quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ÁS VEZES

Ás vezes venho aqui para descansar. Afinal que tem este lugar, tem sombra, árvores e umas estantes. Sento-me e leio, observo e converso com sorrisos com as pessoas. Poucas, que por aqui andam, trabalham aqui, limpam, arrumam, atendem os clientes, serão clientes, estas pessoas? São bonitas, algumas não são novas e são mais bonitas, sorriem muito, são leves, quase não se ouve os seus passos, são pessoas bonitas. Gosto de pessoas bonitas. Sento-me e leio, escrevo umas frases, um dia farei alguma coisa com elas, o que pode muito bem ser absolutamente nada, as frases já fizeram muito por mim e parece que me observam do branco da folha do caderno de capa preta, desses baratos, sempre de folha quadriculada e nunca percebi porquê. Nunca percebi, há coisas que não se percebem. Mas este lugar percebe-me. O silêncio. A janela aberta e os livros na estante. Vou ficar mais um pouco.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

AS RELVAS

As relvas tão timidamente verdes e por ventura diria descascadas e de raízes a desnudar-se, as árvores sem pudor mostram-nas e nós viajantes da cidade, nelas nos sentamos, por ali noutros tempos uma bola saltou todas as tardes, depois o bairro decidiu fugir para outros sub mundos, porque todos os bairros têm uma vida duas, três e mais, degradam-se, renovam-se e voltam a cair, a morrer e voltam a nascer. 
Por entre a relva o lixo, melhor seria os passos dos dias e dos tempos. Das décadas e das conversas sussurradas nas sombras dos enormes plátanos nada ficou registado. A cidade também se consome a si própria mas recria-se sempre que o sol se faz ao horizonte.
Neste bairro de antigas oliveiras, onde as crianças pensam que olivais são prédios de dezena e meia de andares com olhos quadrados plantados em pequenas colinas ou não, nos dias de nevoeiros motores a dois tempos ruidosos e fumarentos ainda ladram assustando os pardais mais pequenos nos seus ninhos encobertos pelas folhas mais solidárias das árvores de grande porte.  

Aqui vivo há anos a fio diria de prumo pois os anos que passam são matematicamente crus e insensíveis às dores de articulações. Passeio-me nesta velha carcaça e se a humidade de hoje permitir atravessarei a avenida e irei visitar a minha velha amiga viúva, surda mas com sorriso de colinas verdes. Gosta de ouvir Piotr Ilitch Tchaikovski de Kamsko-Votkinsk a decibéis elevados e de falar por horas sem parar. Já lhe ouvi as estórias todas mas posso ouvi-las uma vez mais. São sempre belas como o sorriso intemporal da minha velha amiga.
As relvas que piso hoje estão mais verdes, mais escorregadias, um dia darei uma queda fatídica, que não seja hoje.

Dez. 10

terça-feira, 30 de novembro de 2010

GOSTARIA QUE FOSSEM PEQUENOS ENSAIOS

O texto é o mais importante. Larguei a cor negra como fundo, que tanto gosto, porque prejudica o texto. Ofusca, distrai, etc. Espero que gostem assim. O fundo, ando à procura de algo que preencha e não distraia. Que ganhem as palavras e a escrita poética. Cada vez mais este é um espaço de escrita e de partilha. O meu e o vosso atelier ou laboratório de experiências, porque não? Um excelente dia para todos os leitores e amigos. Que contribua, mesmo que pouco para pôr a "mão no poema da bicicleta", como nos escreveu o mestre Herberto Hélder.

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Haverá crise na escrita poética em pleno ano 10 do séc. XXI?

