quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Em cima da mesa

de madeira um livro de Lydia Davis. Ao lado direito, a chávena, ainda fumegante de chá. Um bloco de apontamentos de capa negra de cartão e uma esferográfica vulgar de tinta preta. Mas aonde fora? Quando iria voltar? O rádio apanhava jazz e estática. Nem frio nem calor, um silêncio morno.

terça-feira, 5 de abril de 2016

segunda-feira, 28 de março de 2016

Dores, trabalho & blues

Conduzia.
Deixou de o fazer depois do acidente. Idade a mais. Deixou de beber e foi visitar as filhas.
A cada uma deixou um cheque. À mais nova um cão.
Partiu na velha carrinha a ouvir blues, Mississipi  John Burt ou coisa assim. Nunca mais o viram. A viajar por aí, sempre a cantar. Com um velho amigo, negro, coxo e excelente condutor.
Uma suave reforma depois de uma vida muito dura. Bem, penso que foi mais ou menos assim.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Post It

A solidão está com frio, fome e sono.

A chuva baila na irmandade solta dos vagabundos.

Nas noites de nevoeiro os autocarros verdes de dois pisos da memória aceleram pela cidade deserta, sem condutor e sem pica-bilhetes.

Num futuro próximo, num mundo alagado, os homens viverão em submarinos amarelos, para se diferenciam das águas de lodo e algas. Sargent Peppers será uma estrela, debaixo de um céu de diamantes.



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Os Objectos

Devia de haver mais felicidade. Não há suficiente felicidade.

A melancolia é uma forma de felicidade. Suave, como uma brisa. Vulgar e permanente. Abundante. Só de vez em quando é que há um tufão ou um tornado.

As coisas não saem do sítio onde as deixamos. A menos que lhes peguemos e as mudemos de lugar. Coisas são coisas. Não são cães. Um cão sempre pode roer o sofá quando não estamos presentes.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Carvão"


Carvão

Que sabem da poesia? A não ser o que os mestres da perdição lhes contam.
Que sabem do Viajante Solitário? A não ser o que estava escrito.
Que percebem de palavras a não ser o que os poetas ditam.
Quem conhece, na verdade, o que Herberto diz.
Quem acha que compreende Ferlingheti?
Quem, quem consulta os luares e os desconhecidos insólitos?
Quem acha que viveu no Século Prodigioso?
Quem acha que entende Lichtenstein?
Quem mora na rua dos tijolos secos, laranjas e sujos?
Quem substitui os sacrifícios de virgens a Baal e ao Deus-Sol e os atos sacrificiais de filhos
ao Deus Fumegante da Guerra, pela veneração cega aos deuses do Rock em anfiteatros de transe alienado?
Que percebem de tranquilidade? O rio sabe.
Que sabem da ecologia? De lixo percebem. E como o limpar? Como limpar as nossas cidades?
Como resolver o problema, sem o passar a outro, que passa a outro, que passa a outro, que passa a outro, que passa...
Como antes comunicar ao outro? Que não só ao nosso feio umbigo?
QUE FAZER COM O OUTRO?
Que fazer com o homem que nos bate à porta?
Murmura suplicante qualquer coisa com os lábios, que não ouvimos. Cheira mal, veste pessimamente, tem ar de nómada.
Somos frios o suficiente para aguentar o inferno devorador da nossa consciência?
Ainda conseguimos ignorar que morre gente como pardais nas ruas das cidades do holocausto actual
que criamos?
Será que não fazem falta, por serem árabes ou por serem africanos?
O que nos bate à porta. Seja quem for. Não queremos que nos entre em casa.
Mas a tempestade acabou de rebentar.
Não depende da nossa vontade para travá-la.
Esquecemos que hoje Um bate à porta. É corrido a pontapé como um cão sarnento.
Amanhã batem dois à porta. Noutro dia, são quatro e com seis famílias acampadas no nosso quintal a beberem água da nossa piscina como pardais sedentos.
Um dia, uma revolução passa na nossa rua, que observamos do alpendre do andar superior do nosso paraíso, a beber um mojito.
E certo dia, uma multidão incontável de homens e mulheres com roupas velhas, com fome e doentes invade a nossa casa e expulsam-nos.
E saberemos então. Como será a vida num acampamento de refugiados na cidade onde nascemos?
Como será viver sem duche, televisão e sapatos?
Como será viver sem dinheiro no bolso, sem net e sem fogão? Sem táxi ou cinema? Sem praia, penso higiénico e ar condicionado? Sem a música de Lyle Lovett, Willie Nelson ou Leonard Cohen? E a literatura suja do velho Bukowski? Sem as torradas de manhã e o tinto ao almoço? Sem a poesia de Whitman, ou do grande Ramos Rosa? Sem ouvir o sax de David S.Ware gritar melodias da rua sem fim?
Que pérfido dia! Que posso fazer por vós? Que podem fazer por nós?
Sou apenas o mais comum dos cães sem raça das alamedas despidas da cidade velha.
Não sabemos. Pura e simples. Não sabemos.
Queremos mais e não sabemos do quê! Que morramos já!
A falta que fazemos aos vermes também eles famintos!

