quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

AS RELVAS

As relvas tão timidamente verdes e por ventura diria descascadas e de raízes a desnudar-se, as árvores sem pudor mostram-nas e nós viajantes da cidade, nelas nos sentamos, por ali noutros tempos uma bola saltou todas as tardes, depois o bairro decidiu fugir para outros sub mundos, porque todos os bairros têm uma vida duas, três e mais, degradam-se, renovam-se e voltam a cair, a morrer e voltam a nascer. 
Por entre a relva o lixo, melhor seria os passos dos dias e dos tempos. Das décadas e das conversas sussurradas nas sombras dos enormes plátanos nada ficou registado. A cidade também se consome a si própria mas recria-se sempre que o sol se faz ao horizonte.
Neste bairro de antigas oliveiras, onde as crianças pensam que olivais são prédios de dezena e meia de andares com olhos quadrados plantados em pequenas colinas ou não, nos dias de nevoeiros motores a dois tempos ruidosos e fumarentos ainda ladram assustando os pardais mais pequenos nos seus ninhos encobertos pelas folhas mais solidárias das árvores de grande porte.  

Aqui vivo há anos a fio diria de prumo pois os anos que passam são matematicamente crus e insensíveis às dores de articulações. Passeio-me nesta velha carcaça e se a humidade de hoje permitir atravessarei a avenida e irei visitar a minha velha amiga viúva, surda mas com sorriso de colinas verdes. Gosta de ouvir Piotr Ilitch Tchaikovski de Kamsko-Votkinsk a decibéis elevados e de falar por horas sem parar. Já lhe ouvi as estórias todas mas posso ouvi-las uma vez mais. São sempre belas como o sorriso intemporal da minha velha amiga.
As relvas que piso hoje estão mais verdes, mais escorregadias, um dia darei uma queda fatídica, que não seja hoje.

Dez. 10

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