Ainda vivemos no século XIX das palavras. Cultivamos o Romantismo em exagero mas não o vivemos, pois não saberíamos como. Como se fossemos Rimbaud mas não vagabundeando em várias perdições, mas sim enclausurados nas nossas vidas nada-livres de funcionários responsáveis. Embebedamo-nos como Baudelaire e somos mesmo capazes de escrever odes malignas mas não o sentimos arrebatar os nossos dias, são só palavras. Não vivemos o que escrevemos. Alguns já vivem no século XX mas não passaram o pós-guerra, ainda são surrealistas fora de tempo como se habitassem nos anos loucos numa Paris boémia, mas lamento avisar: estão aqui e ainda vivem no mesmo bairro e muitos elevam a voz a um nível tão alto que nunca poderão viver a sua utopia pois colocaram a fasquia nos últimos ramos da Grande Árvore que são os ramos mais frágeis e quebradiços, e muitos celebram o sexo, as drogas e o rock and roll mas ainda vivem em casa dos pais e visionaram o Woodstock em dvd, perguntaria se têm a noção daquilo que escrevem e que é bom que saibam que nunca houve revolução que se fizesse só com palavras e ainda por cima virtuais, palavras escravas da eletricidade e da tecnologia, vermes de consumo de propaganda e perdição. Que fará o poeta pobre da rua? Em que site irá carpir as suas agruras e ideias em soneto rebelde? A escrita poética sofre com isto. E transmuta-se em novas palavras e morre todos os dias. Como não é só orgânica, pode nascer em qualquer lado e floresce no xisto selvagem e no frio betão citadino. Seria necessário que deixássemos de vez a adolescência sonhadora e confusa já esticada ao limite e deixássemos entrar a realidade como ela é no mundo das nossas expressões, bem vindos ao mundo adulto da velha escrita poética, onde há dores sem bálsamo e onde a eternidade é um reles conceito esotérico sem brilho e sem verdade. Para viver mais tempo temos as tartarugas e as sequóias e a vontade de Deus. Repetir vez após vez metáforas gastas como alcatifas sem pelo e cheias de nódoas mal cheirosas de sonhos de pacotilha, só produz um particular e maníaco cansaço.

Onde está a escrita poética nos nossos dias e onde estão os dias na nossa “poesia”? Lamento a clareza simplista, infantil, a confusa rede de corredores nos lugares comuns e das palavras tão longas quanto improfícuas, geralmente a atenção que lhe damos é o tempo que damos ao nosso lixo doméstico, embalamo-lo ou ensacamo-lo e rapidamente deitamos fora. Ignoramos o que fazem com ele depois. Por vezes, nada. E este ato é robotizado inconscientemente.

Analisando friamente este duro problema, constatamos que a escrita poética que lemos, dos grandes mestres intemporais, não têm a mesma raiz produtiva e folha brilhante e flor radiante rumo ao céu em relação à escrita que escrevemos.

Faço a pergunta: se o que escrevemos não é melhor do que Neruda, ou Pessoa, ou Borges ou outro então para que presta? Onde está o eu profundo, porque nos escondemos acriançados nas personagens, porque optamos pela fuga fácil da ficção ou fantasia, porque repetir sem ter a coragem de apenas copiar, assim se aprende em muitas artes até à voz própria que pode nem sequer existir, porque não se cultiva a genuína humildade e não se ridiculamente aplaina as motivações e aspirações na genialidade como base para o progresso e claro que depois é só a descer, onde estão estes dias que vivemos na escrita que fazemos, afinal é aqui e agora onde vivemos e não na ilha verde dos sonhos ou no teatro dos horrores mal encenados?

Aonde me baseei na minha analogia, se o é? Em mim mesmo. Concluo que cada texto ou tela estendida de ideias surge sempre entre esta dança inquietante entre a desistência e o fazer qualquer coisa. Posso desistir hoje de escrever para sempre, agora mesmo e passar a ser apenas um leitor, papel em que me sinto confortável mas amanhã continuo…

20 Junho 2010

“O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro.”

(Ruy Belo)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

DEAMBULAÇÕES SOBRE LEITURAS E AFINS

Albert Cossery escreveu 8 livros. Entre 1913 e 2008, o tempo da sua vida. Um em 1927, em 1944, em 1948, em 1955, em 1964, em 1975, em 1984 e em 1999. Dá uma média de 1 em cada 10 anos. Foi conhecido pelo escritor da preguiça. Uma preguiça inteligente, dizia ele. A escrita do homem é perfeita. Tudo no seu lugar. Falou de mendigos, lunáticos e homens esquecidos. Uma critica dura ao mundo.




Lendo Albert Cossery

Dizia que se fizesse uma frase bem escrita por dia, seria bom. Viveu pobre. Fez um estranho e corajoso pacto de pobreza consigo próprio. Lemos os seus livros e aprendemos muito acerca dos homens. Assim como Shakespeare, Tolstoi e outros, poucos. Hoje, a Literatura é incendiada por figuras que escrevem um livro em semanas. Figuras públicas, mandam livros para a rua com futilidades. Vendem estranhamente. Amanhã os seus livros serão varridos e incinerados com todo o lixo.

