sexta-feira, 21 de setembro de 2018

os sapatos

estão no lugar
saudável erro

o melhor do dia
é o erro

e logo a seguir
o ar livre

quanto aos sapatos
velhos e deformados

estão no lugar
saudável erro

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Sofrer o silêncio

Sofrer a eternidade
como os anjos

Sofrer o bem
preso ao Éden

Sofrer o infinito
o silêncio

Sofrer o silêncio
Sofrer o silêncio

sábado, 22 de abril de 2017

Lista de Compras

Lixívia
Amaciador para roupa, dos baratos, amarelo
Óleo para fritar
Detergente para máquina de lavar roupa
Iced tea
Pão a sério
Peixe para grelhar
Alface verdadeira
Fiambre, aí umas 200 gramas
Iogurtes normais, alguns de morango
Leite
Lava tudo, que não seja de lavanda
Creme limão, a imitar o Cif
Pensos normais, com aba, caixa grande
Vodka, muita vodka
Frango assado, metade com piri piri
Um mundo novo, com mais água
Cachaça do velho barreiro, ligeiramente adocicada
mas ninguém repara
Um novo Governo, eleito por cães e gatos
Um novo programa de Educação
Um novo Portugal
Um novo país de gente que não deite lixo na rua, nos jardins, nas bermas das estradas, pela janela das traseiras
Os cantos dos arruamentos organizados por condomínios
Um novo país, pobre mas culto, limpo mas culto
Livre
Cerveja preta, não percebo a cerveja branca
Vinho tinto, não percebo o vinho branco
Livros do Herberto Helder para ficarem na estante
Salsichas
Bifes de peru, dos finos
Sal grosso
Kiwis
Iogurtes naturais
Detergente Lava Tudo, cósmico, ecológico, qualquer perfume, menos lavanda e rosas
Mangueira completa de descarga, para máquina de lavar roupa
Comida para o cão
Café solúvel

Novas olheiras para uma vida eterna
Utopias novas
Podem ser parecidas com anteriores
Uns trocos para o vagabundo barbudo que anda aos gritos com um megafone, pelas ruas, vocifera: É tudo mentira! É tudo a fingir! Fomos enganados! (a esmola é para ver se se cala, incomoda muito e não vá ter razão)

E mais nada, por agora chega

(Não leves o meu cartão de crédito, não tem platfond, abraço)

domingo, 12 de março de 2017

noite de noites frias

relva de eira entre prédios
passos de cão
silêncio de pé torto
queda de sombra e candeeiro

sobra madrugadas
dias de vento com facas
as noites frias como danças roucas
murmuravam as horas

cantam os carros na avenida

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Em cima da mesa

de madeira um livro de Lydia Davis. Ao lado direito, a chávena, ainda fumegante de chá. Um bloco de apontamentos de capa negra de cartão e uma esferográfica vulgar de tinta preta. Mas aonde fora? Quando iria voltar? O rádio apanhava jazz e estática. Nem frio nem calor, um silêncio morno.

terça-feira, 5 de abril de 2016

segunda-feira, 28 de março de 2016

Dores, trabalho & blues

Conduzia.
Deixou de o fazer depois do acidente. Idade a mais. Deixou de beber e foi visitar as filhas.
A cada uma deixou um cheque. À mais nova um cão.
Partiu na velha carrinha a ouvir blues, Mississipi  John Burt ou coisa assim. Nunca mais o viram. A viajar por aí, sempre a cantar. Com um velho amigo, negro, coxo e excelente condutor.
Uma suave reforma depois de uma vida muito dura. Bem, penso que foi mais ou menos assim.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Post It

A solidão está com frio, fome e sono.

A chuva baila na irmandade solta dos vagabundos.

Nas noites de nevoeiro os autocarros verdes de dois pisos da memória aceleram pela cidade deserta, sem condutor e sem pica-bilhetes.

Num futuro próximo, num mundo alagado, os homens viverão em submarinos amarelos, para se diferenciam das águas de lodo e algas. Sargent Peppers será uma estrela, debaixo de um céu de diamantes.



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Os Objectos

Devia de haver mais felicidade. Não há suficiente felicidade.

A melancolia é uma forma de felicidade. Suave, como uma brisa. Vulgar e permanente. Abundante. Só de vez em quando é que há um tufão ou um tornado.