Ago.07

...


Poema de 2007. Publicado no meu 1º livro: "Tijolos de Verde Rude", de 2008. Um poema dito por um qualquer homem comum ao balcão da sua tasca preferida. Era para ser um poema escrito por quem não é poeta e apenas expressa pensamentos e inquietações.

Este poema pensa no Outro que nos chega de longe e que olhamos com estranheza. Decidi publicá-lo novamente, aqui. Nestes dias de falta de Razão e Paz. Penso muito nos "refugiados". Não os chamo assim na minha mente. São Homens, Mulheres, Velhos e Crianças. Somos nós que estamos ali também. O Outro somos nós. Somos todos Nós. Esta deveria ser a Fórmula Resolvente a aplicar aqui, ali e acolá.
Bem hajam.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

a beleza é assimétrica e repete-se (haicais 2010 a 2012)



verdes de troncos
assimétricos e o vento
que não dança

.

chá noturno sem
açúcar e Coltrane - passos
de gatos lestos

.

cão aos pés do
vagabundo – hortas urbanas e
mulheres que passam

.

ao mirar o céu,
mulher decide estender
roupa – uma lágrima

.

outono em lisboa –
homens sérios apanham
chuva fria

.

nudez de corpo,
mulher de oliveira – as
aves saltitam

.

baratas na casa
velha – mulher e cão,
varanda de metal

.

velho com saco,
o elétrico chia sempre
nas curvas

.

muralha do castelo,
daqui vê-se o rio e as fontes
da tua alma

.

cão aos pés do
vagabundo – hortas urbanas e
mulheres que passam

. 

ao mirar o céu,
mulher decide estender
roupa – uma lágrima


outono em lisboa –
homens sérios apanham
chuva fria

.

bankok - crianças
banham-se em alguidares
grandes – novembro

.

velhos chutam
vida com lata na rua –
rio de janeiro

.

mulher e homem
dançam – chuva leve
de setembro

.

águas de Mississipi –
blues de suor e esguelha
no verão quente

.

não sei haicai
só sei parar o tempo -
câmara ação

.

faz vento e sombra
traz flor amarelo-laranja
que Deus sorria

.

mulher e criança
estrada de terra batida
vão comprar azeite

.

sol entre os ramos
da oliveira – bebe água,
sacia-te e vamos

.

galinhas e o lagar
vazio – outra mulher e sorriso
dinheiro e adeus

.

sol desenha sombras
a menina saltita – tem
flores no cabelo

.

um ombro espreita-me
na vida – por entre os pássaros
que chilreiam lume

.

vento forte no
sopé do vulcão - flor do
Japão resiste

.

fica no mapa o
retângulo - ficam no
mar os rostos


.

oliveira e terra
fado e tão só as almas
em imersão


.

éden sem censo
estrada sem saudade
e tudo mais

.

passos errados -
homem bêbado sorri,
talvez à lua


.

hera lenta no
muro de tijolo – uma
janela brilha

.

mulher caminha
como sem peso – doce
canção de vento

.

mulher e menina
pedem pão – as figueiras
dobram-se em dor



tão branco quanto
luz - nas dunas, o sussuro
exalado do mar

(foto de Maria Margarida Oliveira Ramos)




pardal vai e vem,
o sol esmorece em
nuvens cinza

(foto de Maria Margarida Oliveira Ramos)




pescoço para
cima - velho e menino
veem liberdade

(foto de Maria Margarida Oliveira Ramos)

.

sol entre ramos
da oliveira - sacia o
ar do caminho

.


burro – lento,
força simbólica de país
que não desiste

.

velhos sentados
na raiz da árvore
sem sombra

.

mulheres falam
mulheres conversam sem
serem multidão

.

dois rastafaris
saltam no areal e nenhum
marca golo

.

a bola chutada
e a onda não devolveu
vento frio

.  

Mali - no deserto
árvore tombada marca
fronteira

.

já viste um
rosto de fome e frio
sem vazio

.

corno de áfrica
todas as estações são negras
e secas

.

homens esperam
uma chave – sol baila
entre andaimes

.

melro saltita
na relva – criança pesquisa
uma formiga

.


mulher e homem
aguardam autocarro -
choverá hoje?

.  

vagabundo cofia
a barba – cão dorme
a seus pés

.

mulher africana
ri alto – uma festa nos
seus lábios

.

banda de jazz
sem baterista, improvisa
antes que chova

.

onda nos pés
da senhora com frio –
caniche ladra

.

menina pinta
lamenta o mar e céu por
mudar de cor

.

barco atravessa
horizonte, nuvens negras
vento e solidão

.

mar, fim de dia
os passos marcados na
areia – silêncio

.

hospital vazio
ao fundo risos, homem
mostra desenho

.

mulher idosa
observa através da janela
a vida a sumir

.

automóvel trava
esquilo morto – crianças
lamentam

.

viola elétrica
beco escuro de rua velha
homem cego

.

como saberíamos
se não víssemos a fome
na televisão

.

observo fatia
de pão – em quantos pedaços
se pode dividir

.

morrer de fome
realidade atroz mostra
que tudo falhou

.

desligo televisor
oro pelos famintos e mais
um dia de vida

.

dylan canta e as
árvores de new orleans
bailam ritmadas

.

fado improvisado
em taberna antiga – a rua
desce até ao cais

.

lua cheia, homem
de casaco escuro espera
mulher e futuro

.

deserto – viajantes
escutam griot cantarolar
fogueira acesa

.

terra queimada
flor branca vacilante - troncos
negros fumegam

.

