como cão vadio empoleirado. Completo o poema, género japonês, medieval ou não.
(Com data, uma delas…)

Ago. 09

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importante

eu sou mais importante que tu porque eu fiz mais do que tu porque eu pensei e sonhei e tudo muito mais do que tu, por isso sou mais importante que tu
mas isto é tão ridículo, se calhar não sou mais importante que tu porque o que fiz não se quantifica, nunca saberei se fiz mais do que tu e também os outros, no fundo sei lá
fiz menos, fiz menos, ao comparar as coisas que se fazem encolhem porque não se devem comparar nem quantificar, são apenas coisas e sabes nem coisas são, um filho não é uma coisa, um livro não sei o que é, há livros que sei, são lixo mas outros ninguém sabe o que são e são dos que ficam, concluo fiz menos muito menos do que tu
nunca chegarei aos teus calcanhares ou à tua sombra, o que fizeste ou pensaste fazer, sonhando ou não é tão real que não se comparando com o meu caso mas apenas fingindo, não fiz nada, nada
não sou nada, não sou ninguém, não fiz nada e o que farei, provavelmente nada
sou nada e nada importante mas tu és gente e o que fazes e farás será melhor do que alguma vez farei
tenho pena de mim como nunca achei que devia ter, nunca achei que se devia ter pena de alguém e acabo tendo pena de mim que sou um nada importante e gosto de ti como és sendo importante como toda a gente e toda a gente todas as pessoas são importantes todos sem excepção
sendo assim alguma importância terei

nov. 11

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O poema é uma criança

que se corrige mas não se pode corrigir demais uma criança.


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Boas leituras.