Como se faz a um jornal de ontem. Um dia, recordaremos Shakespeare, Tolstoi, a Bíblia e pouco mais. Vale a pena escrever mais um livro? Eu, simples sombra, digo: vale. Mas escrevam o melhor livro de sempre, com tudo lá dentro. Demorem anos, mastiguem-no bem, vivam cada frase e vírgula. Sejam melhores que os melhores deste tempo. Só assim valerá a pena. Senão, as vossas obras e as vossas expectativas serão varridas com o papel velho, sem terem marcado a alma de uma formiga sequer. Uma dica, um bom livro é um livro que não se gosta e não se deita fora. Ferve dentro de nós e voltamos a ele vezes sem conta. Entre o amor e o ódio como um humano. Pode ser feio, porco e mau, como o título do filme. E não os esquecemos. Mas este sim, pudemos deixá-lo aos nossos filhos, netos e colegas. Leiam-no. Vale a pena. Mas que sei eu? Um abraço, malta. O escritor não presta. O padeiro, o leiteiro e o médico, sim. O escritor só vale aos seus contemporâneos se for muito bom. E os melhores, escreveram um livro decente em toda a sua vida. E muitos deles trabalharam todos os dias. Vale a pena pensar nisto.

Não me censurem, estou a falar para mim mesmo, enquanto tento fazer uma frase de jeito. Agora sim, o tal abraço. Estou por aí. Bem hajam.

14 Jul. 09

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La Poesia (Octávio Paz)

Llegas, silenciosa, secreta, / y despiertas los furores, los goces, / y esta angustia / que enciende lo que toca / y engendra en cada cosa / una avidez sombría. // El mundo cede y se desploma / como metal al fuego. // Entre mis ruinas me levanto, / solo, desnudo, despojado, / sobre la roca inmensa del silencio, / como un solitario combatiente // Verdad abrasadora, / ¿a qué me empujas? // No quiero tu verdad, / tu insensata pregunta. // ¿A qué esta lucha estéril? // No es el hombre criatura capaz de /  contenerte, / avidez que sólo en la sed se sacia, / llama que todos los labios consume, / espíritu que no vive en ninguna forma / mas hace arder todas las formas. contra invisibles huestes. // Subes desde lo más hondo de mí, / desde el centro innombrable de mi ser, / ejército, marea. // Creces, tu sed me / ahoga, / expulsando, tiránica, / aquello que no cede / a tu espada frenética. // Ya sólo tú me habitas, / tú, sin nombre, furiosa substancia, / avidez subterránea, delirante. // Golpean mi pecho tus fantasmas, / despiertas a mi tacto, / hielas mi frente, / abres mis ojos. // Percibo el mundo y te toco, / substancia intocable, / unidad de mi alma y de mi cuerpo, / y contemplo el combate que combato / y mis bodas de tierra. // Nublan mis ojos imágenes opuestas, / y a las mismas imágenes / otras, más profundas, las niegan, / ardiente balbuceo, / aguas que anega un agua más oculta y densa. // En su húmeda tiniebla vida y muerte, / quietud y movimiento, son lo mismo. // Insiste, vencedora, / porque tan sólo existo porque existes, / y mi boca y mi lengua se formaron / para decir tan sólo tu existência / y tus secretas sílabas, palabra / impalpable y despótica, / substancia de mi alma. // Eres tan sólo un sueño, / pero en ti sueña el mundo / y su mudez habla con tus palabras. // Rozo al tocar tu pecho / la eléctrica frontera de la vida, / la tiniebla de sangre / donde pacta la boca cruel y enamorada, / ávida aún de destruir lo que ama / y revivir lo que destruye, / con el mundo, impasible / y siempre idéntico a sí mismo, / porque no se detiene en ninguna forma / ni se demora sobre lo que engendra. // Llévame, solitaria, / llévame entre los sueños, / llévame, madre mía, / despiértame del todo, / hazme soñar tu sueño, / unta mis ojos con aceite, / para que al conocerte me conozca.

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The Catcher in the Rye – J. D. Salinger

Este é o romance que celebrizou o escritor e é e será durante muito tempo um clássico obrigatório.

O livro conta alguns dias da vida de Holden Caulfield, um jovem de 16 anos vindo de uma família abastada de Nova Iorque, que expulso de uma escola reputada devido a más notas e indolência tenta adiar ao máximo o encontro com os seus pais. Reflete sobre a sua curta vida e tenta encontrar um equilíbrio no seu caminho, visita um professor da escola em jeito de despedida, uma antiga namorada, a sua irmã de dez anos, um amigo e outro professor (episódio que corre de forma inesperada e marcante); com todos estes tenta comunicar a grande confusão que vai na sua cabeça. Não havia na altura o termo: adolescência ou adolescente, não havia sido escrito ou romanceado com esta mestria os anos difíceis desta fase tempestuosa do crescimento dum indivíduo. Terá Salinger inventado a adolescência? Será um exagero. Claro que como sabemos, nos anos a seguir, o adolescente passou a estar bem presente na sociedade impondo-se e conquistando o seu lugar. Hoje é bem compreendido todas as dores de crescimento desta fase importante do desenvolvimento humano.