árvores, vento
asfalto ondula na tarde
pardais e melros

.

cai a noite, os
passos de quem passa
gratos sorrisos

.


banda de jazz
sem baterista, improvisa
antes que chova

.


sobra o mar
depois do sonho rebentado
do naufrágio

.


poeta tem idade
a oliveira e a poesia
nem por isso

.


trabalho árduo
a solução para a formiga
e para o ocioso

.


cala-te e trabalha,
vento mas isso já tu sabes
faz séculos

.

canção blues suave
em velha telefonia com pó –
tarde quente




velho improvisa
com velho saxofone –
brisa da marina

.


segunda – feira
e o vento com saudades
de ti, oliveira

.


criança brinca
com dente-de-leão
tarde e sol

.


sobra o mar
depois do sonho rebentado
do naufrágio

.


homem observa
o mar – nos seus olhos
a desistência

.


eu e tu – toda
a primavera – e a sombra
das figueiras






rua de alfama
bashô sorriria  aos
gritos do mulherio

.


Deus não é um
plátano-gigante mas sim
todas as primaveras






Luis, o vagabundo
vende brinquedos de lixo
por pão e sopa






era tão tarde
ela tão bela eu tão
cansado - noite






cipreste dança -
o autocarro não espera
e não importa

.


oitenta pardais
dois aguaceiros, um céu
ao entardecer



.

o gelo estalado
baila em kamsko votkinsk
terra de thaikovski






beleza da flor
vestida como mulher
de mel



.



os seios nus
o lago estendido no
calor – tarde



.



tronco morto
pequeno pisco saltita
e logo voará



.

verdes de troncos
assimétricos e o vento
que não dança




duas formigas –
- não lutam pela mesma
folha de erva

.


nascem as sombras
a noite e os teus passos
hera lenta



.

(pollock)
novembro de frio –
tela espalhada na cor
de várias dores


(dali)
com uma colher
na mão – na sombra da
figueira, o sonho

.

(pablo)
dorso de mulher
ilha e vento, casa caiada
pintor e sorriso


(klee)
nas costas do
Verão a criança pinta –
klee observa


(van gogh)
absinto e ventanias
os monstros trazem fogos
alados – primavera


(rothko)
mestre, cante-me
a melancolia dos edifícios
enquanto chove


(miró)
fecho os olhos
para te ver na cor do
tombo – barcelona

.

(frida)
vulcão rasgado
ventre de agonia – sol
e terra vermelha

(chagall)
anjo preso ao
violino – céu azul onde
metáfora voa


(klimt)
volúpia de seda –
a nudez ronrona como
vida quente



.


o haicai longo
revoltou-se e gritou
para onde fostes, vento...


.


... o haicai curto
respondeu: abre os olhos
estou onde sempre estive.


.


(brasil)
vento leve - vem
do brasil - como samba ou
bonito sabiá


.


assimétrica e repete-se

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Abrir o caminho

com buldózer, para plantar betão, deitar abaixo a árvore feia e domar os selvagens nus que viviam debaixo dela. Os selvagens revoltaram-se com danças e fogueiras. Chacinar os que mais gritavam. Educar os outros. Regar tudo com betão. Decorreram várias gerações. Começou a faltar a água e o ar. Destruir o betão. Plantar árvores envergonhadas e cultivar ervas de comer. O selvagem voltou, com i-phones e net. Depois da exaustão da roupa, novamente a nudez como moda. As fogueiras e os cantos neo-hippies. Os antigos selvagens, os seus descendentes foram para longe, onde houvesse água de beber e sombra. Agora, foi a árvore velha que se revoltou. Expulsou os neo-selvagens e já não admitiu ninguém. No seu tronco, habitam ervas não-comestíveis. Na sua sombra, pequenos animais que não se comem uns aos outros. Subitamente, uma velha paz.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

não quero

escrever bem
não me leva a lado nenhum
ego - vaidade
para que me serve - quero só as palavras juntas
ou separadas
como crianças de cócoras na areia da tarde, na hora das gaivotas
questionando-se se o caranguejo está morto ou mexe


escrever bem
de que me serve
que te sirva a ti que paraste para beber uma cerveja fresca
nesta era de calor sem fulgor
se não te sirvo
de que me serve
pensa lá nisso

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

as ÁRVORES, sem folhas e COM janelas

as CRIANÇAS começaram a correr, coloRINDO  a vila que antes morta, só acolhia motoqueiros de má espécie e ROULOTES de família, e as crianças

rebentavam petardos de imaginação

nas praias sós, de caranguejo no pé e conchas no cabelo, e o que elas gritavam

dando sede de festa a todas as árvores, velhos incluindo os velhos do poema

TUDO se passou e nada se registou