terça-feira, 30 de novembro de 2010

GOSTARIA QUE FOSSEM PEQUENOS ENSAIOS

O texto é o mais importante. Larguei a cor negra como fundo, que tanto gosto, porque prejudica o texto. Ofusca, distrai, etc. Espero que gostem assim. O fundo, ando à procura de algo que preencha e não distraia. Que ganhem as palavras e a escrita poética. Cada vez mais este é um espaço de escrita e de partilha. O meu e o vosso atelier ou laboratório de experiências, porque não? Um excelente dia para todos os leitores e amigos. Que contribua, mesmo que pouco para pôr a "mão no poema da bicicleta", como nos escreveu o mestre Herberto Hélder.

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Haverá crise na escrita poética em pleno ano 10 do séc. XXI?

Ainda vivemos no século XIX das palavras. Cultivamos o Romantismo em exagero mas não o vivemos, pois não saberíamos como. Como se fossemos Rimbaud mas não vagabundeando em várias perdições, mas sim enclausurados nas nossas vidas nada-livres de funcionários responsáveis. Embebedamo-nos como Baudelaire e somos mesmo capazes de escrever odes malignas mas não o sentimos arrebatar os nossos dias, são só palavras. Não vivemos o que escrevemos. Alguns já vivem no século XX mas não passaram o pós-guerra, ainda são surrealistas fora de tempo como se habitassem nos anos loucos numa Paris boémia, mas lamento avisar: estão aqui e ainda vivem no mesmo bairro e muitos elevam a voz a um nível tão alto que nunca poderão viver a sua utopia pois colocaram a fasquia nos últimos ramos da Grande Árvore que são os ramos mais frágeis e quebradiços, e muitos celebram o sexo, as drogas e o rock and roll mas ainda vivem em casa dos pais e visionaram o Woodstock em dvd, perguntaria se têm a noção daquilo que escrevem e que é bom que saibam que nunca houve revolução que se fizesse só com palavras e ainda por cima virtuais, palavras escravas da eletricidade e da tecnologia, vermes de consumo de propaganda e perdição. Que fará o poeta pobre da rua? Em que site irá carpir as suas agruras e ideias em soneto rebelde? A escrita poética sofre com isto. E transmuta-se em novas palavras e morre todos os dias. Como não é só orgânica, pode nascer em qualquer lado e floresce no xisto selvagem e no frio betão citadino. Seria necessário que deixássemos de vez a adolescência sonhadora e confusa já esticada ao limite e deixássemos entrar a realidade como ela é no mundo das nossas expressões, bem vindos ao mundo adulto da velha escrita poética, onde há dores sem bálsamo e onde a eternidade é um reles conceito esotérico sem brilho e sem verdade. Para viver mais tempo temos as tartarugas e as sequóias e a vontade de Deus. Repetir vez após vez metáforas gastas como alcatifas sem pelo e cheias de nódoas mal cheirosas de sonhos de pacotilha, só produz um particular e maníaco cansaço.

Onde está a escrita poética nos nossos dias e onde estão os dias na nossa “poesia”? Lamento a clareza simplista, infantil, a confusa rede de corredores nos lugares comuns e das palavras tão longas quanto improfícuas, geralmente a atenção que lhe damos é o tempo que damos ao nosso lixo doméstico, embalamo-lo ou ensacamo-lo e rapidamente deitamos fora. Ignoramos o que fazem com ele depois. Por vezes, nada. E este ato é robotizado inconscientemente.

Analisando friamente este duro problema, constatamos que a escrita poética que lemos, dos grandes mestres intemporais, não têm a mesma raiz produtiva e folha brilhante e flor radiante rumo ao céu em relação à escrita que escrevemos.

Faço a pergunta: se o que escrevemos não é melhor do que Neruda, ou Pessoa, ou Borges ou outro então para que presta? Onde está o eu profundo, porque nos escondemos acriançados nas personagens, porque optamos pela fuga fácil da ficção ou fantasia, porque repetir sem ter a coragem de apenas copiar, assim se aprende em muitas artes até à voz própria que pode nem sequer existir, porque não se cultiva a genuína humildade e não se ridiculamente aplaina as motivações e aspirações na genialidade como base para o progresso e claro que depois é só a descer, onde estão estes dias que vivemos na escrita que fazemos, afinal é aqui e agora onde vivemos e não na ilha verde dos sonhos ou no teatro dos horrores mal encenados?

Aonde me baseei na minha analogia, se o é? Em mim mesmo. Concluo que cada texto ou tela estendida de ideias surge sempre entre esta dança inquietante entre a desistência e o fazer qualquer coisa. Posso desistir hoje de escrever para sempre, agora mesmo e passar a ser apenas um leitor, papel em que me sinto confortável mas amanhã continuo…

20 Junho 2010

“O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro.”

(Ruy Belo)

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