A fama deste romance também se deve a motivos invulgares que acabaram por estender a sua fama. Por exemplo, o assassino de John Lennon, Mark David Chapman, carregava este livro consigo no dia em que cometeu o crime, pelo qual desenvolveu uma obsessão. Noutro caso, o atirador que tentou matar Ronald Reagan a 30 de abril de 1981, afirmou a mesma coisa. Parece que serviu de alguma influência este livro, o que mostra que uma obra de grande riqueza como esta pode ter várias leituras e nem sequer as melhores e as mais saudáveis. No filme "Teoria da Conspiração ", Mel Gibson que faz o papel de um motorista de táxi psicótico e que acha que todos estão contra ele possui a paranoia de comprar todos os dias um exemplar do mesmo livro, nada mais nada menos que: The catcher in the rye, tendo por isso, em sua casa, milhares de exemplares dessa obra. Pormenor este que acabará por ser relevante no resto do enredo. E não faltam outras alusões à obra de Salinger.

Não por estes motivos ou associações de gente maluca e imaginativa, este é um livro a ler. Eu apreciei muito a leitura. Também tive 16 anos e também me custou muito crescer. Foi confuso, estranho e atribulado. Como para a maioria da gentalha. Dizer que foi inspirador já é outra história.

Boa leitura.

Setembro 2010

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E agora: Ferreira Gullar




    “Corpo meu corpo corpo / que tem um nariz assim uma boca / dois olhos / e um certo jeito de sorrir 7 de falar / que minha mãe identifica como sendo de seu filho / que meu filho identifica / como sendo de seu pai / corpo que se pára de funcionar provoca / um grave acontecimento na família: / sem ele não há José de Ribamar Ferreira / não há Ferreira Gullar / e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta / estarão esquecidas para sempre”
Excerto do livro tirado da contracapa, edição da editora Babel.

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A propósito de “Foz Sentida – António MR Martins”

“Oxalá”. Assim é:




“Migalhas destemperadas da vida, / partículas de vivência incontida; / réstias de missão não escolhida, / rescaldo de plenitude sofrida. // Lagoa de água profunda, inodora, / prenúncio de desfalecidas quimeras; / pendor de uma certeza que aflora / alvor de muitas outras primaveras. // Rótulos de temas desconhecidos, / ricos proveitos jamais assumidos / livros que se conhecem de cor...



 // Leitos pelo tempo esquecidos, / valores que nos são devolvidos, / pedaços de um mundo / melhor!...”





Que posso mais dizer. Escrita bela, velha ninfa que nos encanta.

Por estes dias escolhi este pedaço do livro. Noutros dias outros pedaços se seguirão. Assim faço com a escrita que me envolve no seu manto de nevoeiro, no seu chamamento de sereia. E esta escrita escolheu-me e a ela dirigi a minha barcaça ébria. Não sei quem encontrarei no outro lado do vale, se Rimbaud se Dom Sebastião… Que interessa isso… bons mapas irão guiar-me, nesta 3ª viagem… leva-me barcaça, até onde quiseres, guia-me entre as densas neblinas… até à densa floresta verde das “palavras”…

Obrigado autor António, pelo guia!

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Mais um escrito poético: "As Palavras"



“Palavras são o complemento / o afago e o entretenimento / a solidez e o compasso / o desnível do traço / a fluidez do movimento / a metáfora do pensamento / o preencher de cada espaço / a luz de cada vida / o descortinar a saída / do comboio em andamento.”





Livro editado pela editora: Temas Originais. Assim como: "Ser Poeta" e "Quase Feminino". Uma escrita gentil e encantada com a Vida.

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Porosidade Etérea (blogue de Inês Ramos e com colaboração de Rui Almeida)

Esta ordem que sigo, não tem o sentido de uma lista com graus de importância ou de prioridades de escolha, segue uma ordem muito pessoal de conhecimento e entusiasmo, difícil de explicar, no entanto não deixo de numerar a quantidade de blogues de que gosto.

O blogue: porosidade etérea, da autoria de Inês Ramos e agora com a colaboração de Rui Almeida, autor de: Lábio Cortado, prémio Manuel Alegre é dedicado a divulgação da escrita poética pura e dura. O título é da autoria de António Gedeão.

Uma fonte borbulhante de aprendizagem.

http://porosidade-eterea.blogspot.com/