As coisas não saem do sítio onde as deixamos. A menos que lhes peguemos e as mudemos de lugar. Coisas são coisas. Não são cães. Um cão sempre pode roer o sofá quando não estamos presentes.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Carvão"


Carvão

Que sabem da poesia? A não ser o que os mestres da perdição lhes contam.
Que sabem do Viajante Solitário? A não ser o que estava escrito.
Que percebem de palavras a não ser o que os poetas ditam.
Quem conhece, na verdade, o que Herberto diz.
Quem acha que compreende Ferlingheti?
Quem, quem consulta os luares e os desconhecidos insólitos?
Quem acha que viveu no Século Prodigioso?
Quem acha que entende Lichtenstein?
Quem mora na rua dos tijolos secos, laranjas e sujos?
Quem substitui os sacrifícios de virgens a Baal e ao Deus-Sol e os atos sacrificiais de filhos
ao Deus Fumegante da Guerra, pela veneração cega aos deuses do Rock em anfiteatros de transe alienado?
Que percebem de tranquilidade? O rio sabe.
Que sabem da ecologia? De lixo percebem. E como o limpar? Como limpar as nossas cidades?
Como resolver o problema, sem o passar a outro, que passa a outro, que passa a outro, que passa a outro, que passa...
Como antes comunicar ao outro? Que não só ao nosso feio umbigo?
QUE FAZER COM O OUTRO?
Que fazer com o homem que nos bate à porta?
Murmura suplicante qualquer coisa com os lábios, que não ouvimos. Cheira mal, veste pessimamente, tem ar de nómada.
Somos frios o suficiente para aguentar o inferno devorador da nossa consciência?
Ainda conseguimos ignorar que morre gente como pardais nas ruas das cidades do holocausto actual
que criamos?
Será que não fazem falta, por serem árabes ou por serem africanos?
O que nos bate à porta. Seja quem for. Não queremos que nos entre em casa.
Mas a tempestade acabou de rebentar.
Não depende da nossa vontade para travá-la.
Esquecemos que hoje Um bate à porta. É corrido a pontapé como um cão sarnento.
Amanhã batem dois à porta. Noutro dia, são quatro e com seis famílias acampadas no nosso quintal a beberem água da nossa piscina como pardais sedentos.
Um dia, uma revolução passa na nossa rua, que observamos do alpendre do andar superior do nosso paraíso, a beber um mojito.
E certo dia, uma multidão incontável de homens e mulheres com roupas velhas, com fome e doentes invade a nossa casa e expulsam-nos.
E saberemos então. Como será a vida num acampamento de refugiados na cidade onde nascemos?
Como será viver sem duche, televisão e sapatos?
Como será viver sem dinheiro no bolso, sem net e sem fogão? Sem táxi ou cinema? Sem praia, penso higiénico e ar condicionado? Sem a música de Lyle Lovett, Willie Nelson ou Leonard Cohen? E a literatura suja do velho Bukowski? Sem as torradas de manhã e o tinto ao almoço? Sem a poesia de Whitman, ou do grande Ramos Rosa? Sem ouvir o sax de David S.Ware gritar melodias da rua sem fim?
Que pérfido dia! Que posso fazer por vós? Que podem fazer por nós?
Sou apenas o mais comum dos cães sem raça das alamedas despidas da cidade velha.
Não sabemos. Pura e simples. Não sabemos.
Queremos mais e não sabemos do quê! Que morramos já!
A falta que fazemos aos vermes também eles famintos!

Ago.07

...


Poema de 2007. Publicado no meu 1º livro: "Tijolos de Verde Rude", de 2008. Um poema dito por um qualquer homem comum ao balcão da sua tasca preferida. Era para ser um poema escrito por quem não é poeta e apenas expressa pensamentos e inquietações.

Este poema pensa no Outro que nos chega de longe e que olhamos com estranheza. Decidi publicá-lo novamente, aqui. Nestes dias de falta de Razão e Paz. Penso muito nos "refugiados". Não os chamo assim na minha mente. São Homens, Mulheres, Velhos e Crianças. Somos nós que estamos ali também. O Outro somos nós. Somos todos Nós. Esta deveria ser a Fórmula Resolvente a aplicar aqui, ali e acolá.
Bem hajam.